Quebra de estigmas é o pilar para inclusão do autista

Por Natália Silva/Gisele Costa

 

Desde 2008, o dia 02 de abril é considerado, por decreto da ONU (Organização das Nações Unidas), o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. No Brasil, é estimado que 2 milhões de pessoas tenham a síndrome que, segundo a Associação Brasileira de Autismo, tem como principais características os desvios na comunicação (inclusive a não verbal), a dificuldade de interação social e os padrões de comportamento repetitivos. Esses sinais podem se manifestar antes mesmo dos três anos de idade, por isso é tão importante que os pais fiquem atentos ao comportamento de seus filhos para que, caso haja indícios, o diagnóstico seja feito por um especialista o mais rápido possível e o tratamento apresente melhores resultados.

O acompanhamento pedagógico, as sessões em grupo para estimular a socialização e as atividades voltadas ao desenvolvimento da comunicação fazem parte do processo para melhorar a qualidade de vida de quem tem Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente no caso das crianças, pois como ressalta Daniel Messinger, líder de um estudo sobre o tema nos Estados Unidos, “quanto mais cedo as intervenções forem iniciadas, maiores são os progressos, principalmente nas relações afetivas, nas atividades diárias e motoras.”

Além disso, a psicopedagoga guanambiense Viviane da Silva Araújo, entrevistada perlo JS (veja box) faz um alerta aos pais para que continuem o trabalho em casa e tomem cuidado com a superproteção. “É preciso incentivar, ensinar a se vestir, a escovar os dentes e a comer sozinho. O excesso de proteção pode fazer com que os pais bloqueiem ainda mais a autonomia dessas crianças e jovens”.

Para compartilhar um pouco da experiência de ter um filho autista, a pedagoga Elianar Guimarães dos Santos, a empresária Gislane Araújo Ataíde, a professora Suely Alves e a pedagoga Daniela Assis Teixeira Aguiar, respectivamente mães da Cecília (3 anos e quatro meses), do Guilherme (12 anos), do Otávio e do Caio (de 16 e 8 anos, respectivamente) e do Artur (9 anos), gentilmente nos concederam uma entrevista, na qual detalham como foram apresentadas ao diagnóstico dos filhos, os desafios que enfrentaram e enfrentam principalmente relacionados à desinformação e ao preconceito nem sempre latentes, com a intenção de ajudar outras famílias que acabam de se deparar com a síndrome ou já convivem com uma criança que tem o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Ao dividir suas histórias e encorajar outras mães, outros pais, a lutar pelo futuro de seus filhos, apoiar e respeitar as diferenças, a professora Elianar Guimarães Santos, a Professora Suely Alves, a empresária Gislane Araújo Ataíde e a pedagoga Daniela Assis Teixeira Aguiar, apontam para a certeza de que, apesar das dificuldades para oferecer o tratamento adequado a uma criança com Autismo, os desafios são compensadores e tem sido o combustível que as move para lutar pela inclusão social, pelos direitos, contra os preconceitos e para torná-los independentes, não apenas seus filhos, mas de todas as crianças autistas.

Se você tem um depoimento como os da professora Elianar Guimarães Santos, da Professora Suely Alves, da empresária Gislane Araújo Ataíde e da pedagoga Daniela Assis Teixeira Aguiar, compartilhe em nossas redes sociais e assim você estará ajudando outras mães, outros pais, que enfrentam o mesmo desafio diário de conviver e aprender a se reinventar diariamente com uma criança autista. Como bem destacou a professora Elianar Guimarães, “o diagnóstico (do Autismo) não é sentença, é ponto de partida”. Ou como sentenciou a empresária Gislane Araújo Ataíde, “meu filho me ensina todos os dias e sou sempre grata a Deus por me presentear com uma criança maravilhosamente especial”. Ou, ainda, como faz questão de destacar a professora Suely Alves, “(o Autismo) me ensinou a ser mais tolerante, humana e corajosa”. Ou, ainda, como frisou a guanambiense Daniela Assis Teixeira Aguiar, “é transformador cuidar de um autista. E me faz uma pessoa melhor”.

Confira as entrevistas:

 

Foto: Arquivo Pessoal.

 

Professora Elianar Guimarães dos Santos com a filha Cecília Guimarães dos Santos

Elianar Guimarães Dos Santos, 38 anos, natural de Licínio de Almeida, radicada em Brumado, Professora, Pedagoga, Pós-graduanda em Intervenção Precoce em Autismo – Denver, pelo Child Behavior Institute of Miami, mãe da Cecília.

“(…) Não existe um único Autismo, são vários “Autismos”. Cada autista é único, diferente”

 

 

JORNAL DO SUDOESTE – Como a senhora descobriu o Autismo da sua filha? Qual idade ela tinha?
ELIANAR GUIMARÃES DOS SANTOS – Quando Cecília tinha quatro meses de vida, observei que ela ficava com os pés bem esticadinhos, nunca relaxava. Isso fez com que eu me preocupasse. Então, falei com o pediatra, que me aconselhou ir observando. Nas consultas seguintes, eu continuei a falar com ele sobre esse fato curioso, mas ele dizia que ainda era cedo para termos tal percepção. Aos oito meses ela ficou de pé pela primeira vez e foi nas pontas dos pés. Mostrei fotos e vídeos ao pediatra e ele achou melhor encaminhar o caso para um ortopedista pediátrico. Cuidamos de toda a parte burocrática e eu segui com Cecília, para Salvador, a fim de realizar uma cirurgia de encurtamento dos tendões, no Hospital Martagão Gesteira, já que foi esse o diagnóstico dado por um médico ortopedista, que atendia no Hospital de Brumado. Ao ser avaliada por dois médicos ortopedistas pediátricos, constataram que ela não tinha os tendões curtos. Assim começou nossa história… Com um ano de idade ela andou, os primeiros passinhos foram nas pontinhas dos pés. Ninguém imaginava que a marcha equina era um jeito de dizer ao mundo que o enxergava de forma diferente. De 4 em 4 meses íamos para Salvador para consulta com os ortopedistas. Dia 22 de fevereiro de 2018, tivemos mais uma consulta no Hospital Martagão Gesteira. Eu havia preparado meu coração para ouvir o médico falar em cirurgia, já que os tendões estavam encurtando. Enquanto aguardávamos no corredor, minha filha teve a primeira grande crise do Autismo dela (hoje sei disso). Na ocasião eu não entendia nada. Ela gritava muito, se batia, me batia … isso durou muito tempo, nada a acalmava. Chamaram o nome dela, entrei com ela aos gritos, coloquei no chão, porque não tinha mais força e enquanto usava de todos os métodos para fazê-la parar de chorar e de se agredir, o médico observava atentamente. A crise passou, ela acalmou e no meio da conversa o médico perguntou se eu já havia levado no neuropediatra. Eu respondi que não, ele seguiu falando dos pezinhos e a consulta acabou. Porém, eu jamais sairia de lá sem me certificar do motivo dele ter feito essa pergunta. Quis saber! E ele, bem calmo, sereno, me disse que fez essa pergunta porque 90% dos casos como o dela, que eles atendem lá [no Hospital], são casos de Autismo ou hiperatividade. A conversa encerrou assim e eu já sai da sala aos prantos, me perguntando, como não havia pensado nisso antes. Com ajuda de uma amiga (que pagou a consulta), marcamos com a neuropediatra, em Vitória da Conquista. Dia 28 de fevereiro de 2018, com 2 anos 4 meses, em uma única consulta, Dra. Lorena Tanajura fechou o diagnóstico de Autismo (TEA CID F84.0).

