Dia 11 de Junho, 2020 – Aniversário de Brumado

Parabéns, Brumado pelos seus cento e quarenta e três anos de emancipação política (1877-2020). Há exatos cinquenta anos, faço parte dessa História, quando aqui aportei, em 1970, vindo à disposição da Secretaria de Educação e Cultura do Estado da Bahia, no Governo de Luís Viana Filho, e Secretário de Educação e Cultura, o mestre, educador, Edvaldo Machado Boaventura, após aprovação em Concurso Público para Professores do Ensino Médio, em fevereiro de 1969, em razão da estadualização do Ginásio General Nelson de Mello, ocorrida no mesmo mês e ano, juntamente com outros colegas, para assumirmos a sua Direção, quando passou a chamar-se Colégio Estadual de Brumado.

Este auspicioso evento histórico, sem dúvida, um marco para Brumado, ocorreu no governo municipal do Dr. Juracy Pires Gomes, na sua primeira gestão municipal, em razão das manifestações públicas de estudantes e pais das camadas sociais menos favorecidas, que não tinham condições de arcar com o pagamento de mensalidades do General Nelson de Mello, mantido pela Fundação Educacional de Brumado, sob a liderança do padre benfeitor Antônio da Silveira Fagundes, já com as suas ideias avançadas para o tempo, na sua transformação de um Ginásio Industrial, destinado à formação de uma mão-de-obra especializada, vamos assim dizer, para servir ao mercado brumadense, como município que já encarnava essa vocação.

Recém egressos da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia, também aprovados em Concurso Público, fomos designados para assunção da equipe gestora do novo Colégio, habilitados, pois, a assumirem os cargos administrativos, por não existirem, em Brumado, professores com formação universitária para tal mister, salvo os abnegados profissionais e outros com formação de Cursos Normais, embora de reconhecido empenho, porém sem a condição prevista legalmente.

Chegamos marcados pela filosofia pedagógica da passagem da Escola Tradicional para a Escola Secundária Moderna, o que significava a mudança na forma do ensino, através do qual deveria ser implantada uma nova metodologia de ensino e aprendizagem, voltada ao desenvolvimento integral do aluno, com base na sua cidadania, capazes, portanto, de assumirem papéis dentro da sociedade. Assim, o Professor não seria mais o “magister dixit”, somente ele responsável pela transmissão dos conhecimentos, no qual o aluno era mero espectador e não participante daquela ação que se destinava a ele.

Esse era o modelo praticado pela educação brasileira, desde o Império, excludente e elitista, pois a Escola não era aberta às populações carentes, que permaneceram submersas ao crônico analfabetismo que, infelizmente, até hoje, não encontrou o antídoto capaz de eliminá-lo inteiramente. Ou, quando muito, aparelhou-se para atender aos anseios eleitoreiros, propiciando cristalização dos cognominados analfabetos funcionais.

Toda essa ebulição nas estruturas educacionais, que mereceram referências pejorativas, como se fosse uma intenção pessoal em promovê-la, foi respaldada pela Lei 5.692/71, de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, e, ainda, as influências de educadores do porte do grande Anísio Teixeira, precursor dessa metodologia na Bahia, instituída na Escola Parque, com o seu ideal de “Educação não é privilégio”, no Colégio Anísio Teixeira, no Ginásio Ministro Pires de Albuquerque, no qual estagiamos, e nos relacionamos com os seus professores, que foram os verdadeiros gurus da minha formação como educador e da minha práxis educativa.

A nossa equipe gestora permaneceu à frente do Colégio por um decênio, quando no Governo do Dr. Waldir Pires, e o seu programa “A Bahia vai mudar”, fomos demitidos e substituídos por outros, através de procedimentos políticos comuns nessas ocasiões. Entretanto, permaneci aqui na dita “Capital dos Minérios”, tendo consolidada a minha definitiva lotação no Colégio Estadual, até quando nos afastamos com a aposentadoria no ano em 1999.

Como o dissemos acima, a estadualização do amado Colégio Estadual de Brumado, foi o divisor de água de uma história, que gostamos de contar e recontar. Corajosamente, sob o entusiasmo da Professora Maria Edir Meira Moreira, pedagoga da vizinha Livramento de Nossa Senhora, fomos implantando as necessárias mudanças administrativas, contando, naturalmente, com a ajuda e dedicação de alguns professores e funcionários egressos do Nelson de Mello, considerando a nossa inexperiência nesse mister.

