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Conversando sobre câncer: Elas venceram o câncer de mama

Por Natália Silva/Gisele Costa

 

Uma em cada quatro mulheres no mundo está lidando, neste momento, com o diagnóstico do câncer de mama. Aos poucos, elas tomam coragem para se abrir e contar detalhes sobre suas jornadas de superação, agora que esse tipo de neoplasia entrou para o rol das doenças tecnicamente curáveis, junto do câncer de cólon, com mais de 90% de chance de cura se detectados no estágio inicial.

Segundo dados oficiais do Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva, órgão que compõem a estrutura da Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, estima-se que 59.700 novos casos de câncer de mama serão registrados este ano no Brasil. Ainda segundo o Inca, seguindo uma tendência que vem sendo observada nos Estados Unidos, o número de casos de câncer de mama em mulheres brasileiras abaixo dos 40 anos também dobrou nos últimos 30 anos.

Para alguns especialistas o número de casos entre mulheres mais jovens tem crescido em função dos hábitos da vida moderna, que incluem má alimentação, mas também o adiamento da maternidade e, consequentemente, da amamentação, fator protetor contra o câncer de mama. O aumento da expectativa de vida também tem colaborado para a detecção de mais casos entre mulheres idosas. Mas não só o fato de viverem mais anos: muitas vão abandonando as visitas periódicas aos ginecologistas, como se lhes fosse impossível ter câncer de mama.

Há consenso em relação a importância da prevenção. Para tanto, uma das recomendações do Inca é que, mulheres de 50 a 69 anos façam uma mamografia de rastreamento (quando não há sinais nem sintomas) a cada dois anos. Esse exame pode ajudar a identificar o câncer antes do surgimento dos sintomas. Mulheres com risco elevado para câncer de mama devem conversar com o seu médico para avaliação do risco e decisão da conduta a ser adotada.

Risco elevado de câncer de mama inclui: história familiar de câncer de mama em parente de primeiro grau antes dos 50 anos ou de câncer bilateral ou de ovário em qualquer idade; história familiar de câncer de mama masculino; e diagnóstico histopatológico de lesão mamária proliferativa com atipia ou neoplasia lobular in situ.

Com o objetivo de chamar a atenção das mulheres, para cuidarem da saúde e afastarem os riscos de cânceres, na década de 90 surgiu nos Estados Unidos a Campanha Outubro Rosa para estimular a conscientização da população, em especial das mulheres, sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama.

Campanhas como o Outubro Rosa ajudam as pacientes a falar sobre seus casos e esses depoimentos de superação pessoal servem de incentivo para outras mulheres, surpreendidas com o diagnóstico.

Tendo como inspiração uma frase do escritor Rubem Alves, que disse: “Uma ostra que não foi ferida não produz pérolas”, o JS convidou mulheres da região que perderam o chão, derramaram lágrimas e reavaliaram suas vidas quando receberam o diagnóstico de câncer de mama, mas que, passado o primeiro impacto, reagiram com otimismo, foram a luta e conseguiram (estão conseguindo) vencer a doença e hoje enxergam a vida sob uma nova ótica. As três guerreiras que deram seus depoimentos ao JS querem ser motivo de inspiração a outras mulheres, levando uma mensagem de otimismo e chamando atenção para a necessidade de cuidar da saúde com a realização de exames de prevenção. Os depoimentos apontam para uma certeza: o câncer de mama não é uma sentença de morte quando tratado a tempo. Conheça um pouco a história dessas personagens que, nesta reportagem especial em homenagem ao Outubro Rosa, decidiram relatar suas experiências na batalha contra esse mal tão cruel, que pode ser evitado quando detectado a tempo com a realização do autoexame e mamografia.

