Empresas derrubadas pela politicagem

O resultado da ingerência governamental e do aparelhamento político sobre as empresas brasileiras acabou ganhando tétrico destaque desde a noite da última quarta-feira, dia 21 de novembro. A Economatica, consultoria líder na análise de investimentos na América Latina, divulgou os dados mais recentes sobre as 10 empresas mais valiosas do país e as emblemáticas mudanças no ranking de valorização no período compreendido entre 2011 e 2012.

Pela primeira na história, uma empresa do mercado de varejo desbancou a Petrobras e assumiu o posto de maior companhia do país em valor de mercado. A avaliação da AmBev, fabricante dona das marcas Skol, Antarctica, Brahma, Bohemia, Budweiser, entre outras, cresceu 32,6% em apenas um ano (uma variação positiva superior a R$ 61 bilhões) e passou a ser a empresa brasileira mais valiosa, atingindo R$ 248 bilhões na BM&F Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo).

Em contraponto, a histórica líder Petrobras caiu para a segunda colocação. Sob o comando de figuras ligadas a políticos do PT e do PMDB, a estatal brasileira de petróleo e gás acumula prejuízos (apesar dos combustíveis no Brasil estarem na lista dos mais caros do planeta e com previsão de aumento expressivo em 2013) e viu seu valor de mercado despencar 15,2% no último ano, perdendo mais de R$ 44 bilhões na avaliação. A Petrobras passa a ter seu valor de mercado estimado em R$ 247 bilhões.

Outra empresa estatal que sofre com as disputas políticas pelo poder é o Banco do Brasil. Entre 2011 e 2012, exato período em que vivenciou a disputa pública entre apaniguados do PT e do PMDB pelos postos de comando da instituição, o banco encolheu 11,8%, perdendo mais de R$ 8 bilhões e passando a ter seu valor de mercado avaliado em R$ 59,8 bilhões. Conforme dados oficiais da Economatica, o Banco do Brasil ocupa a sexta colocação no ranking, no entanto, vale menos da metade das duas outras instituições financeiras privadas que ocupam as posições superiores: o Itaú Unibanco (quarto colocado, com valor superior a R$ 135 bilhões) e o Bradesco (na quinta posição, com R$ 123 bilhões).

A propósito, o Banco Bradesco S.A. é um caso à parte: segunda maior instituição financeira do país em ativos totais, foi o único que cresceu em valor de mercado dos quatro bancos que figuram no ranking. O Bradesco evoluiu 15,6% (cerca de R$ 16,6 bilhões em um ano), atingindo os supramencionados R$ 123 bilhões. Além do Banco do Brasil, o Santander perdeu 10,7% de seu valor e o Itaú Unibanco desceu 1,4% no mesmo período.

A lista das 10 empresas mais valiosas do Brasil também trouxe uma surpresa: apesar das fortíssimas campanhas antitabagismo patrocinadas pelo governo federal e pelas administrações estaduais e municipais, a fabricante de cigarros Souza Cruz teve seu valor de mercado ampliado em expressivos 28,8% e surge no ranking para ocupar a décima posição, com R$ 45 bilhões. Foi a segunda maior valorização do mercado, algo que soma mais de R$ 10 bilhões em apenas 12 meses, só perdendo para a ampliação de valor da AmBev.

Voltando aos destaques negativos proporcionados pela politicagem, a mineradora Vale S.A. perdeu R$ 12 bilhões em valor de mercado, registrando queda de 6,1%. A empresa, que já foi líder do ranking entre 1995 e 1996, agora se vê estacionada na terceira posição, somando R$ 185 bilhões. Impossível deixar de relacionar as perdas da Vale ao imbróglio político vivido pela empresa no primeiro semestre de 2011. Tão logo assumiu a Presidência da República, Dilma Rousseff, sob forte pressão do ministro da Fazenda, Guido Mantega, passou a atuar para destituir o então presidente da empresa, Roger Agnelli, executivo que teve sua administração extremamente bem avaliada pós-privatização.

Apesar de ser uma empresa privada, em maio de 2011, Agnelli foi destituído da presidência da Vale S.A. para dar lugar ao executivo Murilo Ferreira. A imprensa e vários setores políticos criticaram amplamente a troca e acusaram o Palácio do Planalto de estar promovendo ingerência na companhia. Segundo eles, Ferreira teria ascendido à presidência da empresa porque atenderia os interesses do PT e do governo federal. Verdade ou não, os resultados da Vale dizem por si só: entre 2011 e 2012 perdeu R$ 12 bilhões em valor de mercado.

As quedas da Petrobras e da Vale também tiveram impacto na América Latina. De acordo com a Economatica, a Petrobras deixou de ser a empresa mais valiosa e passou à terceira colocação. Já a Vale despencou da segunda para a quinta posição no ranking latino-americano. A empresa colombiana de petróleo Ecopetrol (80% estatal) assumiu a liderança e passa a ser a mais valiosa da região.

Em suma, nosso (des)governo petista só é bom de gogó, “arrasa-quarteirão” nos discursos e palanques. Mas é uma negação na execução e administração dos bens públicos. Paradoxalmente, a maioria dos brasileiros ainda parece achar isso bonito. A politicagem é instrumento de ordem no Brasil. Uma nauseabunda regra, infelizmente. Até quando?

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
Categorias