JS – Atualmente, qual a idade dela?
ELIANAR GUIMARÃES DOS SANTOS – 3 anos e 4 meses.

JS – No convívio social, você já passou por alguma situação desconfortável e de preconceito com a sua filha?
ELIANAR GUIMARÃES DOS SANTOS – Muitas! Dificilmente uma família de autista não passará. Minha filha já foi retirada de uma loja, pelo braço, porque a proprietária estava com medo dela quebrar as prateleiras, ela tinha acabado de sair de uma crise. Num ônibus, uma moça gritava comigo insistentemente, pedindo que eu desocupasse o lugar dela, enquanto eu tentava acalmar minha filha, em crise, e segurar sua cabeça, braços e pernas para protege-la da auto agressão. No aeroporto, um rapaz passou e ao ver minha filha deitada no chão, saiu gritando que eu deveria tirar a criança do chão sujo, mas que o WhatsApp não deixava (deitar no chão é uma estratégia dela de autorregulação). No ponto do metrô em São Paulo, ao ver que ela estava se desorganizando, chorava, esperneava, um senhor, sentado do nosso lado, olhou para nós, se levantou e sentou no banco ao lado. Sem contar nas filas preferenciais, o olhar de quem quer ver na cara da criança alguma deficiência que lhe dê aquele direito.

JS – Como se sentiu nestas ocasiões?
ELIANAR GUIMARÃES DOS SANTOS – Me senti revoltada, gritei, na maioria das vezes, me senti triste e acima de tudo, impotente. Enfim… grande parte dos autistas sofrem com a desordem do processamento sensorial. O que significa que luzes fortes, barulhos, ruídos, podem causar muito desconforto. Lidar com o inesperado, o desconhecido, as surpresas, também é um grande desafio para eles. Como nós, familiares, nem sempre podemos prever e evitar tudo, situações como essas facilmente podem desencadear uma crise. Foram em momentos de crises que senti as maiores dores do Autismo de minha filha. Os olhares atravessados, as críticas, os julgamentos, preferem acreditar que são mal educadas, birrentas, sem limites, sem educação. É complicado falar em empatia, porque se colocar no lugar no outro só é possível quando você se predispõe a conhecer o lugar do outro, isso só é possível a partir da informação, do conhecimento, nem todos buscam. Daí o lema “Conhecer para respeitar.”

JS – Como está sendo a experiência de sua filha na Escola ou Creche? Quais foram as dificuldades encontradas nesse sentido e como lida com elas?
ELIANAR GUIMARÃES DOS SANTOS – Ainda nos dias atuais, profissionais despreparados, ao serem procurados pela família para um possível diagnóstico de Autismo, aconselham a família a colocar o filho na Escola e pronto, vai ficar tudo bem! É fato que a Escola é um espaço que possibilita o desenvolvimento de muitas habilidades, porém, não é terapia para criança com transtorno no desenvolvimento. Em 2018, Ceci frequentou a creche em tempo integral. Foi maravilhoso, ela desenvolveu muito, sobretudo a fala, que foi um ponto determinante para colocá-la no espectro (TEA). Esse ano ela está na Escola em Tempo Integral Ayrton Viana. Cecília não tem problemas com interação social, o que desmitifica a ideia de que autistas não interagem, não falam, não olham no olho, não gostam de toque, cada autista é único. Ela se adaptou bem, por enquanto consegue desenvolver as mesmas atividades que os coleguinhas, ainda mais rápido que eles, o que não é a realidade da maioria das crianças com Autismo, que precisam de monitor para ajudar nesse processo. As maiores dificuldades dela são as questões sensoriais, a quebra de rotina e a baixa tolerância à frustração. Nesse sentido não há outro meio a não ser a parceria da família com a Escola. No início do ano letivo eu escrevi uma carta de apresentação para a Escola no sentido de informar sobre os comportamentos, estereotipias, ecolalias, sobre a dieta, os métodos que utilizo para lidar com a baixa tolerância à frustração e com comportamentos inadequados, os medicamentos, as habilidades que ela já possui, bem como as que faltam desenvolver para a faixa etária dela, o que a deixa irritada, desregulada, como acalmar… Essa carta tem contribuído muito para a prática pedagógica de toda a equipe e para o desenvolvimento escolar dela.

JS – Como sua filha está desde o diagnóstico? Como está sendo conduzido o tratamento dela?
ELIANAR GUIMARÃES DOS SANTOS – Cecília teve avanços significativos nesse primeiro ano de diagnóstico. Intervenção precoce é fundamental. Ela iniciou o tratamento com fonoaudiólogo. Como ela apresentava um quadro bem característico de desorganização sensorial, tivemos que, imediatamente, começar com a Terapia Ocupacional. Ela não sentia dor, não sentia frio, não tinha noção do perigo, muitas estereotipas, choro excessivo, atraso na fala e transtorno do sono. Parte desse quadro já foi revertido. Durante oito meses paguei as sessões semanais com a terapeuta ocupacional, em Vitória da Conquista, já que na nossa cidade não há disponibilidade desse profissional. O atendimento com neuropediatra, também lá, pelo mesmo motivo. Através de ação judicial consegui o tratamento e ela passou a ter acompanhamento multidisciplinar com fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e psicóloga. Atualmente, Cecília tem acompanhamento de fonoaudiólogo, psicóloga, psicopedagoga e neuropediatra, garantido pela Secretaria de Educação do município, no Núcleo de Atendimento Especializado. Além das terapias, faz dieta sem glúten, cafeína e lactose, tratamento da disbiose intestinal, além do Método Denver [Método Denver de Intervenção Precoce é uma abordagem terapêutica para crianças autistas de até 4 anos] que aplico em casa. Faz uso da melatonina há dois meses, que auxilia na indução do sono. Estamos nos preparando para iniciar o uso do óleo de Cannabis e o tratamento homeopático, afim de tratar as comorbidades do Autismo dela. Com essas intervenções ela deu um salto no ATEC [questionário que avalia o sucesso ou não dos tratamentos que estão sendo feitos com a pessoa com Autismo], passando de uma pontuação inicial de 79 para 33, sendo que com 30 ela é considerada grau leve e quanto menor for a pontuação, mais a criança sai do espectro.

