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Líderes religiosos da região falam sobre a intolerância religiosa

Por NATÁLIA SILVA/GISELE COSTA/FILLIPE LIMA/CÁSSIO BASTOS

A violência religiosa tem tomado proporções dentro das diferentes crenças e gerado uma luta diária contra atos que vão desde palavras até a destruição de Igrejas, Terreiros e Templos em todo o Brasil. Embora não haja registros recentes na região de abrangência do JS, no Estado da Bahia, este ano, segundo dados da Secretaria de Estado de Promoção da Igualdade Racial da Bahia, o número de assentamentos de intolerância religiosa quase que dobrou em relação a 2017. Os dados da Secretaria de Estado de Promoção da Igualdade Racial da Bahia, do último dia 30 de outubro, apontam a notificação de 36 casos de intolerância religiosa através do Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela. Em 2017 foram 21.

Dois casos chamaram a atenção e ganharam repercussão nacional, ambos relacionados a religiões de matriz afrodescendentes. No último dia 26 de agosto, em Juazeiro, na região do Vale do São Francisco da Bahia, o Terreiro Ilê Abasy de Oiá Gnan foi apedrejado durante todo o dia. Sessenta e cinco dias depois, no dia 30 de outubro, em Salvador, as paredes brancas do muro que cerca um dos mais antigos e tradicionais Terreiros de Candomblé do mundo, a Casa de Oxumarê, foram pichadas com referências a religiões cristãs.
A intolerância religiosa é um assunto importante porque fere um dos principais direitos universais do homem: o direito às liberdades fundamentais de todos, sem distinção de raça, sexo, idioma, religião ou pertencimento. Ela é caracterizada, portanto, pela cerceamento das liberdades individuais e coletivas, pela discriminação, exclusão, ofensa, coerção e demais tipos de violência simbólica e física contra seguidores de uma crença ou religião.

Sobre o assunto (intolerância religiosa), o JS, nesta Edição Especial, entrevistou quatro líderes religiosos da região: Padre Eutrópio Aécio de Carvalho Souza (Guanambi), o Pastor Alexsandre Barbosa Santos (Macaúbas/Ibipitanga), a presidente da Associação Espírita Maria de Nazaré, Adriana Amaral da Silva (Guanambi) e Nurcia Caires da Silva, ex-dirigente do Centro de Umbanda Maria Conga de Angola (Brumado), que falaram sobre o tema intolerância religiosa e destacaram as relações inter-religiosas e como essa questão tem sido tratada.

Confira os principais trechos das entrevistas:

Foto: Divulgação

PADRE EUTRÓPIO AÉCIO DE CARVALHO SOUZA, PARÓCO DA PARÓQUIA SÃO GERALDO MAJELLA, EM GUANAMBI (DIOCESE DE CAETITÉ) E ASSESSOR DIOCESANO DA PASTORAL UNIVERSITÁRIA E DA PASTORAL DA EDUCAÇÃO

 

JORNAL DO SUDOESTE – Como o tema da intolerância religiosa é tratado na Igreja Católica?

PE. EUTRÓPIO AÉCIO DE CARVALHO SOUZA – Há que se dizer, a princípio, que o Concílio Vaticano II (realizado entre os anos 1962 a 1965), que reuniu bispos do mundo inteiro com o Papa (primeiro João XXIII e depois com Paulo VI) no Vaticano, marcou um novo modo da Igreja Católica se relacionar com o mundo moderno, com outras Igrejas cristãs e também as religiões não-cristãs. No Concílio, a Igreja reconheceu a legítima liberdade religiosa de cada pessoa e expressa que a intolerância e a perseguição por motivos religiosos não podem ser admitidas. Há, entre os documentos do Concílio, um que trata diretamente da Liberdade Religiosa, como também há documentos sobre o diálogo da Igreja Católica com outras igrejas cristãs e com religiões não-cristãs. Também é uma preocupação bem atual para a Igreja Católica o fato de que, em muitas partes do mundo, tem crescido a perseguição aos cristãos e muitas outras pessoas são discriminadas e perseguidas por causa de motivos étnicos-religiosos.

JS – Como é a relação da Igreja Católica com as Igrejas Evangélicas? E com as crenças não-cristãs?

