O Parafuso

De madrugada (não sei que horas eram, também não me preocupei em olhar, porque eu tava só o pó da rabiola), acordei com um negocinho me cutucando a cabeça, apalpei o travesseiro e peguei o pequeno incômodo, acendi a luz e vi que era um parafuso.

Acordei minha mulher e perguntei: “o que esse troço está fazendo aqui?”.

Ela, na maior tranquilidade falou: “agora danou-se, você já tinha um parafuso a menos, perdeu outro. Agora lascou tudo”. Achei graça. Rimos que nem dois tontos e voltamos dormir.

Na outra noite me lembrei do acontecido e me veio na mente a minha infância, quando minha mãe falava também desse jeito: “oh muleque doido, parece que falta um parafuso”.

E acho que faltava mesmo, porque eu era encapetado, não fazia nada que prestasse.

Traquinagem, peraltice, lambança, arrelia, eram esses os nomes que ela colocava nas minhas brincadeiras inocentes (pelo menos eu achava que fosse). Dizem que de bêbado e de criança Deus toma conta e eu acho que é verdade, não que eu já tenha sido um bêbado, mas já fui muleque. Perdi a conta das vezes que cai de telhado, muro, balanço, árvore, bicicleta, cavalo e até de cachorro. Já tropecei no próprio pé e não me lembro de ter machucado feio.

Dona Genoveva queria morrer quando punha roupa no varal e, quando ia pegar, tinha marca de bola, de mão, e a culpa caia sempre no Vardizinho. É claro! Em quem mais poderia ser?!

E as incontáveis vidraças quebradas, pneus murchos com palito, cocô na maçaneta e muitas outras “arterações”.

Mas, apesar de me faltar algumas peças na cachola, todos gostavam de mim, pois, no fundo, eu era um bom menino, era até prestativo, gostava de fazer alguns pequenos favores somente a troco de um obrigado, o que me deixava muito orgulhoso da minha boa ação.

O tempo passou, eu cresci, hoje sou pai, meus filhos já são adultos e, nas suas infâncias, não fizeram nem um décimo das artes que eu fiz.

Às vezes, fico me perguntando onde estão meus amigos de bagunça… Será que eles ainda se lembram daquele tempo? E o pé de manga rosa do seu Nerso, será que foi cortado pra muleque nenhum roubar mais manga? E a dona Veva? Se ainda estiver viva deve de estar bem velhinha com um montão de bisnetos .

São muitas perguntas. Como está aquele? E aquele outro, que fim levou? Mas a pergunta mais importante e sem resposta é: “quem colocou esse parafuso aqui?”.

Como é difícil se chamar Ideilce.

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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