O Cirurgião e o Matuto

 Em deslocamento do povoado para a sua fazenda, o médico-cirurgião, dirigia um Jeep ano 1951, que lhe servia de apoio para essa finalidade e vencer as estradas vicinais esburacadas. Era um veículo apropriado para esse tipo de estrada, mais ágil, de tração nas quatro rodas, como diz o ditado: “pau para toda obra,”, o veículo se encaixava perfeitamente para a necessidade do doutor.

          Ia conversando com um amigo trocando amenidades, quando o veículo caiu num buraco e o motor apagou. Estavam num ermo sem nenhum recurso que pudessem se valer para resolver o problema. Ambos eram leigos em mecânica.

          O médico abriu o capô do jeep, olhou atentamente, tentou alguma investida, mas não conseguiu nada, pois era inabilitado nesse particular. Resignado disse: “Se fosse barriga de gente eu o colocaria para funcionar e tudo estaria resolvido”.

          Ocorre que um matuto que passava ao longe foi chamado pelo acompanhante aos gritos, pedindo socorro. Então o cirurgião alfinetou: “Nós, citadinos e instruídos, não entendemos nada de mecânica, imagine um capiau e, provavelmente, analfabeto, não vai entender patavina”.

          O roceiro morador do lugar conhecia o médico, o cumprimentou reverentemente, perguntando qual era o problema.  Foi-lhe explicado o ocorrido. Então, o indivíduo após verificar o motor do veículo, descobriu o defeito. Perguntou se havia no veículo, algum arame ou outro objeto de amarrar, mas nada foi encontrado.

          O matuto utilizou-se de um facão, cortou algumas palhas de licurioba (nome popular de uma palmeira muito comum na região nordeste entre os estados da Paraíba e Bahia), amarrou o acelerador que estava solto e orientou: toda vez que acontecer o mesmo problema, proceda, igualmente, como ele fez.

O acompanhante observou que não se deve menosprezar a inteligência do homem do campo, por mais ignorante que pareça. Comentou:  Uma lição de que a sapiência nem sempre prevalece em determinadas ocasiões. É importante lembrar que analfabetismo ou ignorância não é sinônimo de falta de inteligência.

O rurícola, apesar de analfabeto era um curioso, entendido, usou da experiência para solucionar a questão em apreço. Era proprietário de um carro velho e, nuca ficou na mão.

          Para ilustrar o conto relato uma história que minha mãe contava e dizia o seguinte:

          Um advogado palrador, ao atravessar um rio numa canoa, perguntou ao canoeiro se ele havia estudado e obteve uma resposta negativa: “Sou analfabeto de pai e mãe doutor, não distingo o ‘A’ do ‘B’”. “Vivo desse servicinho e é dele que sustento a família”. “O advogado redarguiu: que diante de fato consumado, ele (o canoeiro) havia perdido metade de sua vida por não ter estudado”.

          De repente, surge um temporal, chuva e ventos fortes, quando estavam no meio do rio, o vento açoitava a canoa colocando os passageiros em perigo. A canoa estava prestes a virar, o canoeiro perguntou ao advogado se ele sabia nadar, e por não saber, ouviu do remador: “então, doutor, o senhor vai perder a vida, por não ter aprendido a nadar”.

           Resumo e moral da história: o homem letrado morreu afogado por não saber nadar. Coisas da vida. O destino à vezes surpreende, tem suas nuances. É impossível ignorar a sabedoria da vida em todos os seus detalhes. Nunca se é completo, há algo sempre a aprender.

          “O sábio por sua vez, tem consciência que se aprende com tudo e com todos: com o analfabeto e com o homem da ciência; com os jornais e com as novelas. E não faz da inteligência e da cultura o final do caminho. Ele sabe que são apenas degraus de uma escada que nos conduzirá à sabedoria maior: a sabedoria da vida”. (Graziela Domini Peixoto)

Antônio Novais Torres

Antônio Novais Torres é comerciante aposentado, membro fundador da Academia de Letras e Artes de Brumado, membro do Conselho da Cidadania de Brumado, ex-membro do PMDB e PTB e membro do Conselho Editorial do Jornal do Sudoeste.
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