PE. EUTRÓPIO AÉCIO DE CARVALHO SOUZA – Como foi mencionado na questão anterior, depois do Concílio Vaticano II a Igreja Católica fez avanços na sua relação com outras confissões cristãs e também com religiões não-cristãs. Aqui é bom distinguir o que chamamos de “ecumenismo” (relação com outras igrejas ou comunidades cristãs) e o “diálogo inter-religioso” (com não-cristãos). Nas duas frentes, a Igreja Católica tem mantido uma atitude de diálogo e também de cooperação mútua. Cito como exemplo: a participação da Igreja Católica no Conic (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs), onde se desenvolvem atividades conjuntas desde celebrações ecumênicas até projetos sociais. Com as religiões não-cristãs, nota-se sempre um diálogo produtivo. Há no Vaticano um Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso. Diversas vezes os papas, desde João Paulo II, realizaram encontros inter-religiosos internacionais (como foi o caso dos “Encontros de Assis”). Há declarações conjuntas, especialmente em temas como direitos humanos, paz e justiça social. Com as duas outras grandes religiões monoteístas (judaísmo e o islamismo) e também com as diversas religiões orientais, observa-se a aproximação, o diálogo e até a oração em comum em determinadas ocasiões.

JS – Existem eventos específicos para que estes diálogos estabeleçam?

PE. EUTRÓPIO AÉCIO DE CARVALHO SOUZA – Podemos dizer que há uma atitude de diálogo e também de cooperação constante e crescente. Isso se torna constatável através da presença permanente da Igreja Católica em vários organismos ecumênicos (aqui no Brasil, como o Conic), como também, no âmbito mundial, através dos organismos que existem no Vaticano para tal fim, e em Jornadas ou Encontros Ecumênicos e Inter-religiosos. Ademais, é preciso que também não esqueçamos que nas várias dioceses, paróquias e comunidades, localmente, há iniciativas para o diálogo. Cito aqui, por exemplo, as “celebrações ecumênicas” que são realizadas por ocasião de algumas datas comemorativas, como também nas conclusões de cursos escolares ou universitários. Um exemplo pessoal: no mês de setembro participei de um evento promovido pela UniFG, em Guanambi, com diversos representantes religiosos. Foi uma bela experiência de diálogo, de escuta e de enriquecimento mútuo, onde cada um expôs sobre sua fé e também sobre como as igrejas e religiões compreendiam determinados assuntos da contemporaneidade.

JS – Como a Igreja Católica lida quando suas crenças são alvo de intolerância, como no caso das imagens de Nossa Senhora Aparecida que em diversas oportunidades foram vandalizadas por membros de outras Igrejas?

PE. EUTRÓPIO AÉCIO DE CARVALHO SOUZA – Notamos, com tristeza e preocupação, que episódios assim ainda ocorram. São na realidade atos praticados por fundamentalistas que não conseguem lidar com as expressões de fé do outro. Em primeiro lugar, a Igreja, através dos seus representantes, não incentiva as atitudes de revanche ou de violência. O primeiro ato normalmente é determinado pelo bispo local que pode emitir uma nota, convidando aos fiéis a um “ato de desagravo”, ou seja, uma celebração que repare o mal praticado de sacrilégio ou ofensa ao sagrado. O Código Penal Brasileiro, no seu art. 208 tipifica alguns crimes neste quesito da intolerância religiosa: “Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”. Portanto, é possível que a comunidade dos fiéis possa também recorrer à justiça para que as providências cabíveis possam ser tomadas e os responsáveis sejam punidos.

JS – Aqui na região existem casos de intolerância à fé Católica?

PE. EUTRÓPIO AÉCIO DE CARVALHO SOUZA – Existem casos isolados, motivados e praticados por religiosos fundamentalistas ou por alguns dos seus fiéis. Já houve casos de quebras de imagens e também de discursos e debates mais acalorados. No passado talvez mais. Preocupa-nos, contudo, que tem crescido uma atitude de intolerância velada, em nome da “laicidade do Estado”. Sabemos que o Estado é laico, ou seja, não pode promover determinado credo em detrimento dos demais e até mesmo dos que se declaram sem fé, mas não pode ser “laicista”, isto é, que tenta impedir ou até mesmo banir a manifestação pública dos credos religiosos. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, no seu Subsídio Doutrinal, 10 (Fé Cristã e Laicidade) diz: “O laicismo, por sua vez, não se limita à distinção entre o civil e o religioso, mas partindo de uma posição contrária à religião, ‘leva gradualmente, de forma mais ou menos consciente, à restrição da liberdade religiosa, até promover o desprezo e a ignorância de tudo que seja religioso, relegando a fé à esfera do privado e opondo-se à sua expressão pública.’” ( p. 20). Em nome do “Estado laico” se percebe que agentes públicos podem resvalar para o caminho da intolerância religiosa, ainda que não explicitamente manifesta.
Há também outra preocupação com o crescimento de grupos fundamentalistas e neotradicionalistas no seio da Igreja Católica. Usam de um discurso “em nome da defesa da fé”, que se sente como ameaçada, para atacar com virulência e até com certo deboche os considerados “oponentes”. Até mesmo o Papa, bispos e padres não escapam dos seus ataques. Estes grupos tem conseguido o apoio e a simpatia de muitos jovens – também em nossa região – e utilizam da internet (“youtubers” e redes sociais) para ampliar sua ação e influência. Vão cultivando um “cristianismo de combate”, uma “nova cruzada nos tempos pós-modernos”.