Bárbara Emanuely de Brito Guimarães

Bárbara Emanuely de Brito Guimarães, 29 anos, de Vitória da Conquista, mestranda em Saúde Coletiva na UFBA/IMS

“A experiência de ser diagnosticada com câncer foi impactante! Me lembro de cada exame, orientações e sentimentos vividos naqueles dias. Por mais que o momento era de angústia e de incertezas, eu orava a Deus e pedia para que Ele me ajudasse a passar por todas as etapas necessárias. Agradeço a Deus por ter colocado pessoas tão especiais ao meu lado (família, namorado, amigos e profissionais) que dispensaram muito amor, carinho e atenção. Foram dias de grandes mudanças! Foi necessário me adaptar a uma nova rotina, com exames, cuidados médicos e alimentação adequada para contribuir com a etapa do tratamento quimioterápico. Foram cinco meses de tratamento intensivo e vários efeitos colaterais. Precisei me esforçar e me alimentar, mesmo com muito enjoo, para ajudar a aumentar a imunidade. Ingeria muito líquido e frutas. E, quanto aos meus cabelos… Ahh! Esses estiveram coloridos por um bom tempo. Usei lenços de diversas cores e estampas. Brinquei com os looks! Era uma forma de respeitar o momento vivenciado. Foram dias que me senti ansiosa, isso porque o tempo fica ocioso e, também, eu precisei afastar das minhas atividades. Mas, aprendi que tudo tem o seu tempo, e naquele momento eu precisava me cuidar. Entre tantas experiências e ensinamentos uma coisa eu aprendi, que sou muito mais que uma jovem diagnosticada com câncer. O diagnóstico faz parte da minha história de vida, mas minha vida é bem maior e mais importante que a doença”.

 

 

 

Patrícia Dayana Rodrigues Correia

Patrícia Dayana Rodrigues Correia, 37 anos, de Brumado

“Descobri o câncer de mama aos 32 anos de idade, fazendo os exames de rotina. Sempre cumpri com meus exames e sempre fiz ultrassom de mama toda vez que eu fazia os preventivos. Não fazia mamografia porque eu ainda não tinha idade. Então, foi através do ultrassom da mama que foi diagnosticado o câncer, a partir daí fiz outros exames como a mamografia e realmente foi detectado o tumor, que é chamado de carcinoma. O primeiro impacto foi devastador na minha vida, na vida de qualquer pessoa que descobre um câncer. Fiquei sem chão, só pensando no pior, que ia morrer. Enfim, tudo de ruim passou em minha cabeça. Eu tinha duas opções, uma era lutar contra o câncer e a outra era me entregar à doença. Então, eu resolvi lutar, fazer todo o tratamento, tudo certinho e nunca desanimei. Graças a Deus tive uma fé muito grande. Meu tratamento começou com uma cirurgia, chamada de quadrantectomia. Como eu descobri o câncer muito cedo, com um centímetro e meio, eu tirei só uma parte da mama, não precisei fazer a mastectomia, que retira toda a mama. Após a cirurgia, passei por quatros sessões de quimioterapia das fortes, nas quais os cabelos foram os mais atingidos. Além dos cabelos, afetou todo o organismo, porque a quimioterapia atinge tanto as células boas quanto as ruins. É nesse momento que a gente entende que está passando pela doença, quando perdemos os cabelos, principalmente no caso das mulheres. Aí sim você sente o peso da doença sobre seu organismo. Fiquei carequinha, sem meus cabelos, mas eu não me desanimei. Comecei a usar lenços, não deixei a minha autoestima cair. Sempre com lenços, cada um mais lindo que o outro, sempre maquiada. Isso me ajudou imensamente. E fui vivendo. Passei também por sessões de radioterapia, que também judiam um pouco. Hoje estou com 37 anos de idade, completos em outubro, e passo pela hormonoterapia. Após a cirurgia, quimioterapia e radioterapia, dependendo do seu tipo de câncer, você tem que passar pela hormonoterapia, em que você toma um medicamento durante cinco ou dez anos. Eu vou tomar durante dez anos. Então, o tratamento é longo. Pra você alcançar a cura, tem que passar por muita coisa, por muitos exames, por muito tratamento. Mas, pra ficar vivo a gente luta, até onde Deus quiser. Pra mim, o primordial pra superar toda essa batalha foi a minha fé muito grande, a fé dos meus pais, a fé do meu esposo, o apoio da minha família, do meu filho. Então, eu só pensava neles, e até hoje eu penso neles, que são quem mais me dão apoio. Os amigos também me ajudaram muito. Por fim, o que eu tenho a dizer a todas as mulheres é que continuem com suas rotinas de exames, anualmente ou de 6 em 6 meses, porque as chances de cura são grandes se o câncer for descoberto precocemente, como no meu caso. Tudo que for descoberto precocemente, nos dá mais chances de continuar vivendo. Hoje eu me pergunto ‘será que vai voltar?’. Não sei, mas se voltar eu estou aqui firme e forte pra lutar de novo, até onde Deus quiser. Façam seus exames e caso venham a ter alguma coisa, nunca se entreguem, nunca se entreguem à doença nenhuma, porque nosso Deus é grande, é maravilhoso e misericordioso.”

