Série documental retrata nuances da relação do povo sertanejo com a chuva
POR DANIELA CASTRO – ASCOM (daniela.castro@ymail.com)
“Tempo bonito no sertão é com o céu fechado de nuvens carregadas”. A frase que acompanha uma das obras de “Presságio” traduz a linha narrativa que costura a pesquisa do fotógrafo e artista visual Marcelo Vaz e resulta em sua primeira mostra individual. Todas as fotografias têm uma única localização, Macaúbas, cidade do Centro-Sul baiano. Filho da terra, o artista transporta para seu trabalho a memória de um povo que vê beleza nos dias nublados e ressignifica o próprio sentido da palavra que dá nome ao projeto. A mostra, realizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), está em cartaz no MAB (Museu de Arte da Bahia) até 23 de agosto, com acesso gratuito.

No espaço expositivo, se destacam 26 imagens de uma série documental que sugere uma linha do tempo inspirada nos instantes que marcam a espera pela chuva. Da expectativa causada pelo céu ligeiramente nublado até a celebração do açude repleto, há flagrantes de nuvens que mimetizam figuras humanas, recortes de um solo árido, duelo de cores no horizonte, a vegetação castigada pela seca, singelos registros de fé. Emoldurados em formato 90x60cm, os cliques de Marcelo Vaz ganham a companhia de uma instalação em forma de janela, que convida a experimentar o ponto de vista do fotógrafo.
“A janela é um elemento importante porque representa, ao mesmo tempo, um lugar físico e uma forma de enxergar o mundo. Foi através das janelas da minha casa que comecei a fotografar as nuvens, como prática diária do aprendizado na fotografia. Foi de onde o ‘Presságio’ se originou e formou novas janelas para que outras pessoas também possam olhar, interpretar e construir suas próprias leituras”, explica Vaz, que revela a influência de suas memórias de infância. “Macaúbas é a minha origem. Foi onde nasci, cresci, construí minhas primeiras referências, onde aprendi a observar a natureza e a vida do sertão. Hoje percebo que minhas fotografias carregam essa herança afetiva e traduzem um olhar formado pela experiência de viver e recordar tudo isso”, reforça.
O ambiente também conta com a representação de grandes nuvens, que extrapolam a superfície das fotografias presas às paredes e sobem ao teto para criar um céu sobre o público. “A ideia por trás das nuvens é dar sequência ao convite de ‘Presságio’, incentivando-nos a estarmos presentes e a apreciarmos o que parece ser comum. É um chamado para nos vermos como parte do cosmos”, explica a artista multidisciplinar Helen Salomão, que assina a curadoria da exposição e compartilha com Marcelo Vaz o interesse pela confluência com a natureza e questões ligadas à espiritualidade. A partir da escuta atenta, ela buscou honrar a trajetória do artista. “É a perspectiva de alguém que realmente vive no sertão e conhece o valor e as bênçãos que a chuva traz”, ressalta a curadora.
Em dimensões reduzidas, outra série desperta a curiosidade pelo uso da cianotipia, processo artesanal que transforma a fotografia digital em um “negativo” em tom azul característico e conta com a contribuição da artista Letícia Durlo. Impressas em papel vergê no formato 20×20, as peças podem ser tocadas livremente, o que garante uma experiência sensorial a quem visita “Presságio”. Exceto essas, todas as obras apresentadas na mostra estão disponíveis para aquisição em tiragem limitada, produzidas com impressão FineArt e acompanhadas de certificado de autenticidade.
SERVIÇO
O quê: Exposição “Presságio”, de Marcelo Vaz, com curadoria de Helen Salomão
Onde: MAB (Museu de Arte da Bahia) – Av. Sete de Setembro, 2340, Corredor da Vitória
Quando: Até 23 de agosto (terça a domingo, das 10h às 18h)
Quanto: Acesso gratuito
Foto: Marcelo Vaz




