Primeiro ano dos prefeitos

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PEDRO CARDOSO DA COSTA

Cheguei a escrever “prefeitos atuais”, mas a lógica é simples: ou se é prefeito, ou se é ex-prefeito. Essa distinção vale para todos os cargos eletivos e para qualquer matéria jornalística. Ponto.

A administração municipal segue presa ao clichê segundo o qual “somente um louco faz as coisas da mesma maneira e espera um resultado diferente”, frase comumente atribuída a Albert Einstein, embora popularizada no Brasil por Flavio Quintela. O roteiro se repete: prefeitos iniciam o mandato alegando cofres vazios, sem perceber, ou sem admitir, que, na esmagadora maioria das vezes, o espólio foi deixado por um aliado político, responsável direto pela eleição do herdeiro.

Logo em seguida, surgem os investimentos em eventos festivos. Comemorações nababescas, contratação de artistas famosos e cachês absurdamente elevados passam a ocupar espaço central no orçamento. O ano avança e nenhum munícipe é capaz de citar um projeto estruturante, tampouco um evento esportivo de base do qual seu filho tenha participado. Essa lógica não se restringe aos municípios: repete-se nos 27 governos estaduais e no governo federal, com seus 39 ministérios, já no último ano de mandato e prestando-se a divulgar índices sociais dignos da Dinamarca ou da Noruega.

Na educação, multiplicam-se as festas de conclusão de curso ao fim do primeiro ano de gestão — e, com justiça, elas se repetirão nos três seguintes. Prefeitos entregam certificados, posam para fotos e divulgam resultados. O problema é que muitos concluintes apresentam praticamente o mesmo nível de conhecimento de quando estavam no ensino fundamental. Nem mesmo o secretário de Educação, autoridade máxima da área, parece saber como promover uma evolução real no aprendizado, realidade escancarada pelos ainda 11 milhões de analfabetos no país e por número ainda maior de analfabetos funcionais, inclusive entre pessoas com diploma de curso superior.

Na saúde, bastaria uma pesquisa elementar para constatar que poucas cidades com menos de 50 mil habitantes dispõem de aparelho de raio X. Quando existe, está quebrado ou falta material para a realização do exame. Os milhões de desdentados comprovam a inexistência de políticas efetivas de prevenção de cáries nas escolas.

Encerradas as festas de Réveillon, constata-se que praticamente todas as prefeituras investiram pesado em fogos de artifício, para deleite das emissoras de televisão em coberturas ao vivo, e em artistas com cachês astronômicos. São os mesmos artistas que não se acanham em cobrar do setor público o dobro do que recebem de contratantes privados e que, simultaneamente, aparecem na TV pedindo doações para entidades filantrópicas. Chama atenção o silêncio quase absoluto sobre os valores desses contratos, como se houvesse um pacto tácito entre mídia e prefeituras para não os divulgar, muito menos compará-los com investimentos em áreas como o esporte.

Como no Brasil há eleições a cada dois anos, este ano, prefeitos e vereadores passam a se ocupar mais do acompanhamento de candidatos aos governos estaduais e aos legislativos do que do funcionamento da máquina pública. O cidadão, por sua vez, vai sendo distraído por festas e, depois, por fotografias. Muitos se sentem mais lisonjeados ao aparecer ao lado de autoridades do que em exigir um equipamento de diagnóstico em um hospital municipal.

Convém reforçar o óbvio: o cachê estratosférico do artista é pago com o dinheiro do contribuinte. Não existe serviço público gratuito. O cidadão paga antecipadamente por tudo o que é executado e, não raro, recebe serviços superfaturados ou contaminados pela corrupção.

Com a aproximação das eleições, instala-se mais uma “guerra de torcida” por políticos de estimação, em vez da cobrança por projetos relevantes, mensuráveis e verificáveis. E o voto segue obrigatório, o cidadão permanece no papel de “ingênuo útil” do sistema político — e a indústria das fotos segue a pleno vapor.

15 comentários em “Primeiro ano dos prefeitos”

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