Fórmula certa para um futuro ruim Ou: receita de bolo podre.

Como se desconstrói uma nação? Infelizmente a receita é simples e os ingredientes são de fácil alcance dos sujos dedos de qualquer um. Junte, a gosto: gananciosos gestores do mega agronegócio, inescrupulosos banqueiros e industriais, nacionais e estrangeiros, intelectuais vendidos, líderes (pseudo) religiosos, pseudo líderes sindicais; acrescente alguns fascistas, um ou outro radical de direita, uma dúzia de imbecis úteis. Misture tudo, leve ao forno eletrônico (…), faça-os eleitos.

 

Usando-se da estrutura eleitoral, vendida a todos nós como justa e democrática (sic), monte uma coluna cervical político/partidário/administrativa que, do líder comunitário, passando pelo sindicalista, pelo vereador, pelo prefeito, chegando ao deputado estadual, ao governador, ao deputado federal, alcance o senado e por fim ao presidente. Para fermentar, adicione alguns juízes. Quanto mais, melhor.

 

Para dar liga e impedir que o bolo rache, dilua à massa partidos políticos ditos de esquerda, mas que na verdade sejam meramente fisiológicos, que sirvam apenas para preencher espaço, para engrossar, sendo útil a quem mande. Alguns, em especial, são de utilidade ampla, se adaptam muito bem a qualquer preparo, basta apenas que se lhe dê dinheiro ou cargos, secretarias, gabinetes, ministérios, etc.

 

Deixe a massa crescer, algo que ocorre logo. Pronto o bolo, leve novamente ao forno, aqueça em fogo brando. Ao final, chame um bom confeiteiro, aplique sobre ele uma pomposa e grossa camada de chocolate ou glacê. Agora só falta vender. Para isso, contrate os melhores jornais e revistas que o mercado publicitário oferece. Empastele, quebre, feche os que não aceitarem suborno ou que mal, do bolo, falem. Propaganda bem feita, com moças belas, recatadas, do lar e moços bem apessoados (atores, atrizes, intelectuais, músicos, escritores, bloguistas, colunistas sociais…), falando bem do bolo, ele se vende, praticamente, por si só.

 

Aliás, NÂO venda o bolo. Obrigue-se a sê-lo servido ao povo, como única refeição, pasto, do dia. Que seja dado aos estudantes, nas escolas sem partido, depois de feita uma ampla e saneadora reforma em seu ensino, depois que seus professores houverem sido devidamente doutrinados, ameaçados, demitidos ou cooptados mesmo. Isto é, nas escolas que ainda resistirem, aos estudantes que ainda restarem, a quem ainda queira ser professor…

 

Estamos assistindo ao desmantelamento criminoso de uma nação. Dia a dia, progressiva, sorrateira, inescrupulosamente. Desde muito antes do golpe (sim, não há outro nome, senão este para o que houve em agosto deste ano), uma máquina de desmonte social estava em pleno funcionamento. De um lado um grupo de históricos e gigantescos conglomerados burgueses, do outro um falso grupo socialista, socialista somente em seu discurso. Entre eles, um acordo, puro e simples. “Me dê poder, dividimos o dinheiro; me dê dinheiro, dividimos o poder”. No final das contas dividiram entre si, uma coisa e outra e nesse pacto feito entre diabos, a conta veio para nós, o povo.

 

Olhando para todos os lados dessa estória, difícil ver uma luz no fim do túnel. Em quem depositar uma moeda de confiança quê seja? Nos sindicatos, em sua maioria vendidos ou manipulados por partidos falsamente de esquerda? Nos partidos ditos de esquerda que se venderam ou que estão agora mesmo se vendendo, onde ainda haverá segundo turno nas eleições? Nos grupos sociais, nos estudantes, nas entidades de base, todos eles ou manipulados ou anestesiados por quase todo o país?

 

A desilusão parece fazer cada vez maior sombra sobre nós, ao passo que andamos pelas ruas, em que abrimos ou assistimos os jornais e vemos e ouvimos uma multidão de seres aplaudindo o nascimento deste estado fascista, ou simplesmente não reagindo contra ele. Ao pequeno grupo dos retardados que ainda denunciem o golpe, ao mesmo tempo já dado e ainda em andamento (grupo do qual me considero parte), recaem olhares de ódio, ou de profunda incompreensão. Nos gestos mais singelos, ou abertamente mesmo, são apontados nas ruas, nas filas, em meio à multidão. Basta não usar uma camisa verde/amarela ou, pior, usar uma de cor vermelha; basta não aplaudir o discurso alienado/alienante do “trabalho árduo (até os 65 anos ou mais) como um sinal do bom caratismo do cidadão”; basta se esboçar claro espanto à escola que querem aos nossos jovens: acéfala, clerical, transformadora do ser numa coisa, num apertador de parafusos e botões, num mudo idiota dizedor de sins. Qualquer um que veja com óbvio horror a aprovação de um projeto que congela os investimentos sociais por vinte anos (…!) será marcado, estigmatizado à testa e publicamente exposto, relegado como um indigno, um pária, um marginal, um bandido, um criminoso, um terrorista, um traidor do Brasil, do seu governo e do seu povo.

 

Em 1933 os nazistas tomaram a Alemanha e ninguém acreditou nas denuncias de terror que se seguiram. O mundo olhou para os lados, ignorou todos os atos lesa humanidade colocados em andamento, surdo e cego se fez aos apelos dos oprimidos. No poder, criaram os guetos, os campos de extermínio, os fornos crematórios; a eles, encaminharam os judeus, os comunistas, os anarquistas, todo e qualquer um que não pensasse como eles, ou que não adorasse a Hitler como a um deus. O Brasil teve a sua versão Nazi entre 1964 e 1985, e assistindo os nossos últimos acontecimentos seria interessante questionarmos se tudo aquilo realmente já passou, se aquelas duas tenebrosas páginas da história estão, de fato, no passado distante, ou se (re) vivem entre nós, em nossos dias. Se Carl Gustav Jung estava certo sobre o inconsciente coletivo, a soma dos mundos interiores da colônia humana, olhando hoje ao nosso derredor é ponderável dizer que considerável parte de nosso submerso iceberg psi é feito de lama, está podre, é feio e fede.

 

(PS) Nota sobre a receita: criada por um renomado especialista, conduzida por um meticuloso chef, coordenada por meia dúzia de ajudantes (um deles grande conhecedor de farinha) e feita a 366 pares de mãos, todas sujas. Validade de 20 anos. Serve mais de 200 (milhões) de porções. Vai um pedaço ai?

Josafá Santos dos Reis

Josafá Santos dos Reis é graduado em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (1998), pós-graduado em Psicologia da Educação. Atualmente é professor de Ensino Fundamental e Médio, atuando como servidor público, pela Secretaria de Educação do Estado da Bahia

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