JS – Com a entrada do Papa Francisco as ações inter-religiosas ganharam mais espaço?

PE. EUTRÓPIO AÉCIO DE CARVALHO SOUZA – O Papa Francisco tem ajudado a Igreja Católica, através do seu Ministério Petrino, a continuar abrindo caminhos que o Concílio Vaticano, lá nos anos 60 do século XX, começou a trilhar. Assim, tanto o ecumenismo como o diálogo inter-religioso têm sido fomentados e aprofundados. Em várias ocasiões, o Papa falou da “cultura do encontro” e ele é um sinal vivo desta. Tem procurado escutar a todos e também dialogar com outros cristãos e as outras religiões. Em suas viagens internacionais, há encontros assim. Destaque também para a sua presença nas comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante, em 2016, na Celebração de Abertura, em Lund (Suécia). Outro ponto a observar é a sua preocupação com os imigrantes. Enquanto muitos tem manifestado o medo xenofóbico que carrega também a intolerância religiosa, o Papa Francisco tem sido uma voz forte e profética para que os países europeus, como também outros, não se fechem em nacionalismos que desrespeitem o imigrante, o refugiado e seus anseios de vida, liberdade e dignidade. Não esqueçamos que muitos imigrantes e refugiados que chegam à Europa são muçulmanos! Francisco tem nos ajudado a não esquecer que acolher e proteger o próximo está no centro do cristianismo!

JS – O senhor é favorável a ações de outros credos, das comunidades de religiões afrodescendentes, como a lavagem das escadas das Igrejas – como a Igreja do Bonfim, em Salvador, por exemplo?

PE. EUTRÓPIO AÉCIO DE CARVALHO SOUZA – Acredito que as religiões de matriz africana tenham seus próprios ritos e expressões para manifestar a sua crença e que devam ser respeitados, como exigimos respeito e consideração pelos nossos atos do culto católico. Aqui no Brasil, particularmente, aconteceu o fenômeno chamado de “sincretismo”, ou seja, a conjugação de certos elementos de culturas distintas. Salvador é um caso típico desse sincretismo, onde se misturaram elementos do catolicismo português com a religião e cultura dos negros africanos. Há elementos belos nisso, pois nós temos desde a culinária, a dança, a arte, até na linguagem, traços desta simbiose. Mas, o sincretismo também traz seus limites. Quando falamos em “diálogo inter-religioso”, estamos tratando de identidades que dialogam e não apenas se sobrepõem ou se fundem. O sincretismo faz com que tanto uma religião como a outra se mutile ou se relativize. O Papa Francisco expressa assim sobre o sincretismo: “Um sincretismo conciliador seria, no fundo, um totalitarismo de quantos pretendem conciliar prescindindo de valores que os transcendem e dos quais não são donos. A verdadeira abertura implica conservar-se firme nas próprias convicções mais profundas, com uma identidade clara e feliz, mas ‘disponível para compreender as do outro’ e ‘sabendo que o diálogo pode enriquecer a ambos’. Não nos serve uma abertura diplomática que diga sim a tudo para evitar problemas, porque seria um modo de enganar o outro e negar-lhe o bem que se recebeu como um dom para partilhar com generosidade. Longe de se contraporem, a evangelização e o diálogo inter-religioso apoiam-se e alimentam-se reciprocamente.” (Evangelii Gaudium, 251). Sei que há por parte da Arquidiocese de Salvador a atitude de dialogar com essa realidade complexa e desafiadora. O ensinamento da Igreja fala da “inculturação da fé”, ou seja, que a fé cristã também penetre nas culturas e valorize o que estas possuam de belo, nobre, justo e não contraditório ao essencial do cristianismo. Cabe lembrar que existe na Igreja Católica no nosso país uma Pastoral Afro-Brasileira! Sobre o caso específico da “Lavagem do Bonfim” é até difícil dizer algo, sem estar mais próximo da realidade. Correria o risco de ser superficial. Vi no site da Arquidiocese de Salvador que há uma programação que tem valorizado o dia da “tradicional Lavagem do Adro da Basílica do Senhor do Bonfim” que normalmente acontece numa quinta-feira que antecede ao dia festivo que é um domingo. Penso que os responsáveis pela Basílica tem tido o cuidado de garantir que este dia, dentro de uma preparação para o grande dia da Festa do Senhor do Bonfim, não perca o seu sentido. Sabemos também que a “Lavagem” acabou por se transformar num evento cultural no calendário turístico de Salvador, o que extrapola elementos puramente religiosos e que muitos confundem como “sendo a Festa do Senhor do Bonfim”.

