Paulo Freire em Vitória da Conquista, 14 de outubro de 1983: uma entrevista histórica

Nascido em 19 de setembro de 1921 e falecido em 02 de maio de 1997, este ano comemoramos o centenário de nascimento do grande educador brasileiro Paulo Freire, referência internacional, definitiva, sobre os fundamentos do processo educacional, especialmente de jovens e adultos, universo no qual realizou sua experiência seminal de alfabetização, que serviu de base para a elaboração de uma concepção pedagógica mais geral e que se tornou um verdadeiro paradigma revolucionário da dinâmica ensino/aprendizagem.

Perseguido e exilado em 1964 pela Ditadura militar, Freire se tornou um cidadão do mundo e um peregrino da educação. Foi professor de grandes universidades estrangeiras, entre as quais a emblemática Howard, e colaborador de vários projetos em diferentes países. Retornou ao Brasil, 15 anos depois, em agosto de 1979, logo após a anistia. Em 1980, filia-se ao PT e a partir de então contribui com os debates e reflexões, especialmente entre os militantes dos movimentos sociais e educadores, sobre os mais diversos aspectos da educação no Brasil.

Em 14 de outubro de 1983 ele esteve em Vitória da Conquista, a convite da Uesb (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia), para ministrar palestras e “conversar” com professores e alunos dos cursos de licenciaturas e docentes das redes pública e particular de ensino, em evento aberto à comunidade interna e externa. Logo após a palestra, Paulo Freire se dispôs a manter um diálogo/entrevista com alguns militantes sociais, ocorrido no Colégio Sacramentinas, discutindo sobre alguns temas/problemas inerentes às relações entre educação e política.

Importa ressaltar que os docentes da Faculdade de Formação de Professores, unidade da qual se originou a Uesb, periodicamente promoviam eventos de natureza acadêmica que propiciavam, mesmo nos fins dos anos 70 e início dos 80, quando ainda vigorava um regime ditatorial em nosso país, espaços públicos para debates de temas educacionais permeados por conteúdo político-ideológico. Sem dúvida, a presença de Paulo Freire entre nós, naquele momento, foi um dos eventos mais expressivos para a contribuição da formação de um pensamento crítico e reflexivo sobre a práxis educacional e a conjuntura histórica que o país vivenciava.

Participei desse diálogo enquanto presidente da Adusb (Associação dos Docentes da Uesb), problematizando alguns temas da relação entre política e educação, juntamente com os militantes sociais José Carlos Duarte e Elias Dourado, que se tornariam, posteriormente, docentes da Uesb e dirigentes da Adusb. Paulo Freire autorizou a gravação da entrevista, cuja fita k-7 ficou “perdida” por muitos anos, mas, felizmente, foi recuperada pelo autor do registro, jornalista José Carlos, que a editou e a publicou na Revista Brasileira de Educação de Jovens e Adultos, veja link.(https://www.revistas.uneb.br/index.php/educajovenseadultos/.)

Durante os anos seguintes, décadas afora, tanto a UESB quanto o movimento sindical dos professores, em suas diferentes conformações, cultivaram a prática dos debates públicos e formulações sobre os rumos da educação em Vitória da Conquista e Região. Essa tradição esteve presente, também, nas gestões do PT, que formalizaram inúmeras instancias democráticas de participação popular e interlocução acerca da problemática educacional, experimentando tensões e construindo consensos em torno do tema.

Em um momento em que detratores desqualificados e ignorantes divulgam bobagens e agridem a obra de Paulo Freire, especialmente nas redes sociais, é importante que todo cidadão procure entender os princípios das teorias e práticas freirianas, que têm como centralidade dotar os indivíduos de uma capacidade de compreensão do mundo natural e entender a racionalidade do funcionamento da sociedade.

A rigor, os fundamentos teórico-metodológicos sistematizados por Paulo Freire tomam como premissa a tese de que o ato de ler e escrever é uma forma de descobrir e situar-se no mundo por parte dos educandos. Nesse processo, o ato de educar deve ser também um movimento de compreender o funcionamento da sociedade, de sua racionalidade, e do papel que as atividades humanas exercem na transformação da natureza e na conformação das estruturas sociais, bem como das contradições e conflitos que se originam no interior dessas diferenciações sociais.

Que as novas gerações possam tirar algumas lições das experiencias de militantes que aliaram a luta pela democracia, pela liberdade do ato de ensinar e pela valorização da profissão docente. E que nunca mais tenhamos as obras de Paulo Freire proibidas, como foram muitos dos seus escritos no período da ditadura, e que possam ser lidas e interpretadas livremente, em todos os recantos desse país. E que nunca mais alunos dos cursos de educação, curiosos e críticos, tenham que ler, escondidos, como eu e muitos colegas, os seus textos em fotocopias gastas de tantos manuseios, porque além de proibidas eram poucas.

Viva 15 de outubro, dia do professor!

José Raimundo Fontes

Doutor em História (USP), Mestre em Ciências Sociais (UFBA), ex-prefeito de Vitória da Conquista e deputado estadual (PT).
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