 

“O desenvolvimento e a felicidade de um autista depende da aceitação, sensibilidade e dedicação dos familiares, o desenvolvimento dela perpassa por esse caminho”.

 

JS – Como é ser mãe de uma criança com Autismo?
ELIANAR GUIMARÃES DOS SANTOS – O sonho de toda mãe é que seu filho seja feliz e ser feliz perpassa pelo ser aceito, esse é o primeiro ponto que faz com que a mãe e a família de um autista sofra. Menos preconceito e mais amor é uma luta diária e a gente sofre para conquistar, infelizmente. Quando eu recebi o diagnóstico eu tinha duas escolhas, a primeira seria me recolher, esconder de todo mundo, camuflar, protegê-la do mundo cruel, preconceituoso. A segunda, aceitar, contar para as pessoas, falar sobre o assunto, tornar público e abrir um leque para que as pessoas passem a falar desse assunto, foi o que fiz. Posso garantir, foi a melhor escolha, Cecília é mais feliz depois disso. O desenvolvimento e a felicidade de um autista depende da aceitação, sensibilidade e dedicação dos familiares, o desenvolvimento dela perpassa por esse caminho. Esse é um fator primordial para que haja o bom desenvolvimento. A negação não ajuda em nada! Para a família o Autismo é um verdadeiro paradoxo. É um mundo de um vazio profundo, uma solidão amarga e dolorosa e ao mesmo tempo uma imensidão de amor e uma avalanche de possibilidades. Conviver com o Autismo é se cercar de profissionais multidisciplinares que compreendam, de fato, a necessidade do autista, buscar as ferramentas para que ele, em primeiro lugar, se sinta bem e em segundo lugar, progrida, desenvolva. Conviver com o Autismo de Cecília é reaprender a sonhar, a ter ilusões, a fazer planos para o futuro, a ter esperança. Diagnóstico não é sentença, é ponto de partida! O sistema quer nos impor métodos, protocolos, metodologias, regras, nos nivelar como se fôssemos todos iguais, nos rotular. Autistas não são isso e aquilo, autistas são humanos, distraídos, focados, calmos, agitados, lentos, rápidos, são pessoas. Conviver com o Autismo de Cecília é ler sobre Autismo 24h por dia, dormir com o celular na cara, assistindo vídeos sobre Autismo. Não dá para ser diferente! É passar de uma mãe que mal cozinhava um ovo, para uma mãe com caderninho de receitas. É levar a sério a dieta sem glúten, sem lactose, sem cafeína, as terapias, o uso do medicamento importado, é preocupar com o andar equino dela e passar o dia mandando ela colocar o pezinho no chão. É fazer brechó, rifa, campanha, seja lá o que for, para arrecadar dinheiro para pagar o tratamento. É fazer graduação em Pedagogia e pós-graduação em Autismo, para se informar e aprender mais, se especializar. É compreender de direito do autista, dar viagens e mais viagens ao Ministério Público, Secretaria de Saúde, Central de Marcação. É não ter tempo para arrumar um cabelo, fazer uma unha, sair com os amigos. É se preocupar com a rotina, com as crises, com as estereotipias, com a dieta, o dia todo, o tempo inteiro. É ter medo da regressão. É chorar escondido, nas madrugadas. Mas conviver com o Autismo de Cecília é, acima de tudo, experimentar o amor maior, é aprender o que nunca supôs, é descobrir que é muito mais capaz do que imaginava, é ter lição diária de afetos. Conviver com o Autismo de Cecília é ter a confirmação de que ela tem mil possibilidades pela frente e de que o céu é o limite para ela. Gratidão, minha filha, por me fazer um pouquinho melhor todos os dias! Te amo!

JS – Por fim, que recado a senhora poderia ou gostaria de deixar para outras mães ou pais de pessoas com Autismo?
ELIANAR GUIMARÃES DOS SANTOS – Quero dizer que não desistam dos seus filhos! Não subestimem o potencial deles. Não se intimidem! Estimulem seus filhos, o tempo todo, o tempo inteiro! Leiam, busquem, estudem, a informação é nossa arma! Se empoderem! O Autismo não tem cara, o preconceito tem. Não permitam que seus filhos não sejam aceitos e incluídos e respeitados! Se vocês têm dificuldade em buscar tratamento, busquem uma rede de apoio, mesmo que virtual, mas busquem! Pais, mães… cuidem-se! O auto cuidado é primordial para o avanço no tratamento dos nossos filhos. Empoderem-se!

