Tumores palacianos

São medonhos os sinais enviados pelas instituições brasileiras. O Executivo ineficiente samba ao som de um (des) afinado (des) governo, refém do status ideológico retrógrado, outrora fantasiado por falsas plumas neoliberais. A dois passos da iniquidade paradisíaca, o Legislativo abandonou suas funções constitucionais e trava uma luta interna pela manutenção de regalias e mamatas. E o Judiciário chegou a surgir como salvador da pátria de chuteiras, mas sucumbiu ao togado rococó tautológico: supremas serpentes que pelo próprio rabo vão engolindo o corpo até desaparecer. Viver numa paródia de democracia é certeza de indigestão ética. Úlceras morais.

O julgamento da Ação Penal 470 – o famigerado Mensalão do governo Lula da Silva – pelo Supremo Tribunal Federal demonstra, com precisão cirúrgica, a dimensão da enfermidade que acomete nossas instituições. Uma quadrilha de profanadores da República desenvolve – ou se apropria, considerando a existência do “Mensalão Tucano”, cumbuca que ninguém ousa pôr as mãos – um esquema bilionário de corrupção, cuja essência era saquear os cofres públicos para engordar o “caixa dois” de partidos políticos e o “caixa um” de alguns aliados estratégicos – leia-se: bandidos engravatados e bravateiros – à administração de uma agremiação que, curiosamente, designou-se a “porção dos trabalhadores” no poder. Porciúncula, cumpre grifar.

Distando léguas do que possa ser crível, uma década depois da sucessão de escândalos que revelaram ao país a devassidão de um governo vermelho pseudopopular, a Justiça ainda não conseguiu concluir a dosimetria entre o que é real e está amparado sobre pilares de provas verossímeis, daquilo que brotou da alienação midiática, dos factoides que surgiram a reboque do portentoso conjunto probatório apresentado pelo Ministério Público. Cá com meus botões, flerto com as liberdades constitucionais: “data maxima venia”, ministros da Suprema Corte também apreciam novelas.

Vilipêndio à originalidade, como o Mensalão se tornou folhetim campeão de audiência, nada mais (in)justo que prolonga-lo indefinidamente. Não por acaso, um “eminente-nobre-preclaro-excelentíssimo-salve-salve” recém-empossado ministro propôs o cocuruto das excrescências: permitir que os advogados de onze réus – julgados, condenados, sentenciados e com embargos indeferidos – apresentem “Memoriais” pleiteando novo julgamento.

Tal ignomínia concede aos cidadãos brasileiros comuns o direito de conjecturar se o Supremo Tribunal Federal não estaria protelando o trânsito em julgado e o pedido de execução das sentenças para permitir a conclusão da obra milionária em curso no Complexo Penitenciário da Papuda, uma requintada “adequação” para abrigar os hóspedes que exigem pronomes nobiliárquicos.

A tentativa torpe de eternizar o julgamento do Mensalão acatando o “embargo-do-embargo-do-embargo” é, tão somente, sintoma de quão doentes estão nossas instituições. Sob o signo de uma democracia – ainda que imitação burlesca -, trata-se de doença crônica. Afinal, a Justiça pode até ser cega, mas em solo macunaímico, invariavelmente faz-se de besta.

O Brasil padece de um câncer institucional. Burocrático, pernicioso, chaguento, nauseabundo, infestado por parasitas de colarinhos brancos desqualificados moral e profissionalmente, lenitivos com corrupção que assola o país e da qual são, direta ou indiretamente, ilustres beneficiários. Medidas profiláticas, comprimidos de ruas sonâmbulas, discursos anti-inflamatórios e pactos inexequíveis já não servem para paliar a desgraça numa paródia de democracia. Os tumores palacianos estão matando a pátria. O Brasil precisa de quimioterapia.

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
Categorias