Resumo da trajetória de Marighella

“Cuidado, que o  Marighella é valente”, alertou  Cecil Borer , diretor do Dops carioca, antes de despachar uma equipe para capturá-lo em seguida ao golpe militar de 1964. Carlos Marighella é um dos nomes mais conhecidos do período de guerrilha comunista no Brasil, durante o Regime Militar.

A VIDA DE Carlos Marighella (1911-1969) foi tão frenética quanto surpreendente. Militante Comunista desde a juventude, e posterior filiação no PCB,  deputado federal constituinte e fundador do maior grupo armado de oposição à ditadura militar  – a Ação Libertadora Nacional – esse mulato de Salvador era também profícuo poeta, homem irreverente e brincalhão. (Mário Magalhães)

Nascido em 05/12/ 1911, Carlos  Marighella nasceu na Bahia (Salvador) ,  filho de Maria Rita dos  Santos, nascida em 1888,  empregada doméstica em casa de franceses,  apaixonou-se pelo imigrante italiano, ferreiro  Augusto Marighella, posteriormente exerceu outras profissões e por último se estabeleceu  com oficina mecânica.

O Casal Maria Rita Marighella e Augusto Marighella teve os seguintes filhos: Carlos Marighela, Agostinho,  Humberto e Caetano, as femininas Anita, Julieta, Edwiges (Duizinha’) e Tereza. Os filhos assinavam apenas  o sobrenome Marighella do pai, era uma tradição familiar da Itália.

Frequentou Ginásio da Bahia e ingressou na Escola Politênica da Bahia. Sofreu perseguição política do interventor da Bahia, Juracy Magalhães,  alvo do poema que o criticava e teve  participação na  militância estudantil. Viveu toda a sua infância até o começo da vida adulta na Bahia.

Aos 18 anos (1929)  de idade,  iniciou seu curso de Engenharia Civil na Escola Politécnica da Bahia. Ficou famoso com a dissertação em uma prova de física, com respostas  em versos, em 29 de agosto de 1929.

Nesse mesmo ano  começou sua luta política e social  no Partido Comunista. Aderiu à  Juventude Comunista do Brasil e depois ao PCB. Serviu  o Tiro de Guerra,  onde aprendeu o manuseio das armas curtas e longas. Ainda universitário dedilhava o bandolim de Anita. Baiano da gema,  aprendeu capoeira-angola,   rasteiras, rabos de arraia,  era fascinado pelo Carnaval e fanático  torcedor do Vitória, o time de seu coração.

  Compor era a sua distração, curtia os poetas Antonio de Castro Alves e Gregório de Matos. No pleito de 1959, compôs um frevo engraçado sobre  CACARECO, o rinoceronte campeão de votos numa eleição em São Paulo. : O Cacareco – pois é/Não tem rival – pois é /Dançando Samba – pois é/ No Carnaval […].

Carlos Marighella,  teve uma vida de  luta sendo  um dos maiores combatentes que o Brasil já teve. Marighella teve sua primeira prisão em 1932,  após escrever e divulgar um poema com  fortes crítica  a Juracy Magalhães, militar e político interventor da Bahia, nomeado pelo presidente  Getúlio Vargas.

Em 1936,  Marighella resolveu  ir para São Paulo, com o objetivo de reorganizar o Partido Comunista. No período de 1937/1939 o Partido estava com uma estrutura frágil e combalida, principalmente após os atos da Intentona Comunista, realizada em 1935 contra o Governo de Getúlio Vargas. No ano de 1936,  Carlos Marighella foi preso, sendo liberado no ano seguinte, por conta da anistia.

 Sua liberdade não significou que ele estava livre das perseguições de inimigos ligados ao governo. No  ano de 1937, Getúlio Vargas deu o golpe que originou o Estado Novo. A partir daí, o Partido Comunista se tornou clandestino. Em 1939, novamente Marighella foi preso pelas forças armadas e, dessa vez, levado para Fernando de Noronha onde  cumpriu pena até 1942.  Permaneceu no presídio por três anos, dividindo tarefas dentro da prisão, antes de ser transferido em 1944 para Ilha Grande, no litoral fluminense, uma vez que o presídio em Fernando de Noronha se tornou base de apoio de operações militares.

