RETROFIT POLÍTICO

Já é impossível conviver com o universo político brasileiro que nos cerca. Ele está ultrapassado, detonado e merece ser deletado. Nossos indigníssimos representantes são limitados. Ignorantes à enésima potência. Pior: eleitos e eleitores parecem satisfeitos com essa circunscrição apequenada e rasteira. Já dizia Goethe: “Satisfazer-se com as limitações é miserável”.

 

Basta questionar: nas últimas 24 horas, quantos quasímodos políticos estamparam os veículos de comunicação? São tantos! Sobram bigodes indecorosos, panças descuidadas, ridículos cabelos avermelhados e toda sorte (ou seria azar?!) de discursos falseados. Ninguém aguenta mais essas aberrações nacionais, sedimentadas em costumes e tradições tão seculares quanto vagabundas.

 

Em pleno século 21, a corrupção hedionda promovida pela famigerada indústria da seca no Nordeste rende matérias de capa em grandes jornais, mostrando que o coronelismo ainda vige em boa parte do país, convencendo milhares de ignorantes que até a água que lhes é fornecida à conta-gotas não passa de uma benesse, um favor, um ato de solidariedade de prefeitos, vereadores, deputados e governadores sensíveis à tragédia climática. Ninguém faz questão de dizer que aquela água é um direito dos cidadãos e um dever do Estado, previsto de forma inalienável na Constituição Federal. Ninguém os esclarece que a falta d’água não é apenas um desígnio do tempo e da geografia, mas um reflexo patente de reiterada roubalheira e ausência de investimentos sérios na região.

 

Nesse mesmo século 21, a maravilha da interatividade também serve à pilantragem política. Um sagaz cinegrafista do SBT conseguiu flagrar o deputado petista Cândido Vaccarezza (ex-líder do governo Dilma Rousseff na Câmara) atentando contra o decoro, a democracia e até contra a gramática, em mal traçadas linhas trocadas por SMS com governador peemedebista Sérgio Cabral, garantindo que o PT irá blindá-lo no lamaçal da CPMI do Cachoeira. “Você é nosso e nós é teu [sic]”, afiançou Vaccarezza ao mandatário do Rio de Janeiro, atolado até os lenços da cabeça nas cataratas de corrupção do bicheiro e da empreiteira Delta.

 

Não há nação que se sustente com dignidade com tanta bandalheira, hipocrisia e ladroagem. Nossos pilares estão rachados, prestes a desabar. Com urgência, precisamos de um retrofit. Em engenharia e arquitetura, esse termo define a modernização em larga escala de imóveis antigos, renovando por completo suas estruturas e preservando apenas suas qualidades. Em amplo aspecto é premente um retrofit político no Brasil, para o bem da democracia e da profilaxia.

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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