 

Lucidalva Alencar

 

Lucidalva Alencar, 52 anos, de Itapetinga, funcionária pública municipal

“Minha vida era bem normal. Até que um dia ao tomar banho me toquei, eu sempre fazia isso, só que nesse dia senti algo diferente no seio, um caroço. Naquele momento, senti lá no fundo que não era normal. Também já havia notado um líquido meio rosado saindo do seio, muitas vezes sujava a roupa, mas eu não podia imaginar que era perigoso isso acontecer. Fui procurar meu ginecologista e mostrei o nódulo, ele me orientou a fazer um ultrassom e uma mamografia. Após os resultados, fiz imediatamente uma punção com biópsia. Estava com 48 anos na época, era final de 2014. O material foi pro laboratório, o resultado sairia com 30 dias. Nesse período, meu braço começou a doer e no fundo eu já sabia o que viria com o resultado da biópsia, mas a esperança sempre prevalece. Em janeiro de 2015, veio o resultado. Eu já estava tranquila, esperava esse resultado com muita calma, sem medo. Mas ao saber, no primeiro momento veio um calafrio. Eu não sabia o que iria enfrentar na realidade, era tudo novo. Na minha cidade não oferecia o tratamento, eu não sabia para onde ir, que direção tomar. Então, fui à procura de pessoas que pudessem me orientar e aí pude ter uma noção de tudo. Eu sem nenhuma condição financeira, para onde ir? Foi então que veio uma luz, alguém sugeriu que eu fosse a Salvador, procurar o Hospital Aristides Maltez, referência no tratamento de câncer. Tive ajuda de pessoas que foram anjos na minha vida. Fui na companhia da minha filha, passei pela triagem e fui direcionada para a mastologista, quando recebi a notícia que iriam me tirar toda a mama esquerda: mastectomia radical com esvaziamento axilar. Fui muito bem tratada pela equipe do Hospital, graças a Deus foi tudo muito rápido, a minha cirurgia foi feita no dia 22 de abril de 2015. Em julho, iniciei a quimioterapia em Vitória da Conquista. Eu achava que a retirada do seio fosse o maior golpe, mas não foi. A quimioterapia me deixou debilitada, fraca, vulnerável, meus cabelos, cílios e sombrancelhas caíram. Foram seis meses de quimioterapia, pois precisei dividir as doses, já que tive reações. Passou a quimioterapia, mas veio a radioterapia. Dessa vez, fui para Itabuna, pois o aparelho de Vitória da Conquista estava quebrado. Foram 25 sessões e mais uma vez fiquei debilitada, com a imunidade baixa, mas fui firme, falava para mim mesma ‘tenha força, vai passar’. E passou, passei praticamente um ano sem cabelos, me sentia feia, sei que a falta do seio para a mulher é um sentimento de perda da beleza como um todo, mas o mais importante é você vencer, saber que você não morreu, que conseguiu superar. Hoje faz três anos que faço revisões periódicas de 3 em 3 meses e tomo medicamentos também. O mais importante é saber que temos uma força interior incomparável, você nunca imagina que irá passar por uma situação até ela acontecer e você arregaçar as mangas e ir à luta e vencer. Deserto a gente passa para amadurecer. Não tenha medo. Câncer de mama tem cura. O câncer que me acometeu foi nível 3, agressivo e invasivo e eu venci.”.

Jornal do Sudoeste