JS – O senhor diria que hoje estaria havendo avanços ou retrocessos na luta contra a intolerância?

PE. EUTRÓPIO AÉCIO DE CARVALHO SOUZA – Respondo que há os dois. Avanços, porque temos procurado refletir mais sobre nossas práticas, nossos discursos e ações. Também porque a própria legislação vai aprimorando-se para enfrentar e responder às questões relacionadas ao fenômeno da intolerância, e também da intolerância religiosa. E, por fim, porque no meio religioso cresce a reflexão teológica e ações que apontam para uma cultura da paz, do diálogo e da mútua ajuda. Mas, há retrocessos que infelizmente verificamos em ações isoladas patrocinadas por grupos fundamentalistas. Em tempos de internet, essas ideias de intolerância ganham espaço e coro nas redes sociais. Verifica-se também o crescimento de lideranças políticas que, em seus discursos e práticas, trilham pelo caminho da incitação ao ódio, ao combate e discriminação do diferente. Vê-se que temos ainda um grande trabalho para realizar. Termino com uma frase do papa João XXIII, santo homem que convocou o Concílio Vaticano II e que sempre se mostrou capaz de ouvir o outro. Papa João deixou-nos no seu Testamento: “Buscai primeiramente aquilo que une, antes de buscar o que divide”. Eis aí um grande convite não apenas para as igrejas e religiões, mas para a toda a sociedade. Especialmente para o nosso país que nos últimos tempos tem visto crescer os discursos e as práticas intolerantes. Aproximando o Natal do Senhor, aproveito para manifestar a todos o mesmo desejo que os anjos trouxeram do céu para os pastores naquela noite de Belém: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14). Que possamos ter a consciência de “sermos amados por Deus” e assim permitir que paz, dom dos céus e compromisso nosso, se espalhe por todos os lugares. Deus abençoe a todos e a todas!

Foto: Adriana Amaral

ADRIANA AMARAL DA SILVA, PEDAGOGA, ESPECIALISTA EM EDUCAÇÃO INFANTIL E RELIGIOSA, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO ESPÍRITA MARIA DE NAZARÉ, EM GUANAMBI

JS – Como o tema da intolerância religiosa é tratado na fé espírita?

ADRIANA AMARAL DA SILVA – No Livro dos Espíritos, na questão de número 842, encontramos a seguinte questão: “842. Por que indícios se poderá reconhecer, entre todas as doutrinas que alimentam a pretensão de ser a expressão única da verdade, a que tem o direito de se apresentar como tal? Será aquela que mais homens de bem e menos hipócritas fizer, isto é, pela prática da lei de amor na sua maior pureza e na sua mais ampla aplicação. Esse o sinal por que reconhecereis que uma doutrina é boa, visto que toda doutrina que tiver por efeito semear a desunião e estabelecer uma linha de separação entre os filhos de Deus não pode deixar de ser falsa e perniciosa.”. Também no Evangelho Segundo o Espiritismo encontramos: “Meus amigos, agradecei a Deus o haver permitido que pudésseis gozar a luz do Espiritismo. Não é que somente os que a possuem hajam de ser salvos; é que, ajudando-vos a compreender os ensinos do Cristo, ela vos faz melhores cristãos. Esforçai-vos, pois, para que os vossos irmãos, observando-vos, sejam induzidos a reconhecer que verdadeiro espírita e verdadeiro cristão são uma só e a mesma coisa, dado que todos quantos praticam a caridade são discípulos de Jesus, sem embargo da seita a que pertençam. – Paulo, o apóstolo. (Paris, 1860.)”. A Doutrina Espírita respeita, reconhece o valor e a necessidade de todas as religiões que tenham por fim o melhoramento dos seres humanos, deixando claro que toda proposta de separação é perniciosa. Nos convida a união edificada no amor e na caridade, assim sendo não há espaço para intolerância.