Carlos Marighella era uma figura muito controversa, dividindo opiniões não só entre seus inimigos de direita, mas também entre a esquerda política, já que nem todos eram favoráveis as suas propostas políticas.

Em 1943, militantes comunistas carregam o  retrato do ditador Getúlio Vargas em manifestação na Bahia contra o nazifascismo.

Em 1945, com o começo do período da redemocratização do País, Marighella foi eleito deputado federal pelo PCB. No entanto, o partido logo se viu em uma situação ilegal por causa da Guerra Fria e pela perseguição  de Eurico Gaspar Dutra, militar e presidente do Brasil. No  período de  1946 até 1951,   eliminou mais de 55 comunistas, superando os do  governo Getúlio Vargas.

Marighella e todos os comunistas foram perseguidos ferozmente, sendo que em 1948 os mandatos dos parlamentares comunistas eleitos,  foram totalmente caçados. Porém, Marighella seguia com sua luta e transmitia seus ideais desde 1947,  através da  revista Problemas,  edição mensal,  cultural  e política do PCB,   da qual foi diretor e escrevia os editoriais. A engrenagem do anticomunismo se manteve  viva com a participação da Igreja.

Conheceu Elza em um baile de Carnaval, por quem se apaixonou. Em 22/05/1948, nasceu o seu primeiro filho, com morena  Elza Sento Sé, batizado com o nome  de Carlos Augusto Marighella.  Em 1956 foi para o RJ e ficou sob os cuidados da avó materna  com o objetivo de conhecer e ficar  com o pai, mas como a clandestinidade durou até 1957,  só no ano seguinte , o menino foi morar com o pai e Clara, a segunda mulher de Marighella.

Apaixonou-se pela aeromoça comunista Clara Charf, denominada  por ele como “branquinha arrumadinha” e o   amor foi  correspondido.  Se tratavam  intimamente como Lobinho e Chapeuzinho. O pai de origem russa resistia ao namoro deles e explodiu: “Você não pode namorar esse homem: ele é preto, vermelho e não Judeu”. Trouxe clara para o Recife onde ela contraiu pneumonia.  O pai tomou uma atitude radical destruiu as suas roupas e os documentos para que ela não fosse se encontrar com Marighella.

Em 4 de agosto de 1948 passaram a morar juntos no bairro do Méier. Uma década depois da fuga, superado o preconceito, se reuniram numa festa: Gdal e sua nova mulher, uma viúva cristã, Marighela e Clara.

O combatente atuou por um grande período, entre 1949 e 1954, na área sindical do PCB, porém, suas ideias eram consideradas muito esquerdistas para a direção partidária. Foi o único deputado eleito pelo PCB baiano.

A classe operária realizou duas campanhas em 1953. A primeira greve geral ficou conhecida como a “Greve dos Cem Mil”, com cobertura do jornal A Voz Operária.  João Saldanha  era o  interlocutor entre Marighella e os sindicalistas do PCB,   enquanto a outra foi a do “O petróleo é nosso”.  Comandou como membro do PCB/SP uma passeata contra o envio de tropas à Guerra da Coreia.

 Marighella foi à China,  entre 1953/1954   para observar e conhecer como operava o Comitê Comunista Chinês e também na Rússia, com objetivo de adquirir experiência revolucionária de um e  do outo país. As denúncias de Nikita  Khuroschév sobre os crimes de Stalin,  que o considerava com ídolo,  abalaram Marighela.  Quando retornou deparou-se com a notícia de que Clara estava presa.

Zilda Paulo em 1947 se inscreveu no PCB e se casou com o camarada João Batista Xavier Pereira e tiveram três filhos.  A militância a motivou se interessar pela política, que apesar do pouco estudo, se formou politicamente no partido. Diante da convivência e já separada do marido, se envolveu com Marighella e passaram a morar juntos. Ela dizia que sempre teve uma queda por ele. A  despeito da convivência com Zilda, ele não rompeu com Clara charf.

Em  novembro de 1957 se apresentou à Justiça, gordo e cabelos raspado para depor.

A partir de 1964, durante o regime militar, já era bem claro que Carlos Marighella era contrário aos ideais políticos e sociais do PCB,  na época  alegou  que o partido estava incentivando a revolução burguesa. Foi então que  resolveu cortar relações com o partido e seguir seu próprio caminho, adotando a teoria revolucionária de Che Guevara.

