Pequeno mapa do tempo

“Eu tenho medo e medo está por fora / 
O medo anda por dentro do teu coração…”.
Quando compôs a canção que dá nome a este artigo, em pleno regime militar, Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes (ou simplesmente Belchior) dava à luz um clássico, obra que atravessou o tempo e que não é por ele desgastado, corroído. No último Domingo, 17 de abril, já ao fim da noite longa, do longo dia, ela me veio como uma onda, sonora, inflexível, sem pausa, sem sono, sem fim. Me pego a repetindo desde então, entre os carros, pelas ruas, agora, em frente ao computador. Sim, hoje eu tenho medo.

Sérgio Buarque de Hollanda, em sua obra “Raízes do Brasil”, cita o brasileiro como um sendo “um povo cordial”. Mal interpretado, segundo a jornalista Maira Streit, esse termo vem dos adjetivos “bondoso, educado”. “Cordial” vem de “coração”. Buarque de Hollanda se referiu ao brasileiro como um ser mais passional, emotivo (para o bem ou para o mal), que racional, cognitivo por excelência. Desfeito o engano, se vê que Hollanda nunca esteve tão certo. Nesses dias de ódios desvelados, nota-se a peito aberto que há algo de podre no coração do povo brasileiro. Sim, do povo brasileiro, esse ser cordial.

Não se questiona aqui se a votação para abertura de processo para a cassação da presidente Dilma era válido ou não. Por uma questão de interpretação do fato, se acharão bases para os dois lados, para um sim e para um não. O que chocou ao país, mas não todo ele, isso algo profundamente preocupante, foi o fato de imensa horda dos deputados federais ali presentes, empossados pelo poder do voto, serem réus em processos na justiça, muitos deles, inclusive, já por ela condenados. Mas como nada está tão ruim que não possa piorar, piorou.

Não bastasse ter-se como presidente da mesa um réu em vias de ser julgado e condenado (…), viu-se no Domingo o inaceitável em qualquer nação minimamente séria: um deputado federal, proferir seu voto, em homenagem a um general responsável pela prisão, tortura e morte de dezenas de perseguidos pelo regime militar no Brasil. Detalhe: com requintes de crueldade medieval.

Contra o Deputado Federal pelo PSC – Partido Social Cristão (sic), Jair Bolsonaro, já pesam diversas denuncias, indo do desrespeito à minorias e aos movimentos sociais, passando pelo freqüente desacato a parlamentares desafetos, chegando a pronunciamentos em redes de TV e rádio, onde escancaradamente prega contra a Constituição, a favor do fechamento do Congresso, de um golpe militar, defensor da tortura, da pena de morte, de uma guerra civil. Contra seu homenageado, seu mentor e amado mestre, ao que tudo indica, pesa tudo isso e muito mais. Carlos Alberto Brilhante Ustra foiCoronel do Exército Brasileiro e ex-chefe do DOI-CODI do II Exército (de 1970 a 1974), órgão responsável pela prisão, tortura e morte de diversos detidos durante o regime militar. Finda a ditadura, seus sobreviventes lutaram por décadas para que seus algozes fossem responsabilizados pelos crimeslesa humanidade, por elem cometidos. Entre as mulheres sobreviventes às sessões de tortura, realizadas por Ustra, em especial, estão a ativista política e atriz Bete Mendes, a jornalista Miriam Leitão (ela mesmo, da Rede Globo) e a Presidente Dilma Rousseff. Elas, e tantas outras pessoas, que passaram pelo DOI – CODI, e sobreviveram ao inferno e a seus demônios, Ustra, em particular, denunciam ao mundo os horrores daqueles dias sem fim. Socos sem trégua, sessões de afogamento, garrote, punção e pau de arara; choques elétricos nos testículos, nos bicos dos seis, no ânus, na vagina; palmatórias infindas, a quase deformar mãos e pés; passagens pela cadeira do dragão, empalamentos, estupros. O caderno / manual de torturas de Ustra, e dos seus seguidores, parecia ter vindo diretamente do Tribunal do Santo Ofício, da Inquisição. Se o inferno existe, seu autor, com certeza era o Diabo. Um ser humano não teria condição de engendrar e aplicar  torturas tão terríveis, a não ser que tenha literalmente vindo do reino inferior. Perverso? Psicopata? Não. Classificar a este e aos demais torturadores, e aos seus admiradores, como o Dep. Bolsonaro, como portadores de uma psicopatologia, de uma doença mental, seria tirar deles a responsabilidade sobre seus atos. Não. Não foram, não são loucos. A loucura não é um crime; o que eles fizeram, fazem, e prometem fazer, sim.

Contra Ustra, nos porões de seu inferno particular, o DOI-CODI, pesam descrições de um filme de terror: mulheres sistematicamente estupradas, inclusive na frente de seus companheiros; homens com o mesmo destino. Mulheres nuas, espancadas, eletrocutadas, na frente de seus filhos pequenos. Mulheres com suas genitálias, suas vaginas penetradas por um cano de metal, por onde se inseriam ratos. Tapava-se o cano, aquecia-se o metal. Não tendo como sair por um lado, o animal tomado de pavor buscava o outro caminho: a vagina, as entranhas, o útero da torturada. Não apenas uma, mas várias sobreviventes relatam essa aberração contra a natureza humana e todas apontam Ustra, ou o Dr. Tibiriçá, como era conhecido, como seu algoz. O monstro morreu aos 83 anos, em 15 outubro de 2015. Sua memória nos foi trazida, de maneira bizarra, neste Domingo último, em forma de desvelados elogios, proferidos por seu amado pupilo, Jair Bolsonaro.

Ver e ouvir alguém a elogiar um monstro como Ustra, já nos é difícil; ver e ouvir outros tantos a fazer, veladamente, o mesmo, nos causa estranhamento preocupante; saber que isso se deu no Congresso Nacional, por parte de gente que chegou ali por meio do voto, é algo inadmissível, aterrador. Pior que ver o congresso tomado por ratos, é saber que por trás de cada um dos faci / nazistas ali presentes, existe uma horda de cidadãos, de “brasileiros cordiais”, que neles creditaram seus votos, que através deles, expressam seus desejos e ideais.

Vendo e ouvindo Bolsonaro, vendo, lendo e ouvindo os milhares de elogios a ele e aos seus, ouvindo o silêncio de outros tantos, ouvindo o coro a dizer, a defender aquele Domingo, um tribunal de exceção, com nazistas falando em nome da pátria, da família e de Deus (e nós já ouvimos isso antes…), me lembrei novamente de Belchior e sua canção. “Eu tenho medo e já aconteceu / eu tenho medo e inda está por vir…” A origem dos elogios a Bolsonaro e por extensão a Ustra, no meu face? Alguns partiam de conhecidos e / ou amigos. Obviamente os deletei. Fui dormir lembrando de  Zuenir Ventura: “1968 – O ano que não terminou”. Não terminou e hoje eu tenho medo, medo desse “cordial” povo brasileiro…

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
Categorias