A bem da verdade, José Sarney não foi um exemplo de presidente da República cuja gestão mereça servir de modelo. Pelo contrário, não teve escrúpulos, por exemplo, ao render-se aos caprichos e assumir os ônus das medidas populistas propostas pelo então deputado federal Ulysses Guimarães para viabilizar um projeto de poder que por pouco, não fosse o surgimento de um (desastre) político com mais carisma para interromper o sonho, mas de uma coisa o cacique maranhense não pode ser acusado, o de não valorizar a excelência, a grandiosidade das funções e a conduta que se espera de um chefe da Nação. Se teve alguém que desde que os militares transferiram o poder para os civis, em 1985, dos últimos oito ocupantes do Palácio do Planalto, ninguém observou com tanta fidelidade a liturgia do cargo quanto José Sarney. Foi educado, inteligente e, por ser letrado, acabou sendo imortalizado com uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

O atual inquilino do Palácio do Planalto, por sua vez, com sua flagrante obscuridade intelectual, seus preconceitos, sua truculência, seu linguajar rebaixado, seu amor declarado pelos déspotas, seu doentio entusiasmo pela tortura, sua cada dia mais flagrante aversão pela democracia, tem se notabilizado pela falta de ética e urbanidade que se esperam de um presidente da República.

Jair Bolsonaro revela, dia após dia, que no seu manual de comportamento não há espaço para o respeito. Para o presidente, fazer banana para repórter, mandar jornalista perguntar para a mãe, dizer que um profissional da imprensa não tem vergonha na cara, que parece um homossexual terrível, que uma repórter “queria dar o furo a qualquer preço contra mim”, uma insinuação de cunho sexual pulha contra a jornalista Patrícia Campos Mello, além de tripudiar a morte de pessoas vítimas da Covid-19, com a crueldade dos psicopatas, é coisa normal. Na manhã desta terça-feira (05), Bolsonaro se superou. Emparedado pelo avanço de investigações que estão cada vez mais perto de identificar suas digitais e de seus filhos em atos que violam literalmente dispositivos legais, visivelmente desorientado, mais uma vez lançou mão do que tem de melhor, o linguajar asqueroso, ao mandar os jornalistas “calar a boca”. E, usando sempre para destilar seu linguajar desprezível, o aplauso do “cercadinho do Alvorada”, espaço destinado à pandilha de apoiadores, um grupo de alienados que mais se parecem com estudantes que se deleitam quando o valentão da turma humilha alguém no pátio do recreio para impressionar as meninas, ao lado de outro espaço, restrito, em que jornalistas que fazem a cobertura do Palácio do Alvorada ficam confinados aguardando alguma declaração do presidente da República ou de eventuais políticos que se reúnem com o chefe da Nação fora da agenda de trabalho. Um espaço, enfim, que serve apenas para que o presidente mantenha a falsa impressão que tem o povo ao seu lado e, que atende aos instintos menos civilizados de uma parcela de recalcados, uma arena onde podem expor seu ódio gratuito a todos – a imensa maioria dos brasileiros – que diferentemente deles, são honestos intelectualmente, estimam a diversidade e “não estão à venda”.

Nesses pouco mais de dezesseis meses de Governo do presidente Jair Bolsonaro não há um só registro de alguma informação relevante que pudesse sinalizar que o interesse do país estivesse entre as preocupações do chefe da Nação. Foram só agressões, quando não a manifestação de amor não correspondido, que às vezes parece ódio, que nutre pelo PT, cujo fantasma o acompanha diuturnamente. Nada, absolutamente nada além disso. Só demonstrações de falta de educação e de mediocridade, as mesmas que o acompanharam nos 28 anos em que ocupou uma cadeira na Câmara Federal e serviram para lhe dar fugazes momentos notoriedade.

Há os que gostariam que os profissionais da imprensa devessem contrapor as agressões gratuitas do presidente. Porque respeitam um indivíduo que não se dá ao respeito? Esse é um questionamento que vez por outra é feito por pessoas que não conseguem aceitar as insanidades do presidente e entender a reação pacifica dos jornalistas. A estes é preciso esclarecer que, se um dos jornalistas no exercício de suas funções, agredido verbalmente pelo presidente, resolver reagir e devolver os insultos, diferentemente de Bolsonaro, responderia por injúria, crime que, em tese, levaria o repórter à prisão, o que é algo raríssimo, mas é preciso considerar que o “ataque” seria a Jair Messias Bolsonaro, que já deixou claro que despreza a democracia e não hesitaria em fazer valer a letra fria da Lei.

O presidente e seus aliados (ou seriam alienados?) precisam entender que a missão do jornalista é ser firme nos questionamentos para que a sociedade possa ser informada dos atos dos agentes públicos, que, em última análise, são servidores que como qualquer outro trabalhador, devem satisfação ao patrão, no caso, ao conjunto da população. Há perguntas incomodas? Evidentemente. É para isso que existe o jornalismo. E, felizmente, indiferentemente ás agressões gratuitas que sofrem, os jornalistas continuam fazendo os questionamentos, demonstrando para o “Capitão” que suas bravatas e as palavras de ordem de seus seguidores contra determinados veículos, não tem sido suficientes para intimidar a imprensa livre. É possível que em algum momento, assim como fizeram os repórteres fotográficos que cobriam o Palácio do Planalto, em 1984, no período em que o inquilino era o General João Baptista Figueiredo, tão mal educado quando o atual, apesar de ser muito mais preparado intelectualmente, que deixaram suas máquinas no chão quando o “presidente” passou diante deles, como forma de demonstrar repulsa ao péssimo tratamento que lhes era dispensado, revivam o ato. Mas isso não é relevante.

Relevante seria alguém mostrar ao presidente que exaltar ditadores e torturadores, desrespeitar direitos humanos, desdenhar da dor das famílias que vem os parentes sucumbir ao Covid-19 e ser enterrados quase que clandestinamente e zombar da urbanidade, não tem a menor graça. Que tem servido, quando muito, para os louvores de um bando de ineptos, que se revezam e reinam no cercadinho do Alvorada.

Depois de mais uma vez incentivar e participar de atos que atentam contra a democracia e afrontam a Constituição Federal, ser emparedado pelas investigações determinadas pelo Supremo Tribunal Federal, convém alguém alertar ao presidente que não será gritando com jornalistas que resolverá seus problemas, pelo contrário. Seria oportuno que fosse apresentado ao Artigo 9º da Lei Federal 1.079/50. Ou, na pior das hipóteses, entender que pode até pisotear no preceito constitucional esculpido no Artigo 220 da Carta Magna, mas que sua ferocidade e seu linguajar vulgar não serão suficientes para intimidar e calar a imprensa livre.