JS – A senhora gostaria de acrescentar mais alguma coisa?
ELIANAR GUIMARÃES DOS SANTOS – Sim! Para a sociedade, minha filha existe! E se fosse seu filho! Eu empurro essa causa! Empurre você também! Convide o amiguinho autista para festinha do seu filho, para brincar no parquinho, ensine seu filho como lidar com o coleguinha autista na sala de aula, não sabote a dieta, pergunte à família o que você pode oferecer para a criança comer, seja solidário diante uma cena de crise ou de comportamento inadequado, pergunte se pode ajudar, como pode ajudar, ofereça ajuda a uma família de autista, pelo menos uma vez no mês, se não tem tempo, ofereça ao menos um abraço. Ninguém se preocupa em cuidar de quem cuida! Para as famílias que têm crianças pequenas, ainda com menos de um ano de idade, fiquem atentos aos marcos do desenvolvimento, os primeiros sinais podem ser percebidos nos primeiros meses. Aos que já tem diagnóstico, quero gritar que não existe um único Autismo, são vários “Autismos”. Cada autista é único, diferente. As abordagens e tratamentos que servem para uns, não servem para outros. Cada família deve encontrar o seu caminho. Não importa se uma usa óleo de Cannabis e outra usa Risperidona. Não existe certo e errado. A ciência tem muito que caminhar ainda nesse universo que se chama Autismo. No que tange ao tratamento, só existe comprovação científica para ABA [Análise Comportamental Aplicada], terapias comportamentais, entretanto, os estudos científicos são patrocinados pelas grandes indústrias farmacêuticas, que precisam vender os alopáticos para terem lucro. Nós não precisamos de comprovação científica, somos nós que convivemos diariamente com nossos filhos e sabemos o que funciona. Dieta sem glúten, cafeína e lactose, homeopatia, CEASE [sigla inglesa de Complete Elimination of Autistic SpectrumExpression – que significa Eliminação Completa dos Sintomas do Espectro do Autismo], florais, óleos essenciais, tratamento biomédico, uso de ômegas, vitaminas, suplementos, probióticos, prebióticos, enzimas digestivas, tratar alergias, inflamações… tudo isso, associado às terapias comportamentais, pode ajudar a tratar as comorbidades do Autismo (TDAH, apraxia, dispraxia, epilepsia, depressão, TOC, ansiedade, distúrbio do sono, problemas motores) e a diminuir os sintomas. O intestino é o segundo cérebro, Autismo não é só comportamental. Autista precisa de neuro, nutricionista, gastro, geneticista, alergista. O corpo do autista é um todo e não uma parte. O Autismo é tratável! Está acontecendo com minha filha, pode acontecer com seu filho também!

 

 

Empresária Gislane Araújo Bonfim com seu filho Guilherme

Foto: Arquivo Pessoal.

Gislane Araújo Ataíde, 43 anos, conquistense radicada em Brumado, graduada em Nutrição pela UFBa e Corretora de Seguros pela Funenseg, empresária do ramo de Seguros, mãe do Guilherme.

“A pureza do autista é encantadora, a alegria contagia, a felicidade é verdadeira, não existe o sentido figurado”

 

JORNAL DO SUDOESTE – Como a senhora descobriu o Autismo do seu filho? Qual idade ele tinha?
GISLANE ARAÚJO ATAÍDE – Observamos que ele não falava aos 3 anos como as outras crianças da mesma idade. Falava apenas uma sílaba das palavras ou apontava o que queria. Mesmo com a opinião dos mais próximos que falavam que cada criança tem seu tempo começamos nossa jornada aos médicos para a investigação e aos 5 anos foi fechado o diagnóstico de Autismo.

JS – Atualmente, qual a idade dele?
GISLANE ARAÚJO ATAÍDE – 12 anos.

JS – No convívio social, a senhora já passou por alguma situação desconfortável e de preconceito com o seu filho?
GISLANE ARAÚJO ATAÍDE – Não. Sempre falei e falo que meu filho é autista em qualquer meio. Não tenho vergonha dele e isso me fortalece. Ele também tem conhecimento e desde os 9 anos ele mesmo fala para todo mundo “tio (a), eu sou autista”.

JS – Como está sendo a experiência de seu filho na Escola? Quais foram as dificuldades encontradas nesse sentido e como lida com elas?
GISLANE ARAÚJO ATAÍDE – Está sendo muito dolorosa. As Escolas ainda, na sua grande maioria, não estão preparadas para receber uma criança autista. Desde quando ele entrou na Escola desenvolvi meu próprio método para ensiná-lo em casa. Deixei de trabalhar um turno para me dedicar aos estudos dele. O autista é muito visual, aprende com o concreto, então passei a ensiná-lo com brinquedos, gravuras, desenhos, vídeos e por associação. Hoje ele está no 7º ano do Ensino Fundamental II, tem a inteligência preservada, mas não aprende no mesmo tempo que as demais crianças. Ele tem muitas habilidades que a Escola ainda não sabe aproveitar. Sou uma mãe “chata” e insistente, estou presente na Escola e acredito que a falta de informação e entendimento de como funciona o cérebro do autista é um grande obstáculo. Continuo buscando meios para a inclusão do meu filho na Escola. E acredito que se nos colocarmos no lugar do outro as dificuldades serão minimizadas. Lembrando que para a Escola não é uma tarefa fácil fazer a inclusão, devemos também nos colocar no lugar da mesma. Acredito que só o trabalho em conjunto poderá melhorar essa situação.

JS – Como seu filho está desde o diagnóstico? Como está sendo o tratamento dele?
GISLANE ARAÚJO ATAÍDE – Ele está sempre evoluindo com as terapias, que é o tratamento que traz melhor resultado com o envolvimento da família. Ele desde cedo passou por neuropediatra, fonoaudióloga, psiquiatra, psicopedagoga, além do tratamento medicamentoso. O custo de uma criança autista é muito caro e os pais precisam se informar sobre os seus direitos para ajudarem seus filhos. O meu filho hoje fala, convive bem com seus pares, é inteligente, amoroso e diz que vai se formar.

 

“(Ser mãe de um autista) É padecer no paraíso com mais intensidade, é doar-se para o outro e esquecer de si mesma, acredito que seja a tradução do verdadeiro amor”

 

JS – Como é ser mãe de uma criança com Autismo?
GISLANE ARAÚJO ATAÍDE – É padecer no paraíso com mais intensidade, é doar-se para o outro e esquecer de si mesma, acredito que seja a tradução do verdadeiro amor. É dar valor a pequenas conquistas como a primeira frase, abotoar uma camisa sozinho, chorar mais que as outras mães na formatura do ABC, ficar encantada quando seu filho consegue cantar um trecho de uma música, ficar sem dormir revoltada com a inclusão escolar que não acontece desperdiçando uma inteligência brilhante, chorar com as crises de agressividade e sentir-se incapaz para resolver a situação sem dopar seu filho. É sorrir com suas gargalhadas assistindo desenho, é sofrer vendo seu filho ser excluído pelos seus pares, chorar com ele quando ele diz que sofre bullying, que ninguém o entende ou não quer brincar com ele, que ele quer ser igual aos outros. É não desistir nunca para que seu filho tenha uma melhor condição de vida e ser sempre grata a Deus por me presentear com uma criança maravilhosamente especial. O Autismo me fez uma pessoa melhor!