Logo de início, foram adotadas algumas medidas impactantes, mas bem recebidas, como sejam, a adoção da promoção automática dos alunos que tivessem concluído o seu curso primário, nas Escolas Estaduais. Sem o famigerado Exame de Admissão. Não me recordo se haviam Escolas Municipais na sede ou Distritos. Provavelmente, não. Mudamos o uniforme dos alunos, em especial das alunas, abandonando as saias compridas e desengonçadas, por imposição disciplinar, que passaram a uniformizar-se com calças bem feitas. Não existiam na cidade lojas com esses artigos. Como as instalações no Colégio não tinham muros à frente, apenas muretas, criamos o expediente da saída autorizada, e todos obedeciam. Eliminamos suspensões, castigos, quaisquer atos que colocassem em risco a incolumidade dos alunos. Nada de alunos embriagados. Os fumantes, não conseguimos eliminar. Alguns professores fumavam. Afora isso, nada mais

O nosso modelo de educação era inteiramente democrático, sem permissividades. Apesar de muito novos, ainda, mantínhamos a disciplina em todos os momentos. Jamais Brumado realizou tantas festas e eventos como nesse período: belos desfiles cívicos e primaveris; semana de cultura, com a presença de muitos artistas baianos; treinamento de professores nas diversas áreas; aceitamos e participamos intensamente das edições do Festival Estudantil de Música Popular (FEMP), que durou mais de quinze edições, na área do Colégio, com participantes dos mais diversos lugares, com as suas brilhantes apresentações, encerramentos com artistas consagrados. Jamais tivemos um problema que merecesse a presença da polícia no interior do Colégio. Resolvíamos tudo pacificamente. Os nossos ex-alunos, que, mundo à fora, se transformaram em excelentes profissionais nas diversas profissões, excelentes pais de famílias, todos cidadãos de bem, que dão prazer ao reencontrá-los após tantos anos, são as nossas verdadeiras testemunhas.

Além disso tudo, um fato muito importante foi o responsável maior pelo nosso sucesso à frente do Colégio, o CEB, foi o relacionamento com as famílias brumadenses. Conseguimos nos tornar amigos de todas, nesse parentesco interiorano, independentemente de crença religiosa, de partidos políticos, de classe social. Fomos, convidados, não somente para esses momentos, como para os outros dentro da comunidade. Frequentamos suas festas. Participamos das suas tradições e outras solenidades. Fomos aos pouco aprendendo a gostar da terra, do seu povo e dos seus costumes.

O Colégio crescia a cada ano. Tornou-se referência regional. Superou dificuldades. Além do ensino de segundo grau, não especificamente “científico”, trouxemos o Curso de Contabilidade, responsável pelas edições do FEMP, Curso de Secretariado, Curso de Administração, cujos profissionais passaram a estabelecer-se profissionalmente na cidade, em outros momentos, com a formação de segundo grau.

A verdade é a seguinte: Nos anos setenta, Brumado era uma cidade tradicional, acanhada, atrasada, sem perspectivas. Não tinha, água, não tinha luz, não tinha telefone, não tinha estradas, não tinha hospital público, não tinha professores universitários, não tinha um comércio competitivo. A sua economia era baseada na cultura do algodão, e outros produtos, sujeitos às intempéries das secas, além da oferta de empregos pela Magnesita S. A., outro marco muito importante para Brumado, e dos serviços públicos.

Eis porque estamos defendendo a condição do Colégio Estadual de Brumado, como a força impulsionadora das suas mudanças sociais, sobretudo para o atendimento dos anseios da juventude, que crescia, juntamente com o aumento da população, pelas necessidades educativas, e da imigração de famílias de cidades vizinhas, atraídas pela expansão das atividades industriais da Magnesita S. A.

Assim, nesse dia de mais um aniversário de Brumado, não poderia deixar de registrar a história do Colégio Estadual de Brumado, e da sua importância para o seu progresso. A nossa sensação é de dever cumprido, sobretudo quando, hoje, vemos, o tamanho das suas instalações, do número de matrículas, dos professores que ontem foram alunos, e de outros que abraçaram essa profissão e dela sobrevivem, independentemente das queixas salariais. E tanta gente por lá, que já me tornei um estranho no ninho.

Cidadão brumadense que sou, portanto, integrado à sua vida, tendo aqui constituído a minha família, e vendo o amor de meus filhos pela cidade, aproveito o ensejo para renovar a minha gratidão por essa gente e por aqueles que passaram por minhas mãos, augurando que esse vírus tão cruel, chegue ao seu final, para alento de todas as pessoas do mundo, e para nós, e, então, vermos Brumado alcançar a sua plenitude política e os seus líderes, que ensaiam mais uma corrida eleitoral, possam vislumbrar, que a hora não é da desunião, salvo nos limites de uma campanha civilizada, tendo em vista à condução dos seus destinos, sempre buscando e desenvolvendo o espírito da unidade, da ecohumanidade, da solidariedade, para que possamos juntos e sempre cantar PARABÉNS PRA VOCÊ, BRUMADO!

José Walter Pires

José Walter Pires

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