DA CAFETINA AO BICHEIRO

O que virou o Brasil? Não existe Comissão Parlamentar de Inquérito que consiga responder essa pergunta cruel. Não consegue e não quer! Nunca vai querer. Porque a resposta ao fenômeno bandalho-social atinge o coração da cultura brasileira. A sacanagem institucional é a única coisa que une esse país de dimensões continentais.

 

Do extremo norte ao pico sulista; do litoral nordestino às chapadas mato-grossenses; dos braços abertos do Cristo aos mosquitos da Amazônia; apenas o “jeitinho” nos irmana. Nem o idioma pátrio é tão agregador e consonante. Não por acaso, os sucessivos escândalos de corrupção e impunidade já não causam mais tantos efeitos na sociedade. Já são quase vitais. Empiricamente virais. Uma “neopulsão” freudiana.

 

Os primeiros índios queriam passar à história como safos ao colocar no caldeirão canibal fervilhante os oradores jesuítas, não sem antes enfiar nas tangas os espelhinhos, pentes e toda sorte de badulaques. Os manuelinos, por sua vez, gargalharam nos palácios quando perceberam que era possível trocar gotas de alfazema por pepitas de ouro. E, à sombra das bananeiras tropicalistas, fecundaram o solo da Cabrália com uma “jeitosa” miscelânea. De lá pra cá, quase nada mudou.

 

Outro dia, um ministro de Estado sucumbia às tentações de uma cafetina candanga, enquanto violava o sigilo do caseiro dedo-duro; um executivo partidário, em nome dos trabalhadores brasileiros, vendeu sua dignidade por um sapatênis de grife; um pelego encheu a cueca de dinheiro e queria bater asas, certo de que todos acreditariam no volume de sua “dotação orçamentária”; e todos os velhotes barrigudos do Congresso Nacional parecem continuar usando urucum para tingir as melenas e o nariz de seu eleitorado.

 

Ainda ontem, um magnânimo intelectual Joãozinho passou o cetro para um reformador popularesco Zezinho e seu primeiro-ministro do Pombal. No fim, a coroa acabaria na cabeça louca de Mariazinha. Enquanto isso, Pedrinho papava nas moitas. O que mudou de ontem pra hoje? Nada! Nem aquilo que está na cabeça do povão. Outrora, os turbantes contra piolhos se tornaram súbito modismo no Paço. Hoje vamos à Corte com bem talhados penteados moicanos. Triste essa “Sina das Caravelas”.

 

Daí, qual é o problema de um bicheiro dominar as instituições do país? Com “jeitinho”, tudo dá. Ou desce.  Evoluções tergiversas do “sistema”. Ao invés de apontadores em cada esquina, instalemos urnas eletrônicas para que o povão possa jogar no bicho com mais segurança. Pobre povo ignorante, que antes pagava “o quinto” e hoje paga “o meio”, merece a distinção honrosa de proclamar sua “fezinha”. O poder extraordinário do bicheiro é apenas resultado do fenômeno sócio-pornográfico chamado Monte Pascoal, Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, ou apenas Brasil, pra parecer sucinto e ecologicamente correto.

 

O Brasil varonil não precisa ser reinventado. Ele precisa ser implodido. O descalabro político chegou a tal nível, que falar em depuração, faxina, ficha limpa e fim da impunidade, não consegue ultrapassar as fronteiras da bravatearia e do palavrório vazio. Jactâncias que aqui, na tapera tupiniquim, mais lembram chapéu panamá, bigodes, revolver na cintura e esporas, distante séculos do efeito civilizatório das ciências políticas.

 

No Brasil político do século XXI, emoldurado por cafetinas e bicheiros, qualquer coisa que se apresente como suposta diferença, aposta segura ou voto consciente, não será nada além do “seis” querendo entrar no lugar da “meia-dúzia”. Viva a ignorância, minha gente! Viva a caravela de Cabral! Viva a cafetina! Viva o bicheiro!

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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