JS – Como é a relação dos espíritas com a igreja Católica, as igrejas Evangélicas, e as religiões de matriz afrodescendente?

ADRIANA AMARAL DA SILVA – No Evangelho Segundo o Espiritismo encontramos: “… diz hoje o Espiritismo a seus adeptos: não violenteis nenhuma consciência; a ninguém forceis para que deixe a sua crença, a fim de adotar a vossa; não anatematizeis os que não pensem como vós; acolhei os que venham ter convosco e deixai tranquilos os que vos repelem. Lembrai-vos das palavras do Cristo. Outrora, o céu era tomado com violência; hoje o é pela brandura.”. Apesar da doutrina Espírita ser de profundo respeito e integração, num convite a fraternidade, na vivencia destes princípios encontramos obstáculos. Como no texto acima citado, o espiritismo esclarece e consola os que buscam nela amparo, e trata com profundo respeito os que discordam e pensam de modo diverso. O grande mal é o fanatismo, e isto encontramos em todas as religiões, esses distorcem os princípios de amor e fraternidade e partem para a violência e o sectarismo.

JS – Existem eventos específicos para que esses diálogos se estabeleça?

ADRIANA AMARAL DA SILVA – Ainda não é tão comum, em nossa região a uma carência nesse sentido, mas existem em cidades maiores e já ganham espaço e corações, diálogos inter-religiosos, cultos ecumênicos que são desenvolvidos com o fim de romper barreiras levantadas pela nossa incompreensão. Encontramos grandes exemplos que nos emocionam e vale a pena replicar, é o caso do trio: Aila Pinheiro (Freira Católica), Enéas Alexandrino (Pastor), Haroldo Dutra Dias (Conferencista Espírita), desenvolvem o diálogo inter-religioso com irmãos de outas religiões. Mostrando como é possível nos aproximarmos pelas nossas semelhanças e desenvolver algo bom. A irmã Aila Pinheiro atende a alguns convites e vai aos Centro Espíritas para falar das Cartas de Paulo, que são sua especialidade, entre outros temas. Estamos avançando, mas para a nossa tristeza ainda vivemos divididos, meu Deus, minha religião, meu time, meu partido, saiu do domínio do “meu”, é contra mim.

JS – Como a fé espírita lida quando suas crenças são alvo de intolerância?

ADRIANA AMARAL DA SILVA – “Tolerar é refletir entendimento fraterno” – Chico Xavier. Aprendemos com a doutrina Espírita que nos cabe ser indulgentes com as imperfeições alheias e perdoar as ofensas, esse é um exercício de caridade. E como afirma Kardec, a moral espírita é inatacável; porque baseada na do Cristo, não suscita dupla interpretação. Assim entendemos, não convém que sejamos nós intolerantes, e lutamos para guardar a fidelidade nesse princípio. A maior resposta que podemos dar quando atacados é oferecer a outra face, nesse caso a virtude da tolerância é roteiro de vitória. Todos mudamos um dia, a ignorância será substituída pela sabedoria, vamos aguardar e exemplificar na medida das nossas forças.

JS – Aqui na região existem casos de intolerância contra a fé espirita?

ADRIANA AMARAL DA SILVA – A religião tem um fim nobre, e nós que buscamos segui-la somos falhos e não alcançamos a sublimidade dos ensinos sempre. Com certeza há quem tenha sofrido algum tipo de intolerância dentro do movimento espírita, aqui apelo mais uma vez para a indulgência, não vou apontar nenhum caso. Avançando no entendimento, não mais acontecerá casos de intolerância, acolheremos e ofereceremos o nosso melhor, sempre amando a Deus sobre todas as coisas.

JS – A senhora diria que hoje estaria havendo avanços ou retrocessos na luta contra a intolerância?

ADRIANA AMARAL DA SILVA – Sem sombra de dúvidas, avanço, a prática do espiritismo já foi considerado crime no Brasil, passível de prisão e fiança, não era nem considerado religião. Hoje vemos na tv, ouvimos nas rádios, somos recebidos nos lares, encontramos simpatizantes em outras religiões, podemos afirmar a nossa fé abertamente. Ainda há fatos isolados de violência que tendem a desaparecer no futuro. Existe um movimento de repulsa em alguns, mas acredito que seja fruto do medo, da ignorância, do medo do desconhecido, mais um pouco de tempo e a paz de Jesus vai reinar.

