O cerco dos piores

A greve generalizada dos servidores públicos e das universidades federais, muito além de um justo e democrático clamor por aumento salarial e por planos de carreira mais adequados, chama atenção por outro aspecto, bem mais contundente: a percepção negativa da população quanto a equação “eficiência x contracheque” do funcionalismo. Por equívoco, a ampla maioria dos cidadãos ainda crê que os servidores públicos trabalham pouco, ganham muito e estão reclamando de barriga cheia.

Na semana passada, em matéria do Jornal da Record sobre a tal operação-padrão dos policiais federais nos aeroportos, uma senhora, exausta com os atrasos e filas, desabafou, dedo em riste e apontado para a cara do grevista: “– Você não tem vergonha na cara! Quanto ganha um policial federal? Duvido que seja menos de R$ 6 mil! E ainda ficam aqui reclamando, fazendo greve. Eu sou aposentada, não ganho R$ 1 mil por mês e sou obrigada a passar por essa humilhação no aeroporto! Vocês não têm o direito de fazer isso!”.

Agora me diga: essa aposentada está errada? Sua percepção quanto às greves dos servidores é semelhante à compreensão de mais de 70 milhões de brasileiros, atualmente assalariados e com uma realidade bem distante de funcionários públicos com salários superiores a R$ 1 mil. A verdade é que essa história de “Nova Classe Média” não passa de uma falácia lulo-petista – e midiática, óbvio! – para classificar o assombroso número de famílias endividadas até o pescoço, vítimas do crédito fácil e irresponsável e engrossando o caldo cada vez maior da inadimplência. Fatalismo? Não. Trata-se da mais pura e límpida realidade.

Diante dessa percepção negativa quanto à viabilidade e a necessidade de greves, cabe o debate: por que os serviços públicos são tão ruins no Brasil? Culpa dos funcionários concursados? Culpa da ausência de renovação dos quadros? É possível que tenham sua parcela de responsabilidade. Mas há um dado tétrico nessa querela e que precisa ser levado em consideração: os milhões de servidores comissionados, nomeados pelas administrações sem qualquer critério de qualificação ou processo seletivo sério e sedimentados apenas no “Q.I.” (leia-se “Quem Indica”) e nas indicações politiqueiras.

Essa turma de desqualificados destrói os serviços públicos brasileiros. Corrói a máquina por dentro. Imbuídos de um tergiverso pseudopoderismo, desestruturam os processos administrativos, que neste país já são cultural e propositalmente burocráticos. São os algozes da eficiência e vilões contra a competência. Trata-se do cerco dos piores.

Por que é assim? A resposta é bastante simples e remete à matemática máxima de qualquer administração: os melhores buscam sempre compor suas equipes com os melhores; e os piores estão sempre cercados dos piores. Um chefão desqualificado, apaniguado político e dominado por pretensões e deveres duvidosos, jamais irá buscar os melhores profissionais para compor sua equipe de gestão. Ele teme ser superado, suplantado e substituído. A equipe desse chefão, invariavelmente, será composta por funcionários ainda piores que ele e que jamais ameacem seu status quo fartamente comissionado com dinheiro público.

Quer um exemplo dessa dinâmica? Aproveitando esse tempo de campanhas eleitorais, observe a quantidade de vagabundos da pior espécie que gravitam em torno dos candidatos a prefeito e vereador pelos quatro cantos do Brasil. São centenas de milhares de aproveitadores desqualificados dispostos a qualquer coisa para eleger seus candidatos e conquistar uma boquinha apaniguada nas novas administrações. Todos querem um quinhão da vitória e enterram consigo os conceitos mais elementares da governabilidade, transformando o Brasil no paraíso do toma-lá-dá-cá.

O cerco dos piores – essa desgraça administrativa! – é o principal responsável pela ineficiência dos serviços públicos, corroborando diretamente para a percepção negativa da população brasileira para a monumental greve do funcionalismo. Seria bem mais saudável e adequado que os funcionários públicos deflagrassem uma ação grevista contra as nomeações políticas, contra os apaniguados. São as frutas podres que contaminam o pomar. Fosse esse o objetivo, não haveria um único cidadão brasileiro contrário ao movimento.

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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