 Discursou em 1º. de abril na Cinelândia contra o golpe de 1964.  Em 9 de maio de 1964 foi baleado em um cinema, preso e solto em 31 de julho. Em 1967, fundou o Ação Libertadora Nacional (ALN), que se tornou a maior organização de guerrilha urbana no Brasil. A organização atuava em várias ações: sequestros, emboscadas e assaltos e  lançamento de bombas. Nesse mesmo ano participou da conferência de Olas (Organização  Latino-Americana de Solidariedade).

Destaque-se que a ditadura militar recebeu instruções da Cia – Central Intellligence Agency,  para orientar  seus membros sobre torturas, existia no país e, remunerados,  1104 funcionários americanos para essa função.

A Ação Libertadora Nacional (ALN) detinha teorias e discursos bem semelhantes com a esquerda revolucionária de toda América Latina na época. Sua maior visão era a criação de uma sociedade sem divisão de classes, inspirada nas ideologias marxista. O Grupo Tático Armada da ALN manifestou  a sua revolta contra o regime  na praça da Sé em 1º. de maio de 1968. Em 1969 houve vários assaltos a bancos: Unibanco, Caixa Econômica Estadual, Banco do Brasil, Banco Comercio e Indústria de São Paulo e Bradesco.

 Marighella divulgava suas ideias por meio de escritos panfletários sobre práticas de luta armada, além de críticas contundentes ao período político que o Brasil atravessava no período. Em 1968 a ALN promoveu assalto ao carro pagador do Ipeg – Instituto da Previdência do Estado da Guanabara. O comando da ALN e o VPR (Vanguarda Armada Revolucionária), em 1968,  mataram  o capitão americano Charles Chandler. Roubaram 2,6 milhões de  dólares de Ademar de Barros (Governador/SP),  que estavam em poder da sua amante. Os delatores, espiões e  dedos-duros da ALN eram eliminados.   A relação entre Marighella e o capitão Lamarca era tumultuada.

 O destaque era para o Manual do Guerrilheiro Urbano, obra de Marighella ,  conhecida pela esquerda de todo mundo e, até mesmo, por Jean-Paul Sartre.

No ano de 1968, a ALN atacou com diversas ações radicais,  assalto ao trem pagador da Estrada de Ferro Santos-Judiai entre outras ações audaciosas. influenciou  também o movimento estudantil.

 Durante a ditadura brasileira, os grupos de ideais esquerdistas foram perseguidos e reprimidos com ainda mais força. Marighella era o principal alvo dos militares, que espalharam cartazes de procurado com o retrato dele  em todo o país. Em novembro de 1968 a ditadura anuncia a caçada a Marighella.

Em 20 de novembro de 1968  o Ministro da Justiça, Luiz Antonio da Gama e Silva , discursou em São Paulo no quartel-general do II Exército,  declarou Marighella “inimigo público número um”.

 Em Manifesto de esclarecimento à população foi lido na emissoras  a seguinte nota:

“Atenção, muita atenção! Senhoras e Senhores: tomamos esta emissora para transmitir a todo o povo uma mensagem de Carlos Marighella. Brasileiros, queremos esclarecer a opinião pública que os últimos atentados contra as emissoras de TV são de responsabilidade do governo. O governo faz isso na tentativa de jogar o povo  contra os revolucionários. Deixamos bem claro que os nossos atos de sabotagem e terrorismo são voltados contra a ditadura e o imperialismo americano.

Em seguida o manifesto relatou os objetivos dos revolucionários:

01 – derrubar a ditadura militar, anula todos os seus atos desde 1964, formar um governo revolucionário do povo; 2 – Expulsar do país os norte-americanos, expropriar firmas, bens e propriedade deles e dos que com eles colaboram; 3 – expropriar os latifundiários, acabar com o latifúndio, transformar e melhorar as condições de vida dos operários, dos camponeses e das classes  médias, extinguindo ao mesmo tempo e definitivamente a política de aumento de impostos, dos preços e aluguéis ; 4 – acabar com a censura , instituir a liberdade impressa, de crítica e de organização; 5 – retirar o Brasil da condição de satélite da política externa dos
Estados Unidos e colocá-lo no plano mundial, como uma nação independente, e reatar ao mesmo tempo laços diplomáticos com Cuba e todos os demais países socialistas.” E prometeu:  “responderemos olho por olho, dente por dente”.

