Do Pequeno Conselho de Westeros para as águas quentes de Érico Cardoso: a liderança na arte e na vida

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LUIZ FREDERICO REGO (FREDINHO)

No universo de Game of Thrones , poucas cenas traduzem tão bem a essência da ciência política e da psicologia da liderança quanto o embate entre Tywin Lannister e o Rei Joffrey Baratheon. Ao ouvir o jovem monarca gritar furiosamente “Eu sou o rei!”, Tywin responde com uma frieza cirúrgica: “Qualquer homem que precisa dizer ‘Eu sou o rei’ não é um rei verdadeiro.” Esta frase não é apenas uma bronca familiar; ela sintetiza a fratura exposta entre a liderança legítima e o autoritarismo frágil.
A dinâmica da cena memorável entre Joffrey e Tywin perpassa a clássica distinção moderna entre o “chefe” e o “líder”. Joffrey representa o chefe impositivo. Seu poder emana puramente do cargo (o Trono de Ferro). Ele confunde a coroa com competência e a herança com respeito. Tywin personifica a liderança natural e pragmática. Ele não possui a coroa, mas detém o poder real. Sua autoridade não vem de um grito, mas de suas ações, de sua postura e de sua capacidade estratégica.

A verdadeira autoridade é psicológica e comportamental, nunca puramente formal. A liderança impositiva de Joffrey baseia-se no medo e na insegurança. Quem precisa verbalizar o próprio poder está, na verdade, confessando que ele não existe na mente dos liderados. O grito do jovem rei é um sintoma de impotência: ele percebe que, apesar do título, ninguém ali o respeita genuinamente. Por outro lado, a liderança natural se consolida pelo respeito e pela entrega de resultados. Tywin é obedecido porque é visto como o pilar que sustenta o reino. A autoridade autêntica é silenciosa.

A forma como um líder exerce o poder molda diretamente o comportamento daqueles que estão abaixo dele. Sob o comando impositivo (Joffrey), os liderados operam sob o espectro do medo crônico e da humilhação. Isso gera um ambiente de sabotagem velada, ressentimento e deslealdade. Ninguém na corte daria a vida por Joffrey por admiração, apenas por sobrevivência. Sob o comando legítimo (Tywin), os liderados buscam alinhamento estratégico e estabilidade. Embora Tywin também utilizasse o medo como ferramenta política externa, internamente sua liderança gerava ordem. Os súditos e aliados sabiam o que esperar dele: competência, proteção e direção clara.

Da ficção de Game of Thrones , pulo para a realidade do cotidiano de nossa política regional e suas peculiaridades. Quando tive conhecimento, no último dia 15 de julho, por meio de matéria deste Achei Sudoeste do vídeo divulgado pelo prefeito de Érico Cardoso, Eraldo Félix, acompanhado de seu vice-prefeito Deivison Mendonça, me surpreendi de imediato. No registro, ambos ameaçavam demitir servidores que não ‘estivessem a fim de fazer parte do time’, em referência à reeleição do governador Jerônimo Rodrigues. O gesto era um exemplo pedagógico de assédio eleitoral. Infelizmente, faltam a muitos prefeitos a mínima noção de republicanismo e sobra confusão entre o que é público e o que é privado.

Não era exagero meu pensar assim, tanto que o Ministério Público Eleitoral (MPE) acionou a Justiça Eleitoral na última terça-feira, dia 21 de julho, para exigir a remoção imediata do vídeo publicado no Instagram pelo gestor. O órgão ministerial apontou na Representação que o prefeito utilizou metáforas do futebol para constranger e pressionar abertamente os trabalhadores que não alinharem o voto com o seu grupo político.

O uso de expressões como ‘ou joga nesse time ou pede pra sair’ ganhou, devidamente a meu ver, contornos claros de coação eleitoral, configurando abuso do poder político para intimidar tanto os eleitores de Érico Cardoso quanto o funcionalismo público municipal. A Representação do MPE, inclusive, foi acolhida pelo Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), em decisão liminar de hoje, dia 23/07/2026.

Mas um outro olhar que este fato me despertou foi para o aspecto da liderança. Na ficção, quando alguém diz “eu sou o rei”, é porque não é um rei verdadeiro, como Game of Thrones evidencia. Na vida real, quando um gestor precisa recorrer ao “sabe com quem está falando?” ou ao “eu sou o chefe aqui”, ele já perdeu a liderança. O verdadeiro líder é aquele cuja ausência é temida e cuja presença inspira direção. No caso do prefeito de Érico Cardoso, apelar para a coação e para a analogia futebolística para dizer, em período pré-eleitoral, que ‘aquele que não tiver a fim de fazer parte desse time, pede para sair logo agora, para eu não ter a decepção de ter que mandá-los embora’, revela a fragilidade de sua liderança. Ao dizer um ‘ou joga de acordo com o time que a gente escala, ou não faz parte do time’, o gestor demonstra que exerce o direito de mandar, mas não a capacidade de liderar.

No contexto de uma campanha eleitoral, e considerando que a função de prefeito é de natureza política e confere atribuições para efetuar provimentos em cargos de livre nomeação e exoneração – os chamados demissíveis ad nutum , que dispensam motivação -, é de se esperar que os servidores comissionados acompanhem a escolha partidária do governante. Obrigar que funcionários tomem partido para ‘jogar no mesmo time’ parece até uma redundância, de tão óbvia que é essa dinâmica para quem está inserido nesses contextos.

Liderança de verdade possuem os prefeitos que sequer precisam ameaçar, coagir ou impor suas vontades. É o caso, por exemplo, dos políticos que apenas anunciam quais candidaturas vão acompanhar – não só para governador, mas para deputado estadual e federal, por exemplo – para que seus admiradores e correligionários decidam, naturalmente, sem ter suas liberdades violadas, prestar o devido suporte em forma de engajamento e votos. Isso ocorre porque, diante de um líder autêntico, os liderados já se sentem parte do projeto, vestem a camisa e entram em campo motivados apenas pela satisfação de terem um referencial a seguir. Infelizmente, líderes com esse perfil têm ficado cada vez mais escassos nos últimos anos, inclusive em nosso sertão.

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