JS – A senhora gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

ADRIANA AMARAL DA SILVA – Portanto, quem não é contra nós, está a nosso favor (Marcos, 9:40). Caridade e humildade, tal a senda única da salvação. Egoísmo e orgulho, tal a da perdição. Este princípio se acha formulado nos seguintes precisos termos: “Amarás a Deus de toda a tua alma e a teu próximo como a ti mesmo; toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.” E, para que não haja equívoco sobre a interpretação do amor de Deus e do próximo, acrescenta: “E aqui está o segundo mandamento que é semelhante ao primeiro”, isto é, que não se pode verdadeiramente amar a Deus sem amar o próximo, nem amar o próximo sem amar a Deus. Logo, tudo o que se faça contra o próximo o mesmo é que fazê-lo contra Deus. Não podendo amar a Deus sem praticar a caridade para com o próximo, todos os deveres do homem se resumem nesta máxima: Fora da caridade não há salvação. (Evangelho Segundo o Espiritismo).

Foto: Divulgação

PASTOR ALEXSANDRE BARBOSA SANTOS, DA ORDEM DOS PASTORES BATISTAS DO BRASIL, BACHAREL EM TEOLOGIA PELO SEMINÁRIO TEOLÓGICO BATISTA DO NORDESTE-EXTENSÃO SALVADOR-BA, PASTOR DA PRIMEIRA IGREJA BATISTA DE MACAÚBAS-BA (DESDE 16/02/2000) E PASTOR DA PRIMEIRA IGREJA BATISTA DE IBIPITANGA-BA (DESDE 12/07/2018)

JORNAL DO SUDOESTE – Como o tema da intolerância religiosa é tratado pelos evangélicos?

PR. ALEXSANDRE BARBOSA SANTOS – Com reprovação. Toda igreja comprometida com o Senhor Jesus e seu Evangelho, rejeita veementemente toda espécie de intolerância. Como cidadão e pastor Batista, tenho procurado amar e respeitar todas as pessoas independentemente de religião, cor, sexo, condição social, política etc.

JS – Como é a relação dos evangélicos com a Igreja Católica, as religiões de matriz afrodescendentes e os que professam a fé espírita?

PR. ALEXSANDRE BARBOSA SANTOS – Relação de respeito mútuo. Mas, por haver divergências no campo da religião, pensa-se que há intolerância. E na verdade não há. Particularmente, mantenho uma boa relação com todos os líderes e seguidores das religiões acima citadas em nossa cidade ou em qualquer outro lugar.

JS – Existem eventos específicos para que esses diálogos se estabeleçam?

PR. ALEXSANDRE BARBOSA SANTOS – Eventos específicos para esse fim, não. O que existe é que algumas comunidades evangélicas, participam de eventos sociais e palestras em escolas conjuntamente com representantes de outras religiões.

JS – Como os evangélicos lidam quando suas crenças são alvo de intolerância?

PR. ALEXSANDRE BARBOSA SANTOS – Com tristeza. Mas, somos orientados pela própria Bíblia a suportar estas situações, e jamais responder com violência ou ofensa.

JS – Aqui na região existem casos de intolerância contra Igrejas Evangélicas?

PR. ALEXSANDRE BARBOSA SANTOS – Que eu saiba não.

JS – O senhor diria que hoje estaria havendo avanços ou retrocessos na luta contra a intolerância?

PR. ALEXSANDRE BARBOSA SANTOS – Avanços. Sem dúvida. E as Igrejas Evangélicas são parceiras nesta luta.

JS – O senhor gostaria de acrescentar alguma coisa?