Em 1969, o  embaixador americano Charles Burke Elbrick foi sequestrado  pala ALN e  o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro), fato que motivou  a libertação de quinze  revolucionários, presos pelo regime militar.

Em 1965 o coronel Ferdinando de Carvalho, encarregado do IPM (Inquérito Policial Militar) 709, determinou a prisão incomunicável de Marighella. Em 23 de maio de 1966 o presidente Castelo Branco o atingiu com um decreto e no mesmo processo  o condenou com base na Lei de Segurança Nacional e a Justiça Militar o condenou à revelia a sete anos de reclusão na da de 6/6/66,  data foi encarada  como   supersticiosa .  O SNI – Serviço de Informação Nacional, implantado em junho de 1964, armazenava milhares  de páginas sobre Marighella.

  Morto em 04 de novembro de  1969 ao cair em uma emboscada aplicada pelo sistema de repressão de São Paulo.  Marighella trocou tiros com cerca de 30 policiais, comandados pelo delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury, após ter informações vazadas de suas estratégias e rotina por freis dominicanos que foram torturados para tal.  Fato ocorreu  na alameda Casa Branca,  onde se encontrava num fusca dos frades e foi fuzilado. Os policiais alteraram a cena do crime.   A Ação Libertadora Nacional ainda resistiu por mais uns anos, até se extinguir em 1974.

 Um poeta escreveu:  Um comunista atrevido/Que resistiu à prisão/ E mesmo a bala ferido/ Se defendeu sem ter medo/ Brigando como leão.

Editou livros, fanático por futebol, aprendeu capoeira de angola ,  participava de festas do  candomblé e  da seita era filho  de Oxóssi, curtia  samba, era fã de Luiz Gonzaga,  e  de cordel.  Cozinheiro, melhore o tempero,/sapeque pimenta,/prepare ragu, vatapá, camarão,/ moqueca de peixe,/ ostras frescas, vinagre, limão […] , além de leituras diversas,  eram suas predileções.

 “O país de uma nota só”:

Marighella

A passagem subiu,/o leite acabou,/ a criança morreu,/ o IPM prendeu,/ o Dops torturo,/ O deputado cedeu,/ a linha dura vetou, / o desemprego cresceu, / a carestia aumentou,/ o Nordeste encolheu,/ o país revelou […].

Poema a “Alma do samba”

Versos de Marighella

O Brasil é um vasto terreiro/ Das filhas de santo/Oguns, orixás…/ terreiro da festa/do Carnaval.

Poema Morena de Marighella

Lábios que eu beijo mordendo/como se fossem dois frutos/da mesma cor e sabor/dos frutos do Jamelão.

Fizeram parte da vida de Marighella além dos companheiros de partido e de movimentos de esquerda,  destaque-se   as seguintes pessoas: Fidel Castro, Getúlio Vargas, Che Guevara, Carlos Lacerda, Stalin, Luiz Carlos Prestes e Carlos Lamarca, escritores  Jorge Amado  e Graciliano Ramos, os pintores  Cândido Portinari e Joan Miró, os dramaturgos  Augusto Boal  e Dias Gomes, cineastas Glauber ?Rocha, kJean-Luc Godard e Luchino Visconti.

O PCB conquistou a legalidade de fato no governo de Juscelino Kubitschek.

Na sessão de 5 de dezembro de 2011, a Comissão de Anistia do Movimento da Justiça apresentou um perdão oficial de desculpas à família Marighella. “Em nome do Estado Brasileiro, lamentou pelos ”erros cometidos no passado” ao persegui-lo  e matá-lo.

Fontes de pesquisas:

Livro Biografia –   Marighella: O guerrilheiro que incendiou o Mundo, de Mário Magalhães  Cia das Letras , 2012;

Antônio Novais Torres

Antônio Novais Torres é comerciante aposentado, membro fundador da Academia de Letras e Artes de Brumado, membro do Conselho da Cidadania de Brumado, ex-membro do PMDB e PTB e membro do Conselho Editorial do Jornal do Sudoeste.
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