JS – Por fim, que recado a senhora poderia ou gostaria de deixar para outras mães ou pais de pessoas com Autismo?
GISLANE ARAÚJO ATAÍDE – Que a aceitação deve começar em casa, não tenham vergonha dos seus filhos. Lutem por eles e o caminho é a informação, quem detém conhecimento, detém poder. Ao receber o diagnóstico do TEA (Transtorno do Espectro Autista) sofram, chorem, mas o luto tem que terminar, precisamos nos munir de forças para melhor cuidar dos nossos filhos. Mas não se esqueçam de cuidar de vocês, o cuidador do autista também precisa de cuidado. Se equilibrem, estejam bem, procurem grupos que passam pela mesma vivência, desabafar é uma boa terapia. E não esqueçam do seu filho neurotípico, ele também sofre com tudo isso e não pode ser negligenciado.

JS – A senhora gostaria de acrescentar mais alguma coisa?
GISLANE ARAÚJO BONFIM – As incertezas, os medos e as ansiedades não passarão, estaremos sempre preocupados com o futuro, por isso é muito importante que haja um amparo pela fé. Esse novo mundo que nos foi apresentado é um grande aprendizado, não apenas com a dor, a autenticidade do autista é uma característica marcante, não tem filtro, não tem rodeios, não tem mentiras, o que se sente se fala. A pureza do autista é encantadora, a alegria contagia, a felicidade é verdadeira, não existe o sentido figurado. Acredito que se observarmos bem, nós, os ditos normais, precisamos dessa parte da genética autista para sermos melhores.

 

Foto: Arquivo Pessoal.

Professora Suely Alves oliveira com os filhos Otávio e Caio

Suely Alves Oliveira, 42 anos, guanambiense, Professora, mãe do Otávio e do Caio.

 

“O diagnóstico (do Autismo) é apenas o ponto de partida de uma luta constante, diária e sem folga”

 

JORNAL DO SUDOESTE – Como a senhora descobriu o Autismo dos seus filhos? Que idades eles tinham?
SUELY ALVES OLIVEIRA – Meu filho mais velho tinha 8 anos quando recebi o diagnóstico de Autismo. O mais novo, aos 3 anos de idade.

JS – Atualmente, qual a idade deles?
SUELY ALVES OLIVEIRA- Um tem 16 e o outro 9.

JS – No convívio social, você já passou por alguma situação desconfortável e de preconceito com os seus filhos?
SUELY ALVES OLIVEIRA – Infelizmente, algumas vezes fomos hostilizados com olhares oblíquos, falas preconceituosas e inconvenientes, palavras raivosas e agressão física sofrida pelo meu filho mais velho.

JS – Como se sentiu nestas ocasiões?
SUELY ALVES OLIVEIRA – Eu, a princípio, e longe deles, choro, mas depois encho-me de coragem e, educadamente, explico. Se entenderem, bem, caso contrário, não tenho vergonha alguma de fazer barulho, de mencionar que conheço a Lei, de prosseguir até onde for necessário para que os direitos dos meus filhos sejam preservados. Eles não serão guardados, trancados em casa para evitar olhares e comentários maldosos de quem não conhece minha luta. Até meu último suspiro, garantirei a eles o direito do respeito à dignidade humana de forma pacífica ou através da Lei.

JS – Como está sendo a experiência dos seus filhos na Escola? Quais foram as dificuldades encontradas nesse sentido e como lida com elas?
SUELY ALVES OLIVEIRA – Foram muitas as Escolas na Bahia e em Minas Gerais que vivenciamos as falsas promessas de inclusão escolar. Graças a Deus, apesar de toda a dificuldade de socialização, inclusão idílica e muito preconceito, hoje Otavio, aos 16 anos, é universitário. Escolheu o curso de Matemática e, sem cotas, faz Uneb [Universidade do Estado da Bahia] na cidade de Caetité. O pequeno faz 4º ano do (Ensino) Fundamental I, em um colégio particular cuja proposta de inclusão é mais evidenciada e acolhedora.

 

“O Autismo me ensinou a ser mais tolerante, humana e corajosa. Mil vezes eu pudesse, os escolheria como minha vida, minha razão, meu sonho encantado de uma existência feliz”.

 

JS – Como seus filhos estão desde o diagnóstico? Como está sendo conduzido o tratamento deles?
SUELY ALVES OLIVEIRA – O diagnóstico é apenas o ponto de partida de uma luta constante, diária e sem folga. O desenvolvimento de cada habilidade depende de um bom acompanhamento profissional multidisciplinar, mas, sobretudo, do empenho da família em acompanhar, instruir, incentivar e recomeçar sempre. O tratamento, devido as suas particularidades e tempo indeterminado, tem um custo financeiro elevado e este fator, indubitavelmente, inviabiliza o processo completo de desenvolvimento cognitivo, físico e emocional. Meus filhos tem um bom acompanhamento, mas sei que não é uma realidade coletiva.

JS – Como é ser mãe de uma criança e um adolescente com Autismo?
SUELY ALVES OLIVEIRA – A maternidade foi o maior sonho da minha vida. Os meus filhos foram sonhados, desejados e seriam amados independentemente de como chegariam. O Autismo me ensinou a ser mais tolerante, humana e corajosa. Mil vezes eu pudesse, os escolheria como minha vida, minha razão, meu sonho encantado de uma existência feliz. Eu os amo infinitamente.

JS – Por fim, que recado a senhora poderia ou gostaria de deixar para outras mães ou pais de pessoas com Autismo?
SUELY ALVES OLIVEIRA – Que embora o Autismo, inicialmente, pareça um abismo, creiam que o amor incondicional é a melhor maneira de lidar com seu filho. Que não haverá nenhum remédio, médico ou terapia que substitua sua presença. Que não tente molda-los à luz de teorias e devaneios alheios, que leia, estude, persista, mas, aceite que cada autista é único, que não existe formula magica e que seu amor será indispensável para percorrer uma caminhada que será longa, cansativa e, muitas vezes, solitária.

JS – A senhora gostaria de acrescentar mais alguma coisa?
SUELY ALVES OLIVEIRA – Por fim, como mãe e Professora, posso assegurar que depois do susto, do luto inicial, devemos nos encher de coragem para garantir aos nossos filhos e alunos o que a legislação nos oferta através da Lei Berenice Piana [Lei Federal 12.764/12, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista]. No tocante aos aspectos social e afetivo, acreditemos que a sociedade se expande no intuito de respeitar, acolher e refletir sobre o Autismo e suas implicações. Portanto, não tenham vergonha de ter um filho autista, aproveite a oportunidade de uma maternidade especial e aprenda a multiplicar o amor e disseminá-lo em forma de combate ao preconceito, nossa barreira real.

