A TEORIA DO BOM FRACASSO

Em tempos de absoluto dinamismo, qual é a fronteira que separa os bem-sucedidos dos fracassados? Por que será que pessoas geniais e extremamente competentes são condenadas ao esquecimento e figuras cada vez mais duvidosas e bizarras assumem o protagonismo da ascensão social e profissional? Por que a maioria dos homens extraordinários morrem pobres e bestas ambulantes conquistam os píncaros numerais nas contas bancárias? Por que há essa monstruosa antítese entre as placas indicativas do percurso e os caminhos que se apresentam diante de cada um de nós?

Vamos observar alguns exemplos. Uma menina de classe média se torna uma prostituta e cai na vida. É apenas mais uma entre várias. É rechaçada pela sociedade. Depois de algum tempo ela percebe o que é lógico: quanto maior for o seu sucesso, mais clientes terá. Ela decide, então, criar um blog relatando suas experiências e torna-se uma febre na rede. Com o sucesso primário, a jovem escreve um livro que virou best seller imediato. O livro gerou um filme sobre sua vida e acaba de alcançar 2 milhões de espectadores. Esse sucesso absoluto redimiu a moça e a sociedade, com sua anacrônica e hipócrita crítica preconceituosa, hoje a tem como par, como figura de primeiro gabarito.

Outro bom exemplo vem dos EUA. Não fosse o sobrenome famoso, o ator Charlie Sheen jamais teria chegado ao estrelato. Não é bom no que faz, sua vida pessoal é uma tragédia, vive atolado em escândalos sexuais e tornou-se uma figura cativa das clínicas de reabilitação para viciados em drogas e álcool. No entanto, Sheen tem um extraordinário talento para usar todas as suas mazelas a favor de sua projeção e, com isso, alimentar sua manutenção pessoal e profissional na sociedade. Não por acaso, protagonizou durante anos um dos seriados de maior sucesso no mundo: “Dois Homens e Meio” (“Two and a Half Men”).

Também não é por acaso o sucesso deste programa de TV. Ele explora ao máximo o que aqui chamo de Teoria do Bom Fracasso. Nele, Sheen interpreta um personagem que bem poderia ser baseado em sua própria vida e que, talvez por sadismo criativo, chama-se Charlie. O protagonista, apesar da promiscuidade, da vida desregrada e dos vícios, se estabelece socialmente graças ao sucesso como compositor de jingles publicitários e vive as agruras de abrigar seu irmão, Alan (John Cryer), um “certinho” inseguro e fracassado. O humor rascante, pesado e objetivo acentua o realismo, conquista cada vez mais audiência e chegou a render a Charlie Sheen a impressionante cifra de US$ 1 milhão por episódio gravado. Até sua recente tumultuada saída do elenco tornou-se uma alegoria social e uma das notícias mais acessadas e comentadas da mídia. Por esse sucesso, apesar de todas as mazelas, Sheen está sendo disputado pelos canais de TV a preço de ouro.

Não estou aqui para fazer apologias baratas ou maniqueísmos esquizofrênicos. Mas não podemos negar a realidade e continuar alimentando a fantasia de que moramos em outro planeta. Diariamente, somos levados a acreditar na Teoria do Bom Fracasso: o sucesso não existe, a pobreza é melhor do que de fato é e que ser bem-sucedido, ter dinheiro e alcançar a felicidade são lados de um triângulo escaleno. Mas na vida prática, no dia-a-dia, a realidade se impõe e, por isso mesmo, as prateleiras das farmácias estão cheias de “tarjas pretas”.

Como compreender e viver em um mundo real onde nada do que fomos domesticados a acreditar e fantasiar de fato acontece? Talvez seja o momento de lançar olhos críticos sob essa Teoria do Bom Fracasso e escolher que caminhos realmente queremos tomar.

Então responda rápido. O que você prefere: ficar furioso porque perdeu dinheiro numa aplicação equivocada ou ficar arrasado porque está perdendo os dentes e não tem dinheiro para pagar um dentista? O que é pior: estar estressado em meio à tomada de decisões dificílimas de mercado, ou estar desempregado e não ter sequer o que comer? Não é melhor estrebuchar em reclamações contra a carga tributária do país e pagar uma fortuna de Imposto de Renda do que estar dispensado de tal declaração e não ter sequer uma casa própria para morar? Creio que nem precisamos pensar muito. Apesar de ainda ser um país pobre, a nossa sociedade é modelada para os ricos, um clube fechado e com regras e dinâmica próprias. Para não dividir a pajelança, foram criadas diversas teorias distanciando dinheiro dos conceitos de felicidade. Pior: de forma maniqueísta afirma-se que é melhor ser feliz do que ter dinheiro, como se a convivência pacífica entre ambos fosse impossível. Fale a verdade: você ainda acredita que dinheiro não traz felicidade?

Ora bolas, somos ou não somos uma sociedade capitalista e, acima de tudo, consumista? Então, dinheiro traz felicidade sim, apesar de não ser um fim em si mesmo. Problemas, tristezas, crises e tragédias todos tem, com ou sem grana no bolso. Mas pode apostar que é bem melhor encarar os piores momentos com a conta bancária recheada do que contando migalhas no esquecimento. Você pode se iludir rezando, orando ou batendo tambor. Você pode continuar se culpando e engordando os cofres dos psicólogos, analistas de plantão e escritores e seus livros de fórmulas mágicas. É uma questão de escolha. Ninguém lhe trará a verdadeira redenção. Sem sentimentalismos, a vida prática a que me refiro é ultradinâmica e segue um roteiro básico: inteligência – ousadia – sucesso – dinheiro – felicidade. Acredite se quiser. Também é uma escolha.

A redenção pela fé pode até existir, mas ser-nos-á podante. O perdão pelo autoconhecimento e pela compreensão não será suficiente para fazer-nos felizes. Por mais cruel que possa parecer, na sociedade do nosso tempo só o sucesso, em amplo sentido, será capaz de preencher as lacunas que nos fazem incompletos, imperfeitos e infelizes. E se você não faz parte do clube dos bem-sucedidos, não se engane quanto a possibilidade de um convite bater à sua porta. Quem lá está fará tudo para manter você fora e, assim, garantir e afirmar sua posição. Para estes, é fundamental que você continue acreditando em poderes milagrosos, em balelas de autoajuda, conjunções planetárias e coelhinhos da páscoa. Essa é a Teoria do Bom Fracasso. Acorde! Seja inteligente, adquira cultura, faça-se notório por suas qualidades e equilibre seus defeitos. Sem perder a dignidade, faça o que for possível e necessário para alcançar o sucesso. Por óbvio, sem ele só lhe sobrará o fracasso. E o sucesso é para os penetras. O resto é hipocrisia de quem não o quer na festa. Pule esse muro.

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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