O poder do novo

Enquanto escrevo essas linhas, ainda resta mais de 24 horas para sabermos o resultado do 2º turno das eleições municipais. Mas a publicação deste texto no Jornal do Sudoeste acontecerá na semana que sucede o pleito, portanto, todos os resultados estarão sacramentados quando o leitor aqui nos acompanhar. Não sou dado a exercícios de futurologia, mas arrisquei, em deixar registrado com antecedência, que não duvido, mesmo com a dinâmica das eleições e o comportamento do eleitor, da vitória de Fernando Haddad (PT) como próximo prefeito de São Paulo.

Quando da cogitação de Haddad como candidato, os melhores prognósticos o colocavam com 3% das intenções de voto. Sua principal rival no partido, Marta Suplicy, com levantamentos que a colocavam com até 30% das intenções de voto, mas foi preterida ao final do processo estabelecido pelo PT de São Paulo.

O que o PT fez em São Paulo foi um ato de extrema ousadia e que afronta a lógica do pensamento da forma tradicional de se fazer política no país. Que outro partido, em situação semelhante, na principal cidade do país, deixaria de ter como candidata uma ex-prefeita, ex-deputada, senadora eleita e hoje ministra do Governo Dilma, enfim, um quadro com larga experiência política e de grande conhecimento por parte da população para colocar, em seu lugar, um quadro qualificado, tanto do ponto de vista técnico quanto político, contudo, sem nenhuma experiência com candidaturas?

Hoje é lugar comum dizer que Haddad só disputa por conta de Lula, que o escolheu antes que desse a oportunidade ao PT escolhê-lo. Mas isso não é demérito, pelo contrário, o ex-presidente Lula provou, mais uma vez, seu aguçado gênio político e sua compreensão do momento que o país vive e do comportamento do eleitor diante das circunstâncias políticas. Cientistas políticos dos mais renomados e estudados não apostaram na possibilidade de Haddad ser até mesmo competitivo do ponto de vista eleitoral, veja lá vencer a disputa. Líderes políticos, tanto petistas quanto de outros partidos, jamais acreditariam estar fazendo o certo com a ousadia que Lula teve: antes de escolherem seus respectivos candidatos, prefeririam ver as pesquisas de intenção de voto e tomá-las como único parâmetro.

Lula sabia que Haddad era tão viável quanto Marta (aliás, mais viável até, porque a ex-prefeita tinha um alto índice de rejeição) porque a militância do PT traria para Haddad também os índices de aceitação de Marta, sem carregar a mesma rejeição, o que faria o ex-ministro ampliar a margem de votos do PT na capital, por trazer a novidade.

O que Lula fez, ao bancar Haddad, revelou também a preocupação do ex-Presidente com a renovação política, sobretudo a renovação de quadros em seu partido. Com um gênio político aguçado, Lula sabe que as lideranças do PT estão ficando velhos, os nomes do Partido que se destacam nas disputas eleitorais são os mesmos da época de fundação do Partido, há mais de 30 anos e que isso é perigoso porque em breve o PT poderia passar por um esgotamento justamente por conta de não ter se preparado para renovar seus quadros, como é prática dos partidos políticos tradicionais, que se baseiam no personalismo das lideranças.

O próprio Lula chega a ser um exemplo disso: como maior liderança popular forjada no seio do Partido dos Trabalhadores, durante quatro eleições presidenciais sucessivas, foi a escolha do PT para dirigir os destinos maiores da Nação. Contudo, em 2012, deu um exemplo de grandeza porque poderia cair na tentação de buscar viabilizar pela via Constitucional, com apoio do Congresso, um terceiro mandato e não o fez, preferiu que alguém o sucedesse, a ter de continuar Presidente; Sendo o líder natural e presidente de honra do maior partido de esquerda das Américas – e agremiação preferida do eleitorado brasileiro – Lula poderia ter convocado para sucedê-lo, no amplo quadro de valorosos filiados ao PT, companheiros históricos, fundadores do partido, políticos experimentados na vida parlamentar, dentre dezenas de senadores e deputados federais, ou ainda gestores reconhecidos e aprovados em suas experiências administrativas, mas sua visão de estadista o fez destacar para essa tarefa uma figura que não tinha militância histórica no PT, nunca havia disputado eleições ou conduzido uma campanha política, mas destacava-se por sua capacidade técnica e rigor gerencial: Dilma Rousseff.

