Pesquisa da Uesb aponta mudanças no modo de trabalho nas casas de farinha

Por: Ascom UESB VCA

 

Existente no Brasil desde o período Colonial, a casa de farinha é o lugar onde acontece o processo de transformação da mandioca em farinha. Com a raiz da mandioca, os trabalhadores produzem a farinha seca, a goma ou fécula, o tucupi, a farinha de tapioca. Sua produção artesanal, além de ser um alimento típico do Norte e Nordeste brasileiro, de subsistência familiar, nos remete a um lugar de memória tempo-espaço dos farinheiros. Porém, como aponta estudo do Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade da Uesb, ao longo dos anos, esses trabalhadores vêm perdendo espaço e tradições familiares por conta das transformações trazidas pelo capitalismo industrial e tecnológico.

Em recente pesquisa, que culminou em uma tese de doutorado, a professora Marisa Oliveira, do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas da Uesb, debruçou, mais uma vez, sobre esse universo. O objetivo da pesquisa foi analisar as transformações na produção da vida social e nos modos de vida de homens e mulheres do campo mediadas pelo capital, por meio do trabalho familiar em casas de farinha.

O estudo foi desenvolvido na comunidade de Campinhos, localizada em Vitória da Conquista, região demarcada, historicamente, por sua relação com o plantio de mandioca e com as casas de farinha. O estudo também foi feito no município de Belo Campo, mais especificamente, no povoado de Periperi, cenário com grande lastro de ruralidade e produção rural de farinha. Das visitas até as análises, foram entrevistados 27 trabalhadores, entre homens e mulheres, individualmente e em rodas de conversas.

Em um primeiro momento, a pesquisa focou no trabalho com a memória para explicar a vida em movimento dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. “Hoje, nossas farinheiras vêm esmaecendo, e isso altera os modos de vida, bem como estabelece movimento de força de trabalho, que destitui o homem do campo do seu território e o desapossa dos seus meios de produção”, alerta a pesquisadora.

Quais as principais mudanças? – De acordo com Oliveira, os resultados das pesquisas evidenciaram cinco pontos principais. O primeiro é que o modo de vida da ruralidade encontra-se ameaçado, em razão dos interesses capitalistas ou pelo enfraquecimento da classe trabalhadora presente no campo. Além disso, a pesquisadora destaca que a terra, instrumento de maior relevância na ruralidade, vai ganhando novos significados, novos tamanhos e novos destinos, com o passar do tempo. O terceiro resultado apontado é relativo ao trabalho, que, antigamente, era centrado na família, mas abriu espaço para contratação de terceiros, nos últimos tempos.

O quarto ponto a ser observado é o apartar dos trabalhadores de casas de farinha de seu reduto de trabalho, que vai levando-os ao assalariamento de homens e mulheres do campo. Por fim, o estudo ainda destaca a modernização que chega para a grande indústria da mandioca e que não retém seu olhar para o pequeno produtor.

A vida em movimento, as contradições e desarticulação do trabalho familiar são impostas, segundo a pesquisa. Na análise da pesquisadora, “tal movimento insere-se alterando a dinâmica de vida e de perspectivas dessas populações, sem que lhe seja outorgada a escolha ou o direito de pertencer a um lugar ou a um modo de viver”.

Nesse trajeto de análise da pesquisadora, o que ainda não mudou nas casas de farinha é a predominância do masculino sobre feminino. “O comando de uma casa de farinha pode estar sob os olhares atentos do feminino, mas o discurso é ainda prevalecente masculino”, conta Oliveira.

Outro fato importante diz respeito às relações de trabalho e subsistência. Como a família não consegue gerar renda e trabalho para todos e como a casa de farinha não conseguiu acompanhar ou desfrutar da modernização tecnológica, o trabalho familiar vem, aos poucos, desaparecendo. A pesquisadora é categórica em afirmar que os jovens já não querem dar continuidade ao trabalho dos seus pais, ou seja, continuar com a tradição familiar. “Se pensarmos que o modo de vida imposto pela sociedade capitalista é a única forma de estarmos sobre esse mundo, é limitarmos nossas acepções, escolhas e costumes. O homem é plural e a ele cabe, também, o direito de dizer como gostaria de ser e de estar na sociedade que vivemos”, explica.

O estudo teve início em 2006, no curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade da Uesb, e foi finalizado, no mesmo Programa, com a defesa da tese de Doutorado.

 

 

 

Foto de capa: Divulgação

Jornal do Sudoeste

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