Política rasa

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PEDRO CARDOSO DA COSTA

O brasileiro não fala nem se preocupa com política em sentido amplo. Não se discute as realizações dos governos, quanto cada um fez, quanto gastou e se os recursos empregados permitiriam realizar muito mais. Todo o debate do eleitorado fica restrito ao Fla-Flu das eleições, em discussões limitadas ao que um candidato disse de contraditório, ao que fez na vida privada quando era jovem, aos defeitos e às escorregadas do adversário. Desde 1989, quando se atribuiu a vitória de Fernando Collor ao fato de ter revelado a existência de uma filha de Luiz Inácio Lula da Silva, nascida fora do casamento ou antes dele.

As distorções começam pela incoerência da tão defendida democracia: o voto, seu principal requisito, é obrigatório, e não há debate consistente para torná-lo facultativo. Em seguida, surgem campanhas para que o eleitor compareça às urnas e aperte uma tecla colorida como exercício pleno de cidadania. Depois disso, o eleitor sente-se desobrigado de acompanhar os eleitos e espera apenas que a imprensa divulgue casos de corrupção generalizada, como ocorre há séculos, para então demonstrar indignação nas redes sociais.

O cidadão não tem participação efetiva na escolha dos candidatos, que obrigatoriamente dependem da indicação formal de partidos políticos. A maioria não sabe onde fica a sede do partido ao qual está vinculada, nunca leu o programa partidário nem participou de qualquer atividade política, até porque essas atividades praticamente não existem. No Brasil, partido político costuma ter dono, alguém que faz o que quer de maneira individual. O retrato recente desse comportamento foram os pretendentes do Partido Social Democrático-PSD à Presidência da República entrando e saindo do beija-mão de Gilberto Kassab em sua residência, em São Paulo.

Não se busca conhecer política nem em seu sentido conceitual nem nas práticas administrativas. A imprensa deveria desempenhar o papel de informar adequadamente, sem torcida para um lado ou para o outro.

Seria necessário pontuar sempre as realizações de cada governo. Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu em 2003, quantas pessoas viviam em favelas e quantas deixaram essa condição durante seu primeiro mandato. Isso deveria valer para todos os governos e para todas as áreas: saneamento básico, acesso à água potável, existência de banheiros nas residências, combate ao analfabetismo, atendimento no Sistema Único de Saúde, desmatamento, limpeza de rios, construção e preservação de estradas.

A título de exemplo, quando o presidente da República assumiu seu terceiro mandato, falava-se na conclusão de oito mil obras inacabadas. Seria o momento de toda a sociedade, especialmente dos meios de comunicação, cobrar e verificar quantas foram efetivamente concluídas. Além disso, seria necessário apontar quantas poderiam ter sido entregues. Caso contrário, torna-se fácil divulgar apenas o número das obras realizadas sem mencionar quantas mais poderiam ter sido executadas.

Para o cidadão torcedor, mão importa o número exorbitante de ministérios, de cargos comissionados, de valores pagos desnecessariamente em aluguéis, de horas extras e de viagens. Nada disso ganha relevância no debate público.

Também não há reação efetiva contra a ineficiência da Justiça, além de morosa, parcial e envolvida em denúncias de venda de sentenças. Da mesma forma, pouco se cobra sobre a inexistência de projetos consistentes para o esporte em qualquer nível de governo.

É preciso abandonar o debate centrado em posições de foro íntimo, frases infelizes, filhos fora do casamento ou opiniões sobre casamento entre pessoas do mesmo gênero. O essencial seria buscar formas efetivas de participação política, começando pelas manifestações públicas e chegando, quando necessário, às manifestações de rua, uma das expressões mais eficientes de pressão social e política.

Seria necessário criar instrumentos de participação efetiva da população para ajudar a mudar o modo descompromissado de agir dos políticos, além de combater privilégios abusivos, como o exagero de verbas, o auxílio médico perpétuo, inclusive para familiares, e inúmeros outros benefícios injustificáveis.

Principalmente, seria preciso tentar desenvolver nas pessoas o sentido de coletividade e de melhoria social para a coletividade. Hoje, muitos se orgulham mais de ter uma fotografia ao lado de um político do que de ter um hospital funcionando adequadamente. É como no meme da internet que afirma que agradecer a um político pelo que ele faz equivale a agradecer ao banco por liberar o próprio dinheiro do correntista.

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Jornal Digital Jornal Digital – EdiÇÃo 760