Precisamos construir a paz

Perdoem-me os que pensam o contrário, mas precisamos, sim, com urgência, começar a construir a paz.

A violência que se cristaliza em furtos, assaltos, roubos, dentre outros, é fruto de uma sociedade doente, egoísta, excessivamente consumista e insensível aos problemas daqueles que não estão incluídos num determinado círculo de convivência. É resultado ainda da falta de vontade política para investir verdadeiramente na educação, única maneira de se diminuir as abissais diferenças sociais, assim proporcionando inclusão e dignidade a todo um contingente populacional.

Muito mais que simples mobilizações em favor da paz, o que precisamos realizar são movimentos demonstrando nossa indignação e protesto a cada vez que explode a violência da corrupção, do desvio do dinheiro público, que faz falta na educação, na saúde, na aquisição de medicações de alto custo para entrega a pessoas enfermas sem recursos para adquiri-las. Isto porque, ante esses fatos a paz também não existe.

O sentimento de quem não tem acesso aos bens mínimos necessários para crescer e se desenvolver de forma inclusiva na sociedade, é de revolta, de raiva, diria de ódio mesmo, cultivado em relação a todos aqueles que dispõem de tudo, e muito mais, para viver com dignidade, além de conforto. E esses sentimentos, que não são canalizados de forma adequada, acabam extravasando em atitudes que podem ser de autodestruição, como o uso de drogas, o alcoolismo, o suicídio, etc, ou de heteroagressão, aquelas dirigidas contra os membros da sociedade que, aos olhos do “marginalizado” seriam os “responsáveis” por sua vida miserável.

Consoante nos ensina Erich Fromm, “a personalidade de cada um se desenvolve com as “oportunidades” e condições que a sociedade oferece.  Se a sociedade faz exigências contrárias à própria natureza humana – por exemplo, não fornecendo ao indivíduo as condições de se desenvolver enquanto espírito criador ou quanto à sua necessidade de segurança – frustra-o e determina a alienação de sua condição humana.  A intensidade e constância dessas condições adversas de vida podem levar o homem à conduta anti-social, à loucura ou a outros processos de destruição”.

Já dizia Jean Piaget: “Não se deve negar à criança, ao adolescente e ao adulto os instrumentos indispensáveis para competir na sociedade, o que se fará através da educação, pois quando esta falta o que ocorre é o confronto”. A crescente deterioração dos padrões de comportamento dos brasileiros das classes mais altas repercute negativamente nas classes mais baixas.  Não existe, no Brasil de hoje, um projeto ou uma orientação de conduta ética, o que leva nossas instituições a serem desvirtuadas não correspondendo aos objetivos para os quais foram criadas.

O desemprego, a discriminação contra mulheres e minorias, a má educação pública, a favelização das grandes cidades, o crescimento desordenado das periferias urbanas e a decadência da saúde pública fazem com que os direitos humanos no Brasil ainda não passem de uma carta de intenções.   À medida que o desemprego cresce, as políticas compensatórias sobrecarregam os orçamentos criando déficit e sérios problemas econômicos.  Milhões de pessoas são assim empurradas para a marginalidade, provocando distúrbios sociais, distúrbios esses que afetam todos os brasileiros que vivem em ambiente urbano.

Nesse estado de coisas, os grupos sociais deterioram-se, isolando-se em guetos e tendo cada um sua realidade, como se vivessem em países diferentes, fazendo com que tenhamos dois tipos de lei: a dos que têm dinheiro ou poder e a dos que não têm nem um nem outro.  

Numa sociedade tão desigual como a nossa, em que uns valem mais do que outros, nega-se ao indivíduo o direito a uma vida digna que culmina no seu desajuste social, pois não lhe foram oferecidas chances para competir em igualdade de condições na comunidade.  Assim, os mais pobres e deseducados, muitas vezes já iniciados no caminho das drogas, passam a engrossar a grande legião dos “excluídos sociais” deste país, acabando por enveredar o caminho que lhes parece mais fácil à satisfação de suas necessidades básicas: o caminho da criminalidade.

A família pobre, como se sabe, não mais reúne condições de assumir os filhos. O pai, na maioria das vezes, é desempregado ou vive de biscates, enquanto a mãe, anteriormente responsável pela educação da prole, tem de passar o dia fora trabalhando, seja para complementar a renda ou sustentar a própria família. Os filhos ficam entregues à sua própria sorte e, como alternativa, partem para as ruas em busca de um trabalho ou de “bicos” que propiciem algum trocado e lhes assegure a sobrevivência.  Acabam por abandonar a escola que, por sinal, pouco tem a ver com a sua realidade, e definitivamente passam a se incorporar à rua, que embora exerça sobre eles um grande fascínio lhes é extremamente perigosa e nociva.

E poucos se dão conta desta dura realidade. Reagem, sempre que provocados, como se o problema da “falta de sorte” de significativa parcela da população não fosse problema seu. Ledo engano! A maior vítima de uma sociedade egoísta e pouco solidária é a própria sociedade. Sociedade essa que em sua insensibilidade se convenceu de que bandidos são sempre os filhos de outras famílias e que as suas estão a salvo, podendo virem a ser vítimas desses delinqüentes que, em face do risco que representam, devem ser encarcerados, devem cumprir pena, de preferência para o resto de suas vidas, pois só assim a sociedade (elitista) se sentirá mais segura.

Esse estado de coisas, ou seja, de injustiça social, pode culminar em um confronto de classes de proporções e resultado imprevisíveis. Cuidemos, pois, da caldeira!

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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