Dilma em 2010, Haddad em 2012. A imprensa já noticia que Lula quer outro neófito em campanhas eleitorais para ser o candidato do PT a Governador de São Paulo: o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Lula apostou na renovação, e tem acertado.

Em visita ao Rio Grande do Sul, no último mês de maio, para participar de um Seminário Nacional do Partido dos Trabalhadores, evento ocorrido na capital gaúcha, tive a oportunidade de assistir ao final de uma noite uma palestra do baiano João Santana, o “marqueteiro” de Dilma e de Lula. Ali, em suas palavras, Santana lembrou que quando da escolha da então ministra Dilma Rousseff para suceder o presidente Lula, pairava sobre ela a mesma preocupação que ainda imperava sobre a campanha de Haddad: um desconhecido, com poucos pontos nas pesquisas, tendo como vantagem a simpatia de Lula, poderia ser eleitoralmente viável? Santana respondeu de uma forma que entusiasmou todo o público ali presente – e a maioria composta por gaúchos, havia tantos baianos quanto paulistas no recinto: “Falavam o mesmo de Dilma. E elegemos a Dilma. Eu digo a vocês: Haddad vai ser o próximo prefeito de São Paulo”. O jornal Folha de S. Paulo, no dia seguinte, destacava as falas de Santana em sua matéria de capa. E, àquele momento em que Santana fez seu prognóstico, havia em São Paulo pelo menos dois candidatos à frente de Haddad nas pesquisas: Celso Russomano e José Serra. E Haddad tinha o mesmo índice de outros três candidatos: Gabriel Chalita, Soninha Francine e Paulinho da Força Sindical. Resultado: o petista foi pro segundo turno concorrer contra Serra e sacramentar a vitória de que o povo queria o novo para a cidade. Um estreante em campanhas eleitorais supera o ex-prefeito, ex-governador, ex-deputado, ex-senador e ex-ministro José Serra.

Como dou, a esta altura do campeonato (estou terminando o texto às 14:35h de 27/10/2012), a eleição de São Paulo como favas contadas, acho de salutar importância que se registre as três lições que no meu entendimento, a eleição da principal cidade brasileira deixa, para os partidos, os políticos e o eleitorado:

1)       Os partidos políticos precisam renovar seus quadros. A renovação de quadros, inserindo novos quadros na disputa ou até mesmo quadros formados nos partidos e que não tiveram oportunidade ainda de disputar majoritariamente é fundamental. Até mesmo para se medir a força dos partidos e não a força de determinadas lideranças políticas;

2)       O índice de rejeição é fator crucial numa disputa eleitoral. É quase certo o que os marqueteiros falam e as eleições de 2012 comprovam: é mais fácil candidatos com 2%, 5% 10% de intenção de votos antes do início das campanhas chegarem a uma vitória do que uma candidatura que oscila na casa de 30% de rejeição ser vitoriosa. Essa casa de 30% significa que o candidato vai disputar apenas 70% (ou menos) dos votos válidos, quando poderia disputar 100% e, na maioria dos casos, precisa de 50% para vencer;

3)       É fundamental que as lideranças políticas avaliem o resultado de suas campanhas, sobretudo quando não vencem, fazendo a chamada autocrítica. O PSDB, por exemplo, sobretudo em São Paulo, vem cometendo erros grotescos. Serra e Alckmin revezam candidaturas do PSDB em São Paulo desde 1996: Serra (1996), Alckmin (2000), Serra (2004), Kassab, vice de Serra que assumiu definitivamente e disputou a reeleição (2008) e Serra (2012). Um partido refém de duas lideranças políticas (poderia ser pior, quando fica refém de apenas uma).

No mais, a vitória de Haddad é uma vitória da modernidade, da renovação e da esperança de um futuro diferente para a política brasileira. Petistas ou não, cidadãos de qualquer parte do país que esperam ver o Brasil progredir politicamente, com idéias novas, podem e devem comemorar o resultado da eleição de São Paulo com satisfação.

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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