Carta a Moraes Moreira, aos quatro meses de sua morte

Meu irmão:
Faço-lhe esta carta para dar-lhe as nossas notícias, quando, hoje, completam quatro meses da sua eterna viagem, para esse celestial lugar, no qual se encontra e permanece perene em nossas memórias.
Pois bem: “aqui, vamos da forma de costume” para lembrar da expressão da nossa mãe, nas cartas que nos escrevia, em especial, para minha irmã e eu, em razão dos nossos estudos, em Salvador. Com essa expressão, como você sabia, entendíamos tudo que ela queria nos dizer, sem entrar nos pormenores da vida que levava com o nosso pai, com as suas preocupações conosco e, tantas vezes, com você, que de cedo já anunciava o tino de ave de arribação, como aconteceu, definitivamente, ao partir para o seu mundo artístico. Eram cartas de aconselhamento, de recomendações, de acompanhamento dos nossos estudos, e da quantia enviada, por algum positivo, para repartição das contas. Ela jamais se descuidou disso! Recorda-se, não é?
Quanto às nossas notícias, em particular, só mesmo as torturantes expectativas em que vivemos, com a expansão desmedida desse vírus, do qual você falou em belo poema, tão logo explodiu, a partir de março, sem que ficasse a refém desse bicho que, pior do que o carcará sertanejo, “pega, mata e come”, sem escolher destinatários. Na verdade, somos todos vítimas, sem culpados dessa pandemia, com li em José Saramago, no seu livro “Ensaio sobre a cegueira”. Pronto!
Outros detalhes, talvez sejam desnecessários, por exemplo, falar dos acontecimentos políticos do Brasil, pois tudo continua na mesma. Sem novidades. As que são veiculadas pela mídia, numa enxurrada diária, e vorazmente consumidas por nós, que restamos dependurados à beira de um abismo, agarrados em frágeis raízes, claudicantes em nossa fé, antes de despencarmos no abismo de uma “cegueira” geral deste nosso mundo. Como consequência, sofrem aqueles que tentavam viver honestamente com o fruto do seu trabalho, ainda que a minguados ganhos, aqueles que nem isso têm, e os que sobrevivem de uma chamada ajuda emergencial, na esperança de que tudo se resolvesse rapidamente.
Ledo engano!
O resultado é desastroso, como você nem pode imaginar. E se a desigualdade é novidade, isso sim, aconteceu sem precedência. Contudo, não sei se posso dizer que as nossas esperanças esgotaram-se. Ou acreditar que choverá, como pensa o sertanejo, ao fitar o sol que brilha em limpo céu.  Não temos mesmo o que fazer! Se estivesse vivo, você estaria mais agoniado, ainda, por não poder levar as suas canções às multidões frenéticas com a sua esfuziante alegria. Nem quero imaginar isso. Melhor, não! Mas resta-nos um consolo: toda a família continua viva. Não sofremos perdas, como não as desejamos. Não nos descuidamos. Entretanto, não nos conforta saber que, aos milhares, sofrem outras pessoas com as inestimáveis perdas.
Mudando de assunto: hoje, meu irmão, ao acordar, ouvi, em um áudio do celular, a execução do hino à Nossa Senhora do Alívio, excelsa padroeira de Ituaçu, pelo saxofonista Luciano, brumadense e maestro da Lira Ceciliana, que lá se encontra para os tradicionais festejos desta data, que sempre representou para nós um motivo de muita emoção, religiosidade, congraçamento, devoção e, sobretudo, de recordações e saudades dos nossos amigos e familiares, que já se foram para a eternidade. Lembrei-me de você. E faço esse registro, para incorporar-me às orações dos nossos conterrâneos, com as súplicas por um mundo melhor, pelo desaparecimento desse cruel vírus, pela proteção das nossas famílias e pelo conforto da saudade dos entes queridos e proteção para os que estão vivos.  Enfim, proteção ao povo!
Assim, vou me despedir com muitas saudades. São quatro meses de ausência! O seu público não o esquece.

Do mano
Juzé

José Walter Pires

José Walter Pires

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