 

 

Pedagoga Daniela Assis Teixeira Aguiar com o filho Artur

Foto: Arquivo Pessoal.

 

Daniela Assis Teixeira Aguiar, 36 anos, guanambiense, Pedagoga, especialista em Educação Especial Inclusiva e concluinte do curso de Acompanhante Terapêutico, mãe do Artur.

 

“É transformador cuidar de um autista. Ver cada vitória alcançada com muito esforço é compensador”

 

JORNAL DO SUDOESTE – Como a senhora descobriu o Autismo do seu filho? Qual idade ele tinha?
DANIELA ASSIS TEIXEIRA AGUIAR – Descobri o Autismo em Artur desde muito cedo, antes dele completar dois anos. Foi um dia muito marcante porque eu já suspeitava de algo, pela ausência da fala, de gestos; pela falta de interesse e pela falta de interação social. Naquele dia, ele estava diante de um espelho enorme que ficava grudado na parede, e por ali ficou horas, olhando, parado, desconectado. Chamei pelo seu nome diversas vezes e ele me ignorou. Naquele momento, eu me assustei porque sabia que ele ouvia bem. Ele não podia ouvir nenhuma música na televisão que ia correndo para ver. Então não tinha problema auditivo. Afinal, o que era que meu filho tinha que estava sempre tão distante? O diagnóstico só foi fechado depois de mais um tempo por falta de conhecimento de alguns profissionais que procurei.

JS – Atualmente, qual a idade dele?
DANIELA ASSIS TEIXEIRA AGUIAR – Bom, hoje Artur está com 9 anos.

JS – No convívio social, a senhora já passou por alguma situação desconfortável e de preconceito com o seu filho? Como se sentiu na ocasião?
DANIELA ASSIS TEIXEIRA AGUIAR – No convívio social o Autismo é mais evidente, sem dúvida, devido a sua exposição. O comportamento muda em alguns lugares por vários fatores, entre eles ambientes cheios de gente, com mais barulho, com cheiros mais fortes, enfim, tivemos algumas situações desagradáveis como os “velhos olhares tortos”. Mas, para ser mais clara, passamos por um episódio um tanto desagradável há um tempo atrás. Estávamos em num supermercado fazendo feira, eu e Artur. Ele sempre me acompanhando, do meu lado, quando de repente decidiu sair correndo, sem rumo mesmo. E eu fui correndo atrás. Por aqueles segundos, porque foi muito rápido, pude perceber o olhar de um senhor reprovando aquele comportamento. Mas foi rápido, logo contive a situação e fui para o caixa pagar minha feira. Entrei na fila e Artur agitado, querendo soltar minhas mãos, sacudiu o corpo e esbarrou numa pessoa que estava atrás da gente, e para nosso azar ou dele, era bem o senhorzinho que fez “cara feia” um pouquinho antes. E ele começou a julgar e falar grosserias do tipo “menino, você não acha que está bem grandinho para se comportar assim não?”. Eu simplesmente respirei o mais fundo que pude quando ouvi aquela frase com aquele semblante fechado, me acalmei e disse “Senhor, desculpe se ele te machucou. Trata-se de uma criança autista severa que não tem a menor noção de espaço. Posso te garantir que ele não teve a intenção de te machucar. Ele não é uma criança mal educada, tá?”. A reação dele foi de muita surpresa. Ficou boquiaberto, não sabia onde enfiar a cara de tanto constrangimento, assim eu percebi. Me pediu desculpas pela falta de sensibilidade e por fim me falou que não parecia ser Autismo. Foi quando eu virei para ele e disse que Autismo não tem cara.

JS – Como está sendo a experiência do seu filho na Escola? Quais foram as dificuldades encontradas nesse sentido e como lida com elas?
DANIELA ASSIS TEIXEIRA AGUIAR – Sobre a Escola, costumo dizer que é o maior desafio que toda família e criança do Transtorno do Espectro Autista enfrentam, porque eles passam a maior parte do dia nesse ambiente que infelizmente não são acessíveis. A realidade é essa mesmo. As Instituições de Ensino não estão preparadas nem adaptas para receberem alunos com qualquer especificidade por várias razões. Faltam profissionais capacitados na rede para se fazer de fato o processo de inclusão. Falta boa vontade de insistir e integrar alunos nas classes. Enfim, falta empatia e compaixão.

“Me formei em pedagogia, pós graduada em educação especial inclusa e terminando um curso de acompanhante terapêutico, mas não trabalho, sou apenas mãe! Apenas não, exclusivamente mãe de Artur! Os cursos foram a nível de conhecimento e experiência”.

 

JS – Como seu filho está desde o diagnóstico? Como está sendo conduzido o tratamento dele?
DANIELA ASSIS TEIXEIRA AGUIAR – Do diagnóstico até hoje tivemos várias evoluções. E precisamos alcançar muito mais. O Autismo é ainda uma incógnita. Uma verdadeira caixinha de surpresas, nunca sabemos até onde podemos avançar. Mas, com cautela, estamos sempre atrás do sucesso, caminhamos muito por uma qualidade de vida.

JS – Como é ser mãe de uma pessoa com Autismo?
DANIELA ASSIS TEIXEIRA AGUIAR – Ser mãe de autista não é fácil, não é mesmo. Exige da gente uma entrega total, pura doação. O caminho é árduo, cansativo e em algum momento da vida nos angustiamos muito. Sim, ter filhos dá trabalho, e filhos autistas mais ainda. Mas nem sempre é tão difícil quando se faz por amor.

JS – Por fim, que recado você poderia deixar para outras mães de pessoas diagnosticadas com Autismo?
DANIELA ASSIS TEIXEIRA AGUIAR – Posso dizer com todo meu coração e experiência para as mamães, papais e cuidadores de pessoas com Autismo: vocês precisam se cuidar! Precisam estar bem com vocês mesmos, porque só assim poderão dar o seu melhor.

JS – Gostaria de acrescentar alguma coisa?
DANIELA ASSIS TEIXEIRA AGUIAR – É transformador cuidar de um autista. Ver cada vitória alcançada com muito esforço é compensador. E saber que você fez parte daquele progresso é gratificante. Por isso, optei na minha vida por cuidar exclusivamente de Artur, faço questão de estar ao seu lado, ajudando em cada dificuldade, aplaudindo cada evolução. E isso sem sobra de dúvidas, me faz ser um ser humano melhor!

