Cláudia Rodrigues: Por que o tratamento milionário da atriz é questionado por especialistas?

A atriz e humorista Cláudia Rodrigues colocou uma cobertura à venda para pagar R$ 5 milhões por um tratamento controverso nos EUA

Por: Dr.Bruno Burjaili/Arquivo Pessoal

Há mais de 22 anos com o diagnóstico de Esclerose Múltipla, a atriz Cláudia Rodrigues (Querida pelos brasileiros por personagens como a Mariente, de “A Diarista”, ou a Ofélia, de “Zorra Total”), tem buscado diversos tratamentos para enfrentar a doença. Recentemente, sua equipe anunciou a venda de uma cobertura no Rio de Janeiro para custear uma técnica controversa e sem sustentação científica, liderada por um brasileiro nos Estados Unidos.

Como é realizado o suposto tratamento?

A técnica, chamada de “Túnel Térmico Cerebral”, ainda é experimental, ou seja, não está definido que realmente tenha eficácia, o que significa que quem se submete à técnica está sendo testado. Ela é proposta por um médico brasileiro (Marc Abreu) através da utilização de um aparelho de criação própria, no entanto, essa máquina recebeu autorização do FDA – Agência de Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA – apenas para medir a temperatura cerebral, não para a aplicação de tratamentos.

O neurocirurgião Dr. Bruno Burjaili, que trata doenças como Parkinson (uma das que seriam também alvo do “túnel térmico”), explica que o modo como funcionaria a tentativa não fica muito claro nas descrições do colega. “São descrições confusas como aquecer o organismo a 100 graus Celsius, o que, naturalmente, não seria resistido, já que o corpo humano não consegue manter a vida nessa temperatura”, afirma.

“Também há confusão na tentativa de explicar cura ou regressão de doenças consideradas crônicas, já que cientistas e médicos do mundo todo não têm acesso a esses resultados. É improvável que esse tipo de promessa seja cumprida, se ele afirma ser possível, precisa provar, e isso certamente teria repercussões fantásticas. Algo tão essencial que não é revelado gera, naturalmente, suspeitas, e remete a outras iniciativas de intuito pouco claro, que caem em descrédito conforme a ilusão é desfeita. No final das contas, quem pode se prejudicar é o paciente e sua família”

“O alto custo é outra questão que gera questionamentos da comunidade médica e científica, uma vez que tratamentos experimentais, via de regra, não são cobrados dos pacientes, já nesse caso, o custo total do tratamento pode chegar a R$ 25 milhões de reais. É uma pena que não se disponha à divulgação, pois sempre estamos ansiosos para oferecer novos tratamentos a quem precisa, porém, que sejam seguros, amplamente documentados e que funcionem. Os pacientes e famílias sentem que não podem esperar e, muitas vezes, esse sentimento, diante de uma promessa estranha, os induz a riscos e custos obscuros.” Ressalta.

Após a repercussão do tratamento, tanto a Academia Brasileira de Neurologia, quanto a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia divulgaram notas onde ressaltam, respectivamente que a técnica é “estranha aos postulados da medicina” e que “a ciência ainda procura uma cura para essa patologia […] toda nova possibilidade de intervenção terapêutica deve passar por uma rigorosa etapa de testes clínicos multicêntricos”.

E os pacientes que afirmam serem beneficiados pela técnica?

Uma das afirmações que mais supostamente embasam o tratamento são os efeitos positivos em quem se submeteu à técnica, mas apenas os relatos de pacientes não podem sustentar a eficácia de um método pois podem resultar do chamado “efeito placebo”.

O efeito placebo ocorre quando uma parte da melhora conseguida é devido à crença no que está sendo feito, ele pode fazer com que pessoas que tomam pílula de farinha possam sentir melhoras.

“Existem técnicas na ciência para separar o que é placebo do que é efeito real do tratamento e verificar, então, se aquela iniciativa está realmente sendo eficaz. Assim, quando alguém relata haver melhorado, não conseguimos saber se foi o próprio túnel térmico ou se foi a crença nele, já que os dados não são disponibilizados”, afirma o Dr. Bruno Burjaili.

O que pode ser feito?

Tanto a Esclerose múltipla, quanto a doença de Parkinson, Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e Alzheimer são doenças muito diferentes entre si, mas que têm em comum o fato de ainda não haver cura ou modos conhecidos de interrompê-las, porém existem diversos tratamentos que trazem uma bagagem de pesquisas e evidências demonstrando efeitos reais para redução de sintomas e melhor qualidade de vida para o paciente.

“A doença de Parkinson, sobre a qual posso falar, tem uma gama de medicamentos comprovadamente eficazes para reduzir sintomas, assim como técnicas de Fisioterapia e Fonoterapia, entre outras, sem contar até o implante do chamado ‘Marca-passo cerebral’, demonstrando que há sim muito estudo e tecnologia empregados para fazer o melhor possível a quem enfrenta esses desafios. Tudo isso sempre embasado pela ciência séria e pelo respeito a essas pessoas.” Afirma o neurocirurgião Bruno Burjaili.

Foto de Capa: Reprodução/Instagram

Jornal do Sudoeste

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