Os degenerados acham que não têm limites

Estamos em fase de registro de candidaturas. Milhares foram impugnadas, em todo país, por causa da lei da ficha limpa (Maluf, Arruda, Jaqueline Roriz etc.). Mesmo os candidatos publicamente flagrados em corrupção lutam pela reeleição. Por detrás disso está o poder e os privilégios (em alguns casos, o de não ser preso). Com o fim a reeleição (veja nossa petição eletrônica nesse sentido: fimdopoliticoprofisional. Com. Br) não haveria mais nenhuma discussão. Daí a nossa luta.

Por que nem os corruptos (políticos, por exemplo) nem seus corruptores (construtoras, bancos, empreiteiras etc.) não se envergonham? Porque a característica central dos degenerados (sobretudo dos políticos, que representam parte do poder) é que eles se julgam não limitados nem sujeitos a instâncias superiores. Nos regimes totalitários e nas ditaduras, a grande massa da população acha que seu bem-estar e futuro estão atrelados às virtudes e atitudes do chefe (do caudilho). Ela tem como referência uma instância superior.

Onde foram vencidos os regimes autoritários e totalitários, prosperou a democracia. Mas o que caracteriza o homo democraticus, nas sociedades anômicas (como é o caso do Brasil, marcado pelo desmoronamento da eficácia das normas e dos valores republicanos), é a vulgaridade generalizada. Ele não enxerga nenhuma instância fora ou além dele mesmo. Trata-se de um humano autossatisfeito consigo mesmo e da forma como vive. Conforme agrava sua anomia (seu distanciamento das normas e valores), mais se profunda sua degeneração.

O degenerado (na política, na polícia, na sua casa diante dos seus familiares etc.) só encontra limites quando é forçado a isso. Seu habitat natural, portanto, é o território onde não existe o império da lei geral e impessoal. Aí ele se torna um soberano, um déspota ou um depravado.

Por que vemos muitos degenerados, sobretudo na política? Porque é muito mais fácil ser um degenerado que um humano exemplar, que possui uma férrea convicção de que a convivência humana (com outros seres humanos) exige a observância de normas que vão muito além dele mesmo.

O humano que se caracteriza pela exemplaridade exige muito de si mesmo, labuta diariamente (e em todo momento) para não fugir das regras razoáveis de convivência; é fiel cumpridor dos seus deveres e não enxerga os direitos como os únicos existentes na vida. Não se dá aos caprichos nem aos voluntarismos. O degenerado, ao contrário, não se exige nada, é um pseudo-imperador e vive contente consigo mesmo, aliás, possui encantamento por ele mesmo, por sua vulgaridade e pelo seu descaramento. Nada o envergonha.

Contrariando tudo que acreditamos (dizia Ortega y Gasset), "é a criatura seleta [exemplar, cumpridora dos seus deveres, prezadora da sua honra, a que ainda sente vergonha], não o degenerado, que vive em essencial servidão, a serviço de algo transcendente [preservação das normas e valores]. Não faz isso por opressão, sim, por convicção".

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
Categorias