 

 

“Conviver com TEA é ver o mundo por duas óticas: amor e paciência”, diz psicopedagoga Viviane da Silva Araújo

 

Por Gisele Costa

 

Psicopedagoga Viviane da Silva Araújo. Foto: Arquivo Pessoal.

Falar sobre Autismo é entrar num campo vasto cheio de perguntas sem respostas. O transtorno, marcado por um comprometimento sério na capacidade que a pessoa tem de se relacionar com os outros, é visto como um enigma ainda por médicos e especialistas das mais variadas áreas. Para os pais, então, o Autismo é mais que isso, é um mundo desconhecido que se abre e do qual não se sai nunca mais. O Autismo não tem cura porque não é uma doença, é um jeito de ser, um modo de viver, como explica a Psicopedagoga com especialização em psicopedagogia com Ênfase em Educação Especial e Inclusiva, guanambiense Viviane da Silva Araújo, com a experiência de quem atua na Coordenação Pedagógica e convive diuturnamente com os desafios da inclusão de alunos especiais da Educação Básica, na rede pública de Ensino em Brumado. Nesta entrevista, ela ressalta a importância de se ter um olhar delicado sobre esse problema tão complexo e sobre como lidar com a singularidade do autista na família, na Escola, na sociedade.

Confira os principais trechos da entrevista:

 

JORNAL DO SUDOESTE – Em linhas gerais, o que significa ter o Transtorno do Espectro Autista (TEA)?
VIVIANE DA SILVA ARAÚJO – O Transtorno do Espectro Autista é um transtorno do neurodesenvolvimento infantil, sendo caracterizado pela dificuldade de interação social, comportamentos repetitivos, padrões restritos de interesses e alguns casos ainda podem apresentar também a sensibilidade sensorial. Muitas vezes esses comportamentos se manifestam em interesse focado em um determinado assunto, como por exemplo, atração excessiva por objetos que rodam e fazer movimentos corporais estereotipados.

 

JS – É possível indicar quais as causas do TEA?
VIVIANE DA SILVA ARAÚJO – Atualmente existem inúmeras pesquisas que buscam responder a causa do Transtorno do Espectro Autista, inclusive é uma das principais perguntas que os pais fazem ao receber o diagnóstico. Porém a única resposta que se tem até o momento é de que não há uma única causa de Autismo. O que essas pesquisas sugerem é que o Autismo se desenvolve a partir de uma combinação de influências genéticas e não genéticas, ou ambientais. Vale ressaltar que nenhuma destas indicações serve como requisito necessário para uma possível causa. Uma vez que essas influências parecem aumentar o risco de uma criança desenvolver o distúrbio. No entanto, é importante ter em mente que o aumento do risco não é a mesma coisa. Por exemplo, algumas alterações genéticas associadas ao Autismo também podem ser encontradas em pessoas que não têm Autismo. Da mesma forma, nem todos expostos a um fator de risco ambiental para o Autismo desenvolvem o transtorno. Na verdade, a maioria não.

 

JS – Quais são os primeiros sinais do Transtorno? Quando os pais ou cuidadores devem procurar ajuda profissional?
VIVIANE DA SILVA ARAÚJO – Os sinais surgem a partir dos 3 primeiros anos de vida da criança, os pais ou cuidadores precisam estar atentos ao desenvolvimento da criança, pois o quanto mais cedo for diagnosticado é melhor para a família e para a criança. É importante que se observe alguns sinais como: a baixa tolerância a frustrações, se a criança tem a iniciativa de procurar alguém quando necessita de algo, o atraso para andar ou atraso no desenvolvimento da linguagem verbal e não verbal (não apontar, não responder a sorrisos, demorar para balbuciar e falar, ou regressão de linguagem), sensibilidade a barulho, dificuldade em manter contato visual, ausência de resposta clara ao ser chamado pelo nome e a forma como a criança brinca (enfileirar brinquedos, rodopiar em torno de si mesmo, balançar o corpo). Quanto mais cedo a família e a Escola forem orientadas sobre o quadro da criança, melhor será sua inserção social e aquisição de autonomia. A intervenção precoce (que pode ocorrer mesmo antes do diagnóstico conclusivo) visa estimular as potencialidades e auxiliar no desenvolvimento de formas adaptativas de comunicação e interação.

 

JS – Sabe-se que o TEA é um transtorno muito amplo e pode afetar pessoas em diferentes graus de comprometimento e de forma muito individualizada. Sendo assim, como tem se dado a inclusão das crianças com Autismo nas Escolas?
VIVIANE DA SILVA ARAÚJO – Como você disse é um transtorno que tem uma forma muito individualizada e varia muito de acordo com cada pessoa. No entanto, a inclusão das crianças com Autismo tem se dado de forma gradativa, claro que ainda temos casos de difícil adaptação ao ambiente escolar, visto que alguns têm sensibilidade ao barulho, à ambientes com aglomeração de pessoas e a dificuldade de interação. Mas, é algo que aos poucos podemos perceber os avanços, já é possível encontrarmos, por exemplo, um grande número de crianças com TEA frequentando a rede regular de Ensino.

 

JS – O que a senhora acha que falta ser feito para diminuir o preconceito sofrido por essas crianças dentro da Escola e no convívio social?
VIVIANE DA SILVA ARAÚJO – Eu penso que a questão do preconceito perpassa pela maneira como as pessoas lidam com o TEA, enxergando apenas as limitações da criança e não a grande capacidade que cada uma delas tem. Eu costumo dizer que o autista vive em um mundo só deles, e somos nós que precisamos adentrar esse mundo. Então é necessário esse movimento do Abril Azul e do dia 2 de abril ser o Dia Mundial de Conscientização, para que as pessoas possam ter conhecimento, respeito e compreender a igualdade do direito de todos. E só assim rompermos com essa visão limitada que ainda existe com relação ao Autismo. É importante ressaltar ainda, a necessidade de aumentar ainda mais o acesso de todos aos tratamentos especializados, para assim viabilizar a inserção dessas crianças nos diversos espaços da sociedade.

