O que a história nos conta sobre as pandemias?

Por Mara Ferraz/ Assessoria de Comunicação da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

 

Entender o processo histórico das principais pandemias que assolaram a humanidade vai além do conhecimento temporal ou, até mesmo, da compreensão de que forma tais enfermidades foram ocasionadas. O que se revela, para além disso, são as relações estabelecidas entre a sociedade e a própria pandemia.

Há registros de pandemias desde a Antiguidade. Assim, essas doenças vêm alterando o comportamento humano e estabelecendo novas relações sociais.

De acordo com a professora Cleide Lima, do Departamento de História da Uesb, a forma como o homem interage com o meio ambiente, ao longo dos séculos, pode ajudar a compreender o surgimento de doenças epidêmicas. “O advento da agricultura e a domesticação de animais salvaram a humanidade da fome, mas também nos aproximou das doenças infecciosas. Isso porque os agentes patogênicos que eram antes exclusivos dos animais passaram para outras espécies e tornaram-se doenças humanas”, pontua a professora.

Assim, há vários registros, desde a Antiguidade, que tratam da existência de pandemias. É o que explica o historiador e professor Brian Kibuuka, da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs): “nesses registros, são muito comuns as alusões a doenças, surtos, pestilências, o que constitui uma memória do impacto das epidemias no imaginário dessas sociedades”.

Segundo o professor Brian, um dos relatos mais conhecidos está presente na literatura judaica, em Êxodo 7 a 12. “Neste texto, são enumerados (…) terríveis calamidades que causaram estragos na economia e na sociedade egípcia”, comenta. Ele conta ainda que das dez pragas, nome dado às citações na Bíblia Hebraica, três eram epidêmicas e as outras explicavam porque as pessoas adoeciam.

No entanto, por muitos séculos, essas doenças não eram identificadas de forma científica. Muitas vezes, por não saberem como eram transmitidas, o surgimento delas estava associado a causas divinas ou baseado em crenças e mitos. As epidemias são ocasiões em que prospera a religiosidade popular, diante da ausência de respostas eficazes contra a epidemia provenientes de ações governamentais ou da Medicina”, completa o docente.

 

Arte: Uesb.

Semelhanças e diferenças entre pandemias

A professora Cleide lembra ainda que, por mais que as epidemias tenham acontecido em diferentes épocas, há um padrão de comportamento da sociedade que se repete nessas crises sanitárias. Referenciando o historiador de saúde pública, Charles Rosenberg, ela pontua que o primeiro desses padrões é identificar o que é uma pandemia, pois isso só é possível quando ocorre um número significativo de mortes. Posteriormente, a aceitação e a justificativa para lidar com a situação provocada pela doença. Em seguida, a adoção de práticas para administrar a disseminação da doença e, por fim, a diminuição do surto.

Você sabia?

A prática da quarentena começou no século 14, com o objetivo de proteger as cidades costeiras das epidemias de peste. A medida determinava que navios que chegassem na então República de Veneza permanecessem ancorados pelo período de 40 dias. Essa escolha tem uma motivação bíblica, pois esse era o período registrado de isolamento para as epidemias de Lepra.

Já o professor Brian reforça que, apesar dessas doenças se assemelharem pela facilidade do contágio por meio da circulação de pessoas, há um grande diferencial ligado diretamente ao tempo histórico: o acesso à informação. Isso pode ser percebido, por exemplo, entre a Praga de Constantinopla, que ocorreu no século 7 depois de Cristo, a Gripe Espanhola, que aconteceu no início do século 20, e, atualmente, a Covid-19. Hoje, por exemplo, sabe-se da ocorrência da epidemia muito antes de ela chegar.

Outra diferença está relacionada ao advento da ciência. Com o passar dos anos, novas configurações de entendimento sobre as doenças começaram a se estabelecer. Um dos principais marcos para isso foi a descoberta do cientista John Snow. Ele identificou a origem da contaminação da Cólera, durante o século 19, quando aconteceu a epidemia global mais letal da doença.

De acordo com a professora Lyra Cândida, do curso de Enfermagem da Uesb, John Snow fez uma análise com um grupo de pessoas que retirou água da mesma torneira pública nas ruas de Londres, na Inglaterra, e se contaminou com a doença. “Ele identificou que a origem da contaminação estava na água e não no ar, como se acreditava. É a esse estudo que se atribui o nascimento da epidemiologia”, explica.

Além disso, Lyra ressalta que as pandemias não são oriundas exclusivamente de vírus. Algumas, ocasionadas por bactérias e microorganismos, também causam grandes estragos na sociedade. Como é o caso da “Peste Bubônica, que recebeu o nome de Peste Negra. É uma doença transmitida para os seres humanos por meio de pulgas de ratos contaminados com a bactéria Yersiniapestis”. Segundo a professora, as investigações apontam que a doença tenha sido originada na China ou em alguma região da Ásia Central, chegando à Europa no século 14.

Conforme a professora Lyra, algumas situações vivenciadas em pandemias altera os hábitos de toda a sociedade ao longo da história. Nos séculos passados, o surgimento de muitas doenças epidêmicas estava associado também à falta de higiene. Assim, os costumes higiênicos foram mudando. Atualmente, para evitar a transmissão da Covid-19, por exemplo, é necessário manter as mãos constantemente limpas. “Com certeza, a prática da higienização recorrente das mãos também permanecerá nos hábitos cotidianos”, finaliza.

 

Foto de Capa: Pacientes com Gripe Espanhola. Foto disponível em Wikimedia Commons.

Jornal do Sudoeste

Categorias ,