Ministério Público Federal é acionado para investigar propagandas de bets feitas por criadores de conteúdo

Publicado em

WhatsApp
Facebook
Copiar Link
URL copiada com sucesso!

Representação pede investigação sobre promoção de apostas em conteúdos de entretenimento, fofoca e notícias sem identificação clara de publicidade e com possível divulgação de plataformas não autorizadas no Brasil

DANIELA MARTINS – ASCOM/PENSATA COMUNICAÇÃO (daniela@pensatacom.com)

O Sleeping Giants Brasil e a Imagem na Ação protocolaram uma representação no Ministério Público Federal pedindo a instauração de Inquérito Civil para apurar a divulgação de Plataformas de Apostas por criadores de conteúdo, páginas de entretenimento e perfis de grande alcance nas redes sociais.

O pedido trata de uma prática que, segundo as organizações, tem se tornado cada vez mais comum no ambiente digital: marcas do setor aparecem associadas a publicações sobre futebol, celebridades, política, relacionamentos e acontecimentos de grande repercussão, muitas vezes sem identificação clara de conteúdo publicitário, sem informações adequadas sobre riscos e sem advertências relacionadas ao jogo responsável.

Para as entidades, o problema não está apenas na presença dessas marcas nas redes sociais, mas na forma como elas são inseridas em conteúdos cotidianos e de alta circulação. Quando a comunicação comercial se mistura à linguagem de perfis de fofoca, humor, esporte ou notícias, a percepção do usuário sobre o caráter publicitário da mensagem pode ser reduzida, comprometendo a transparência das relações de consumo.

“O ponto central da representação é a forma como a publicidade de apostas tem sido incorporada à rotina das redes sociais sem a transparência necessária. Quando uma Plataforma aparece misturada a conteúdo de fofoca, futebol, política ou entretenimento, sem identificação clara de publicidade e sem advertências sobre os riscos envolvidos, o consumidor perde a capacidade de distinguir informação de promoção comercial. Em um setor sensível como o de apostas, isso não pode ser tratado como detalhe”, afirma Humberto Ribeiro, cofundador e diretor jurídico do Sleeping Giants Brasil.

A preocupação ganha peso diante dos riscos associados ao mercado de apostas online, como endividamento, comportamento compulsivo e exposição de públicos vulneráveis a estímulos permanentes ao jogo. A representação sustenta que, por envolver uma atividade regulada e de potencial impacto financeiro e psicológico, a comunicação do setor deve seguir padrões mais rigorosos de clareza, identificação e responsabilidade.

O documento também pede que seja apurada a promoção de Plataformas sem autorização para operar no Brasil. Um dos casos mencionados é o da Polymarket, Plataforma de Mercado de Previsão que, segundo a representação, não possui autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda para atuar no país. Diferentemente das bets esportivas tradicionais, esse tipo de serviço permite apostas sobre eventos futuros diversos, incluindo disputas eleitorais, conflitos internacionais e acontecimentos políticos.

Na avaliação do Sleeping Giants Brasil, a presença desse tipo de publicidade em conteúdos de grande circulação amplia a necessidade de investigação. A questão não se limita à regularidade da operação, mas envolve também a maneira como essas ofertas chegam ao público brasileiro, especialmente quando aparecem em publicações com aparência informativa, humorística ou recreativa.

O acionamento ao Ministério Público Federal pede a apuração de possíveis práticas como:

●     Publicidade em desacordo com a legislação consumerista;

●     Ausência ou insuficiência de advertências obrigatórias sobre os riscos das apostas;

●     Uso de estratégias capazes de induzir pessoas vulneráveis ao jogo;

●     Eventual direcionamento de conteúdo a crianças e adolescentes;

●   Possível descumprimento das normas que regulamentam o setor de apostas de quota fixa.

As organizações também solicitam que sejam requisitadas informações ás empresas envolvidas, aos influenciadores digitais, aos responsáveis pelos perfis citados e às plataformas digitais sobre:

●     A circulação desses conteúdos;

●     Eventual impulsionamento das publicações;

●     Critérios de segmentação de público;

●     Mecanismos adotados para impedir o acesso de menores de idade.

O caso surge em um momento de maior atenção pública sobre os impactos sociais das apostas online no Brasil. Com a popularização das bets e a presença crescente de marcas do setor em conteúdos de entretenimento, esporte e cultura digital, a fronteira entre publicidade, recomendação, notícia e opinião se torna cada vez menos evidente para parte dos usuários.

Para o Sleeping Giants Brasil, a apuração pode ajudar a delimitar responsabilidades em uma cadeia que envolve operadores, criadores de conteúdo, páginas de grande audiência, intermediários comerciais e plataformas digitais. A organização defende que a promoção de serviços de apostas precisa respeitar padrões rigorosos de identificação e transparência, sobretudo em ambientes nos quais mensagens comerciais circulam com aparência de conteúdo espontâneo.

Mais do que discutir a presença de marcas de apostas nas redes, a representação chama atenção para o modo como esse mercado tem buscado alcançar o público. Em um setor marcado por riscos financeiros e comportamentais, a identificação clara da comunicação comercial não pode depender da interpretação do usuário. Ela precisa ser explícita, ostensiva e compatível com a responsabilidade exigida de uma atividade regulada.

Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Deixe um comentário

Jornal Digital
Jornal Digital Jornal Digital – EdiÇÃo 761