JS – Quais os tratamentos mais indicados para crianças diagnosticadas com o Transtorno e o quanto eles podem melhorar a qualidade de vida delas?
VIVIANE DA SILVA ARAÚJO – Após levantada a suspeita, encaminhar a criança para avaliação neurológica, psicológica e fonoaudiológica. Caso seja confirmada a hipótese de TEA, é importante seguir as recomendações dadas pelo profissional que forneceu o diagnóstico. E então buscar terapias nas áreas indicadas a contribuir com o caso. Psicoterapia, fonoaudiologia, psicopedagogia, terapia ocupacional, atividade física, musicoterapia, etc. Se necessário, a família deve ser encaminhada para orientação e acompanhamento psicológico. As estratégias, intervenções, procedimentos e técnicas que esses profissionais utilizam nas diversas áreas do desenvolvimento infantil, visa estimular a aquisição de novas habilidades e a minimização de comportamentos inadequados e improdutivos socialmente com essas crianças. Este trabalho de intervenção com Autismo depende completamente de uma atuação multidisciplinar, que será de suma importância para o desenvolvimento da criança, além de atuar também na orientação da família e cuidadores sobre como lidar com a criança nas atividades cotidianas, visando autonomia, comunicação, interação social e novos aprendizados. São abordagens úteis para melhores condições de vida dessas crianças.

 

JS – Como o desenvolvimento de interesses intensos e altamente focados em determinadas atividades, como música, arte, ou até coleções de objetos, características que têm sido identificadas em pessoas com Autismo, podem favorecer o seu bem estar?
VIVIANE DA SILVA ARAÚJO – Pessoas com Autismo pode desenvolver grandes habilidades em algumas áreas, então é interessante canalizar essas habilidades para a atividades que mais os chama a atenção. O trabalho nessa perspectiva proporciona ao autista uma satisfação pessoal, a busca de tais interesses é fundamental para seu bem-estar e desenvolvimento pessoal.

 

“(Os autistas são) Tão inteligentes que chegam a ser confundidos com gênios, conseguem se desenvolver em nível bem elevado nas áreas que despertam maior interesse”.

 

JS – Existe tratamento pelo SUS ou algum serviço público de Saúde para as pessoas com Autismo?
VIVIANE DA SILVA ARAÚJO – Sim, atualmente a aprovação da Lei Brasileira de Inclusão LBI 2015 – trouxe a obrigatoriedade do atendimento as necessidades de tratamento da pessoa com deficiência em todos os níveis de complexidade. O Artigo 18 da LBI diz que: “É assegurada Atenção Integral à Saúde da pessoa com deficiência em todos os níveis de complexidade, por intermédio do SUS, garantindo acesso universal e igualitário”. Desse modo temos visto que o poder público tem tentado se organizar para cumprir as exigências e assegurar os direitos. É claro que ainda falta muita coisa para de fato alcançarmos o esperado e isso perpassa por questões como a falta de profissionais com formação para determinadas áreas que são importantes no tratamento. Mas, grande parte das terapias essenciais para o tratamento e acompanhamento da pessoa com TEA já estão sendo disponibilizados pelo SUS.

 

JS – Quais estratégias a senhora conhece que professores podem usar para ajudar na inclusão de crianças autistas na sala de aula?
VIVIANE DA SILVA ARAÚJO – Primeiro que, para promover a inclusão do aluno com TEA o professor não precisa ser um especialista na área, mas, é necessário que ele enxergue o aluno dentro da sua individualidade. Os alunos autistas respondem bem aos sistemas organizados e adaptam-se bem a rotinas. O professor deve organizar a sala de aula para efetivamente conseguir um ambiente que atraia a sua atenção, realizando atividades nas áreas que eles despertam maior interesse. Os materiais deverão ser claramente marcados ou organizados dentro do nível de compreensão do aluno, a utilização de figuras, códigos de cores, símbolos numéricos, retratos, podem ajudar o aluno a marcar, buscar ou guardar os materiais de forma independente. A realização de atividades recreativas que o envolva o aluno com os demais da classe tende a desenvolver a autonomia e interação com os demais alunos.

 

JS – Em casos mais graves, em autistas não-verbais, por exemplo, é possível que eles frequentem Escolas regulares? Ou é mais indicado instituições especializadas?
VIVIANE DA SILVA ARAÚJO – Eu sou uma defensora ferrenha da inclusão dos alunos com deficiência em classes regulares de Ensino (risos). E mesmo o autista não-verbal tem a possibilidade de ser incluído na Escola regular, pois o autista aprende muito por meio da imitação e a interação com outras crianças que falam e realizam diversos tipos de atividades é importante para seu desenvolvimento. Essa inclusão traz benefício a todos, pois podem desenvolver solidariedade, respeito às diferenças e cooperação uns para com os outros. A Escola Especial como substituta da Escola comum não é uma opção válida, pois, parte-se do pressuposto que a Escola Especial acaba por segregar o indivíduo, tirando-lhes a possibilidade de conviver com os demais, sabendo que as Escolas Especiais devem ter o atendimento concomitante ao Ensino das classes comuns, é muito mais do que a soma das carências das Escolas comuns. Falta-lhes o primordial das Escolas, isto é, o ambiente apropriado de formação do cidadão. É necessário o relacionamento social das crianças com toda gama da diversidade vivida pela Escola, para assim, então, saber viver e conviver com a diferença.

 

JS – Pessoas com TEA podem apresentar desempenho acima da média em determinadas áreas do conhecimento? Se sim, em quais casos é possível que isso ocorra e por quê?
VIVIANE DA SILVA ARAÚJO – Sim podem apresentar. O Autismo de alto desempenho (também chamado de Síndrome de Asperger) – apresenta as mesmas dificuldades dos outros autistas, mas numa medida bem reduzida. São verbais e inteligentes. Tão inteligentes que chegam a ser confundidos com gênios, conseguem se desenvolver em nível bem elevado nas áreas que despertam maior interesse. Dentre esses casos temos diversos exemplos de pessoas famosas como Bill Gates, Vicent Van Gogh, Albert Einstein, Isaac Newton, dentre outros. Quanto menor a dificuldade de interação social, mais eles conseguem levar vida próxima à normal.

 

JS – Gostaria de acrescentar alguma coisa?
VIVIANE DA SILVA ARAÚJO – Eu quero encerrar dizendo o quanto é importante esse despertar para conscientização sobre o Autismo, para que a sociedade de modo geral posso entender e respeitar os direitos da pessoa com TEA. Chamar atenção para a importância do diagnóstico precoce, pois é a melhor maneira de proporcionar a essas crianças mais qualidade de vida. E dizer o que eu sempre digo para pais, professores e pessoas envolvidas com o autista, conviver com TEA é ver o mundo por duas óticas: Amor e Paciência. Assim conseguiremos de fato contribuir para sua real inserção na sociedade.

 

Foto de Capa: Lucas Lima/Produção: Lucas Lima, Nora Ney e Maisa Pimentel.

Jornal do Sudoeste