Fundamentalismo intelectual

Não há maneira melhor de observar a natureza alheia do que olhando para dentro de si.

Uma das vantagens de ter estudado em um colégio franciscano é a lembrança das aulas de Religião. Tão neutro e não-enviesado quanto os autores da Carta Capital, meu professor, um ex-seminarista, disse as seguintes e, para mim, marcantes palavras: “Os judeus são um povo muito arrogante, que vive no passado e acha que sabe mais do que os outros, e ficam esperando um messias, só que eles não sabem que ele já chegou. Já os muçulmanos são meio maluquinhos e acham que só Maomé importa. Os cristãos, sim, aceitam Jesus Cristo como filho de Deus e parte da Santíssima Trindade, e estão certos.” Antes que o leitor me apedreje – ou queime, desmembre, sacrifique aos deuses ou seja qual for a punição que sua religião dá aos hereges -, repito que as palavras são do professor.

É fascinante a semelhança da Ciência Econômica, ou das Ciências Sociais em geral, com as religiões. Cada pessoa está absolutamente convicta de que está correta, que suas ideias são genuínas e legítimas, de que todos que discordam sabem muito pouco ou acham ter mais conhecimento do que realmente tem. O máximo de tolerância que temos é com os que pensam de maneira semelhante.

Exemplifico. Eu, para o desgosto de tantos amigos, tenho tremenda afinidade com os escritos dos economistas F. A. Hayek e Roger W. Garrison, o primeiro acusado de ser socialista fabiano, e o segundo de cometer o satânico ritual de explicar a teoria principalmente hayekiana em termos macroeconômicos tradicionais. Os leitores de von Mises não veem como Hayek complementa o seu trabalho, os de Hoppe não veem a relevância da teoria de Garrison! Os outros liberais estão para mim como arianos estão para católicos, e keynesianos não passam de xamanistas que se acham capazes de trazer a saúde de volta à economia através de uma necromancia na qual só eles veem sentido. Ah, se ao menos essas obtusas mentes conhecessem meus profetas!

É óbvio para mim, é claro, que eu sou visto por essas pessoas da mesma maneira. Assim como os gregos achavam todos os que não faziam uso da requintada cultura helênica bárbaros e incivilizados, outras mentes acham todos os que não fazem uso dos complexos modelos macroeconômicos pseudoeconomistas. Já os marxistas, assim como os mesoamericanos, fazem sacrifícios de sangue para saciar seus deuses, que assim como Quetzoacoatl estão dispostos a destruir o mundo se não foram suficientemente bajulados.

Não sou adepto de relativismos, leitor. Pelo contrário, tenho crença absoluta na verdade, e sei que ela pode ser atingida através de estudo e tempo suficientes. Quero compartilhar, porém, essa constatação que acredito ser mais do que necessária. Nesse período eleitoral, vemos mais ataques vazios e uma necessidade desesperada de acreditar em propostas políticas, aonde de um lado temos um que é visto como César, o salvador de nossa jovem república, e do outro, uma versão disléxica do imperador Diocleciano, governante feito Deus e que se vê capaz de controlar preços e perseguir a oposição. Pensemos duas vezes e decidamos se estamos adorando um messias ou um falso ídolo.

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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