Novembro negro

 O presidente eleito do Brasil terá 77 anos quando assumir a função em janeiro próximo, tornando-se o funcionário público número 1” do país, o paradigma e modelo para todos os demais. Serão 82 anos quando terminar o seu mandato. A idade não representa qualquer óbice para ele bem desempenhar suas funções. Aliás, é lícito supor que parcela ponderável de seus eleitores considerou, justamente, a experiência acumulada ao longo da vida como um dos fatores para nele votar. Este é um fato.

            Outro fato é que, há meros 50 anos, o Brasil era um importador de alimentos. Em 5 décadas transmutou-se no maior exportador líquido de produtos agrícolas do mundo. Uma revolução sem paralelo na História da Humanidade. O agronegócio representa um terço do PIB brasileiro, grande parte dos empregos e da renda dele advém, a totalidade do saldo da balança comercial brasileira também, por onde se instala traz junto progresso e qualidade de vida.

            Diversos fatores contribuíram para a revolução do agro brasileiro. Entrementes, sua pedra angular foi o desenvolvimento de tecnologia agrícola tropical, única no mundo – os demais países grandes produtores agrícolas estão em regiões frias ou temperadas. A Embrapa é incensada como tendo sido a grande mola propulsora do desenvolvimento tecnológico, que ombreia o Brasil com os demais grandes produtores agrícolas, nada ficamos a dever a eles. Nem em produtividade, menos ainda em sustentabilidade.

            O título deste texto foi inspirado na medicina, que alcunha os meses por cores (setembro amarelo, outubro rosa, etc.) para chamar a atenção para a prevenção de determinadas enfermidades. Novembro negro é o epíteto pelo qual será conhecido, no futuro, o mês de novembro de 2022, pela extinção de contrato em massa de cientistas da Embrapa. Que cometeram o crime de completar 75 anos de experiência, conhecimento e bons serviços prestados não apenas à instituição, mas ao agricultor, ao Brasil e ao seu povo, para não dizer ao mundo. Na interpretação da burocracia governamental no que tange à PEC que introduziu a reforma previdenciária na Constituição Federal, cientistas seniores devem ter seu contrato de trabalho sumariamente extinto. Independentemente do prejuízo que será causado a quem tanto se beneficiou de seu trabalho.

            Esses cientistas, ora considerados inservíveis, um peso morto, foram os mesmos que domaram o inóspito cerrado, que tropicalizaram cultivos, que criaram novos pastos e novas raças de gado. Que desenvolveram o plantio direto. Que integraram lavoura, pecuária e floresta. Trouxeram os bioinsumos para o campo. Além de milhares de outras tecnologias que fazem o mundo reverenciar o agro brasileiro, que fizeram a riqueza do Brasil. Que elevam a qualidade de vida do nosso interior. Trabalhadores anônimos, nunca os moveu a busca da ribalta, mas, sim, a pugna por um Brasil sempre melhor.

            Cientistas que queriam apenas e tão somente continuar labutando em prol do nosso país. Transformaram esse mote em objetivo de vida. Poderiam já ter se retirado, descansando, brincando com seus netos, pescando, tomando sol na praia, curtindo um dolce fare niente… Isso não lhes interessa, a vida não faz sentido longe dos campos e laboratórios, sua paixão, o que os moveu e os manteve ativos e produtivos, até a chegada do novembro negro.

            Triste fim para uma geração de cientistas que dedicaram sua vida, incluindo suas horas de lazer, para que o agronegócio brasileiro tivesse a pujança e fosse a fortaleza que hoje é. Sequer lhes está sendo dada a oportunidade de transferir seus conhecimentos e sua experiência para novos cientistas. Levarão consigo o maior patrimônio de uma instituição de Ciência e Tecnologia – como a Embrapa – que é o conhecimento e a experiência, que tornariam o agronegócio brasileiro ainda mais fulgurante.

            Enquanto escrevia esta lauda, músicas cujas letras são poemas, me vinham à cabeça. Finalizo esse texto de desabafo com sua transcrição, minha homenagem aos companheiros que agora partem, contra sua vontade. Eu não os esquecerei, e o Brasil, mesmo que não saiba seus nomes, saberá honrar seu legado, lastimando que não possa usufruir ainda mais do imenso potencial de avanço tecnológico que se perderá.

            De Roberto Carlos destaco alguns versos:

Você meu amigo de fé, meu irmão camarada

Amigo de tantos caminhos e tantas jornadas

Cabeça de homem, mas o coração de menino

Aquele que está do meu lado em qualquer caminhada

Me lembro de todas as lutas, meu bom companheiro

Você tantas vezes provou que é um grande guerreiro

Às vezes em certos momentos difíceis da vida

Em que precisamos de alguém pra ajudar na saída

Você que me diz as verdades com frases abertas

Amigo você é o mais certo das horas incertas

            A Embrapa foi o amor, a paixão de toda a vida dos colegas que partem, mas jamais a esquecerão, onde quer que estejam. A eles transcrevo em forma de paródia os versos do poeta maior, Noel Rosa, a tristeza de uma partida em que todos perdem, ninguém ganha.

Nosso amor que eu não esqueço

Morre hoje sem foguete

Sem retrato e sem bilhete

Sem luar, sem violão

            Às centenas de mentes brilhantes que, contra sua vontade, deixam o convívio da Embrapa, o meu eterno reconhecimento, meu aplauso – as cortinas nunca se fecharão para vocês.

Décio Luiz Gazzoni

Engenheiro Agrônomo e membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS).
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