PR. ALEXSANDRE BARBOSA SANTOS – Sim. O povo evangélico é um povo pacífico e respeitoso que ama a Jesus e às pessoas. Somos um povo que acolhe a todos que nos procuram. Quando um andarilho chega numa cidade, uma das primeiras opções é procurar um pastor ou igreja evangélica. Nos hospitais há uma grande presença de crentes orando pelos enfermos. Num presídio ou delegacia, além das mães dos detentos, os evangélicos estão presentes crendo que é possível o homem ser restaurado. Ajudamos os dependentes químicos. Quantas pessoas deixam de suicidar-se após ligar ou visitar a casa de um pastor!? Quantos pessoas que sofreram traumas e abusos confidenciam aos pastores suas dores, encontrando alívio e paz? Acolhemos moças que vivem nas ruas se prostituindo, e quantas delas tornaram-se esposas e alegres mães de filhos. Não somos homofóbicos. Não odiamos Católicos, religiões afrodescendentes, Espiritas ou qualquer outro segmento religioso. Não somos violentos! Não somos desordeiros! Somos um povo que investe na restauração de casais! Nos momentos de aflição de muitas famílias brasileiras, nossas igrejas e nossos pastores são procurados e independentemente do horário e do credo religioso, atendemos prontamente. Nossas pregações motivam as pessoas a confiarem em Jesus, a amarem e a perdoarem! Nossas pregações incitam os homens a um padrão elevado de amor, honra, verdade, justiça, santidade. Somos doutrinados a uma excelência moral e espiritual, embora nem sempre conseguimos vivenciá-las na íntegra. Somos um povo que tem valores que não abrimos mão! Aqueles que se apresentam como evangélicos e são: intolerantes, desonestos, gananciosos, violentos, ofensivos e imorais não nos representam! Agradeço ao Jornal do Sudoeste pelo convite a esta entrevista. É certamente uma oportunidade de falarmos sobre um assunto tão importante em nossa nação. Obrigado.

Foto: Fillipe Lima

NURCIA CAIRES da silva, EX-DIRIGENTE DO CENTRO MARIA CONGA DE ANGOLA, EM BRUMADO, POR 18 ANOS. POR RAZÕES PESSOAIS, COM FAMILIARES ACOMETIDOS DE PROBLEMAS DE SAÚDE QUE PRECISAVAM DA SUA ATENÇÃO E CUIDADOS ESPECIAIS, FECHOU O CENTRO, MAS, APESAR DISSO, AINDA É PRATICANTE DEVOTADA DA RELIGIÃO E MANTÉM O TRABALHO DE CARIDADE.

JS – Como o tema intolerância religiosa é tratado dentro da sua religião, dentro da Umbanda?

NURCIA CAIRES – Nós abominamos, todo mundo tem o direito de escolher sua própria religião, ninguém pode impor religião a ninguém. Eu não imponho nem aos meus próprios filhos, para te dizer a verdade. Eu tenho dois filhos e eles assistiram desde pequenos as atividades realizadas quando eu tinha o Centro, mas nunca impus a religião a eles. Meu marido, inclusive, não deixou meus filhos fazerem a primeira comunhão, ele achava que eles, mais tarde, quando soubessem definir alguma coisa, escolheriam sua própria religião. Desde sempre ele estava preocupado com isso. Nós ouvimos muito no Rio de Janeiro, nas favelas, nas comunidades, de outras religiões destruírem Centros de Candomblé, isso é completamente absurdo. Nós podemos escolher um time de futebol, podemos escolher os políticos, então como vamos criticar ou impor religião a alguém?

JS – Dentro do Centro de Umbamba que você atuou como dirigente, e em suas experiências como praticante da religião, como tem sido tratada a questão do respeito às outras religiões?
NURCIA CAIRES – Sim, respeitamos as outras religiões. Inclusive, quando vamos fazer assistências, as pessoas que chegam, nós nunca procuramos saber a qual religião a pessoa pertence. A religião para nós não tem importância, nós queremos é atender as pessoas que precisam de ajuda e tentamos fazer isso.

JS – Como é a relação de vocês com as religiões Católica, Espírita e Evangélica?

NURCIA CAIRES – Também não há problema nenhum, inclusive frequento evento de outras religiões, casamentos, batizados, sem problema algum. Vamos a Igreja [Católica ou Evangélica] tranquilamente sem problema nenhum mesmo. Inclusive a filha de uma amiga casou numa Igreja Evangélica e fomos sem o menor problema, achei muito bonito o culto. Eu acho assim, tudo que fala em Deus é lindo e maravilhoso, não pode ser ruim algo que fala em Deus, só por não ser da minha religião, eu jamais criticarei. Há uns cinco ou seis anos, uma sobrinha minha casou em Brasília, eu fui ao casamento dela, chegando lá ela casou em um sítio e quem fez o casamento dela foi o meu sobrinho que é Pastor, achei muito linda a cerimônia. Tenho a minha religião, amo ela, mas não condeno a de ninguém.

JS – Existem eventos ou momentos específicos em que vocês fazem diálogo com praticantes de outras religiões, recebem essas pessoas, há algo nesse sentido?

