Acompanhada Solidão

Gosto de observar pessoas.

Acho divertido ficar sentada em um lugar e ver sem ser vista.

As pessoas, quando não sabem que estão sendo observadas, fazem coisas que só fazemos,

afinal, todos fazemos, quando têm certeza de que não estão sendo vistas, como, por exemplo,

colocar o dedo indicador nas profundezas das fossas nasais ou tirar a calcinha ou a cueca de

lugares onde não deveriam ter-se alojado.

Às vezes quando, posicionada estrategicamente, vejo coisas que não queria ter visto.

Às vezes, quando posicionada em meio à multidão, olhando atenta ou discretamente para

quem está perto e pode, caso queira, observar-me também, percebo coisas que me fazem

recuar: melhor seria não ter notado nem isso nem aquilo.

Algumas delas me incomodam verdadeiramente.

A pior, a mais triste de se ver é a solidão a dois.

Vi dia desses uma mulher e uma garota em um carro.

Vidros fechados.

A mulher dirigindo, a menina de braços cruzados, rosto com expressão fechada e fone de

ouvido.

Não aquele fone de ouvido fuleiro que dá pra ouvir o que se passa em volta.

Não.

Um fone de ouvido daqueles que vedam qualquer ruído.

Uma ao lado da outra.

As duas sozinhas.

Quando vivida por um casal que parece ser de namorado ou marido e mulher, dá até vontade

de mudar de posição, simplesmente para não ter que presenciar.

Lembro-me de um casal, daquela remota época que não andávamos com a internet à mão,

sentado lado a lado em uma pizzaria de frente para o mar, no mais absoluto silêncio.

Eles não se falavam não se tocavam, nem sequer olhavam um para o outro.

Não tinha televisão para que fosse usada como desculpa.

Jornal, revista, panfleto, bula de remédio, criança.

Nada.

Em um salão praticamente vazio parecia que a cada garfada fazia com que o abismo crescesse.

Estavam acompanhados.

Talvez tão acompanhados a ponto de um só pagar a conta dos dois.

E absolutamente sozinhos.

Triste de se ver.

Solucionar a solidão acompanhada daquele casal jamais será possível.

Mas posso não deixar que ela nasça aqui, na minha frente, nos meus relacionamentos.

Posso hoje derrubar, caso estejam sendo construídos, muros nos meus relacionamentos.

Talvez resolvendo o que me incomoda em vez de “deixar pra lá” e ficar remoendo.

Talvez cedendo mais que embirrando.

Beijando mais que reclamando.

Falando ao invés de calando.

Sei lá.

Cada um tem seu jeito de derrubar muros.

Descubra o seu e não deixe ninguém hoje, ao menos hoje, sentir-se sozinho quando está por

você acompanhado.

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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