Metrô e Assembleia Legislativa agem mal

No último dia 4 de fevereiro de 2014, o Metrô de São Paulo apresentou mais um defeito na linha 3 – Vermelha, na estação Sé. Isso não é novidade alguma, já que no metrô e nos trens e nos ônibus os problemas são reiterados.

Ninguém esquenta a cabeça mais com os defeitos, afinal todos já nos acostumamos com eles. Agora com relação às desculpas das autoridades, a grande maioria da população não tolera mais. Elas ferem mais do que as graves consequências dos problemas com o Metrô.

As paradas trazem cansaço, dores nas pernas, na cabeça; vontade de fazer xixi e outras necessidades fisiológicas, sofrimento que seria amenizado se tivesse um banheiro limpo para uso. Um sofrimento menor daquele causado pelas justificativas infundadas, porque dói na alma das pessoas.

O secretário responsável pelo Metrô argumentou que o problema pode ter sido causado por sabotagem porque as pessoas asfixiadas apertaram um botão de alarme. Quem conhece o inferno que é o metrô lotado não poderia esperar outra atitude a não ser fazer valer a lei natural da sobrevivência, uma tentativa desesperada de continuar vivo. O óbvio para os cidadãos não o é para o governador e seus auxiliares.

Basearam seus argumentos porque teriam sido ouvidas "palavras de ordem", sem nenhuma outra fundamentação lógica que reforçasse essa tese. Não apresentaram nem sequer uma imagem de televisão nem de celular como indício da suspeita de sabotagem. Essa tese só teria sentido se alguns sabotadores tivessem bola de cristal para estarem no metrô certo, naquele que fosse apresentar defeito, na viagem e na estação onde apresentasse o problema, além de estarem dentro e com a porta fechada. Se um desses itens fosse alterado, não daria certo o plano dos "meliantes".

É fato que as pessoas não toleram e, de forma progressiva, não vão mais tolerar passivamente serviços ruins e vão reagir cada vez com maior veemência. Disso, as autoridades ainda fingem não entender. Os serviços são prestados por servidores que não possuem qualificação técnica e psicológica, não sabem informar nada com precisão e não tem um telefone, nem um plano emergencial para amenizar qualquer interrupção do metrô ou dos trens.

E essa reação não é maior porque o acesso do povo brasileiro à informação ainda é predominante por meio do rádio e da televisão, que não divulgou a troca da frota de veículos pela Assembleia Legislativa de São Paulo, a um custo de quase 6 milhões de reais.

Cabe ressaltar que alguns dos carros que seriam trocados nem sequer chegaram a ser usados. Os carros "velhos" foram comprados em 2010, modelo Vectra, ao custo total de 8,9 milhões de reais. Desistiram de trocar a frota inteira após perceberem que a maioria não tinha sequer 1.000 quilômetros rodados. Daí se estabeleceu que só deveriam ser substituídos aqueles com mais de cinco anos de uso ou com mais de 100 quilômetros rodados.

No modelo de governar de Geraldo Alckmin, abrir uma porta para escapar da torrefação do metrô paulistano – e poderia ser de qualquer outro transporte coletivo – é sabotagem, é ação articulada; mas o mesmo argumento não se aplica ao grupo que troca Vectras por Cruzes tendo como justificativas o poder e direito privilegiado dos diferenciados do andar de cima.

Caso sejam mantidas justificativas como a do governador para um caos que todo mundo conhece e para compras como fez a sua base aliada, com a tomada de consciência da população, fatalmente as consequências sociais serão muito graves em curto ou médio prazo, sem possibilidade de contenção apenas com balas e cacetadas das polícias militares. Pelo tamanho do movimento, a reiterada desculpa de que se trata de um grupo articulado de baderneiros não servirá.

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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