NURCIA CAIRES – Nunca sentamos assim para conversar, a nossa religião desde o início nós trabalhamos apenas em ajudar as pessoas que precisam, nunca perguntamos a religião de quem nos procura. Mas essa é uma sugestão que eu gostei, podemos tentar sim, fazer esse convite. Acredito que a religião católica pode aceitar, por ser mais aberta.

JS – Como os praticantes da Umbanda costumam lidar quando são alvos de intolerância religiosa?

NURCIA CAIRES – Nós procuramos ignorar e pedir por aquela pessoa, que o nosso Pai maior abra a cabeça daquela pessoa e que ela possa entender que nós só queremos ajudar a quem está precisando no momento, discutir ou brigar jamais.

JS – A senhora tem conhecimento aqui na região de algum caso de intolerância religiosa contra a Umbanda e religiões de matriz afrodescendentes?

NURCIA CAIRES – Na nossa região eu nunca vi ou ouvi falar, nós escutamos histórias em cidades maiores, São Paulo, Rio de Janeiro, de pessoas quebrarem imagens. Relembro do caso de um homem chutando e quebrando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, o que também é um absurdo. Se a pessoa tem adoração e tem a fé na imagem, tudo bem, aquilo já é tudo. Cada um escolhe uma maneira de ser. O que não admito é essa intolerância.

JS – Esses comportamentos preconceituosos, no dia-a-dia, de pessoas que não tem muito conhecimento sobre a Umbanda, é recorrente?

NURCIA CAIRES – Sim, tem e vamos encontrar sempre. Eu, se tiver uma pessoa conhecida minha criticando uma outra religião, certamente falarei para ela respeitar as escolhas dos outros. Até então em relação à pessoas ligadas a mim, nunca presenciei nenhuma situação semelhante. A Umbanda é uma religião afro-brasileira, é uma religião de origem brasileira e foi fundada no Rio de Janeiro em 1908. Na fundação da própria Umbanda podemos encontrar um pouco de intolerância, talvez tenha sido a própria intolerância que originou a Umbanda. O Zélio de Moraes [Zélio Fernandino de Morais, médium e fundador da Umbanda], em Niterói, foi a um Centro Kardecistas, onde sentam-se todos em uma mesa para orar e ai começam a vir espíritos para dar uma palavra, uma citação ou até mesmo para pedir ajuda. Quando o Zélio foi, a convite de um amigo, ele se sentou à mesa, porém levantou, pois queria uma rosa em cima da mesa. Não era norma a pessoa se levantar da mesa durante a oração. Ao voltar para mesa o Zélio começou a receber espíritos de índios, pretos velhos que foram escravos, e aí o dirigente da mesa reclamou, pois não se aceitavam espíritos daquela natureza no local. Zélio questionou o porquê da não aceitação de tais espíritos. Então, através de uma manifestação de um Caboclo no Zélio, esse por não poder se manifestar no Centro, iria para a casa do Zélio e fundariam uma nova religião, esse era o Caboclo 7 Encruzilhadas. Por isso, a intenção desta ser uma religião humilde, sem nenhum preconceito, para receber aqueles que vinham cumprir sua missão. É uma religião cristã, monoteísta, pois só tem um Deus, usam outros nomes, Oxalá, Zambi, mas é um só Deus.

JS – A senhora diria que hoje estaria havendo avanços ou retrocessos em relação à intolerância religiosa?

NURCIA CAIRES – Eu estou achando que está havendo um aumento da intolerância, ao invés de diminuir ou parar. Pela cultura que a as pessoas têm hoje, isso já devia ter deixado de existir. Apesar de que estão batendo muito na tecla, está se discutindo mais. Talvez seja por isso que nós achamos que está avançando, estamos avançando no sentido de sentar à mesa e discutir, mas em outros pontos, não sei, talvez esteja faltando um pouco de amor, se tivesse um pouco de amor e respeito ao próximo, talvez isso teria diminuído. Orar e rezar para que haja mais amor no mundo, mais respeito ao próximo, pois se você respeitar seu espaço, você não avança no espaço do outro, e isso diminuiria.

JS – A senhora gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

NURCIA CAIRES – O que eu quero acrescentar é pedir um pouquinho mais de amor uns com os outros, amar ao próximo, como Jesus disse, nós temos que seguir isso, amar ao próximo como a si mesmo. Eu tenho certeza que qualquer religião, ou a minha ou a de quem quer que seja, está querendo apenas melhorar, querendo ajudar o próximo e pensando em Deus, o que se muda apenas é o ritual. No fundo, no fundo, se você pensar, é uma coisa só.

Foto capa: Jeane de Oliveira

Jornal do Sudoeste

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