SOLSTÍCIO DE NATAL

Se alguém acha que essas comemorações de dezembro datam de apenas dois mil anos atrás e que todas as festas são pelo nascimento de Cristo, estão enganados. Essa época do ano é milenarmente celebrada e o advento da lenda do Natal foi estrategicamente inserido nesta data para concorrer e combater outras culturas e outros credos até então vigentes entre os povos antigos. Se Jesus Cristo nasceu ou de fato existiu e se o texto lhe parece herege, adianto minhas sinceras desculpas, nobre leitor. Quando nada, podes apenas lê-lo por aquisição de cultura inútil, falta do que fazer ou mesmo para atirar-me pedras. Mas neste último caso, faça antes uma leitura atenciosa e crítica e só depois mire seu estilingue, ok?!

Muito antes dos preceitos natalinos, os romanos celebravam a Saturnália nessa época do ano, um festival dedicado a Saturno, o deus da colheita. Eram dias animados, ninguém trabalhava, as ruas ficavam cheias, os escravos eram temporariamente libertados e as casas fartamente decoradas com folhas de louro. As pessoas se visitavam e levavam de presente pequenas esculturas de barro e velas de cera. Todos banqueteavam em mesas cheias, mesmo os menos favorecidos.

Antes dos romanos, os judeus, nesta mesma época, comemoravam o Festival das Luzes. Já os povos germânicos faziam um grande festival para celebrar o renascimento do sol e homenagear os grandes deuses da fertilidade Thor e Freyr, Wotan e Freyja. O fato mais decisivo, porém, viria no ano 274 d.C., quando Aureliano, imperador de Roma, estabeleceu o culto oficial ao deus-sol Mitras, declarando 25 de dezembro a data de seu nascimento e quando todos deveriam amplamente comemorar, em feriado nacional.

O culto a Mitras, o deus ariano da luz, se espalhou desde a Pérsia, passando pela Ásia Menor, Grécia, Roma e chegou às regiões germânicas e à Bretanha. Em todos esses locais, até hoje existem ruínas de santuários erguidos em homenagem ao deus-sol Mitras, evocando fertilidade, paz e vitórias. Mesmo depois que Constantino, o imperador seguinte, declarou o cristianismo como a religião oficial do império romano em 317 d.C., as evocações à luz e à fertilidade eram componentes importantes nas comemorações de fim de ano e não puderam ser totalmente suprimidas. Ainda que vistas como pagãs, tais manifestações ainda dominavam os povos e até mesmo o imperador.

Diante dessa primeira grande ameaça ao poder, a então jovem Igreja cristã, em 354 d.C., sob o comando do Papa Liberius, riscou do calendário oficial o nascimento de Mitras e decretou o dia 25 de dezembro como data do nascimento de Jesus Cristo. Uma atitude política e estratégica de grande inteligência e eficácia do Papa Liberius e, até os dias atuais, festejamos o Natal cristão.

Seja como for, a História nos mostra que esta época do ano sempre foi protocolarmente celebrada. Seja por povos antigos, pré-cristãos, seja por culturas advindas do cristianismo. Para todos, é um período festivo e onde devemos evocar a fertilidade, a felicidade e desejar a paz. Para nós e para os outros. É um tempo especial, cheio de encanto e onde devemos canalizar todas as boas energias, indiferentes à fé que professamos. É um tempo sagrado, seja por Jesus Cristo, seja por Mitras, pelas luzes, pela fertilidade ou pelo que de bom você possa desejar. Nessa crença de bons fluidos, agradeço pelo primeiro solstício de verão no Jornal do Sudoeste e rogo que possamos comemorar outros tantos. Portanto, de forma protocolar, desejo a todos os leitores baianos um Feliz Natal!

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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