Uesb: Com a Palavra | A realidade dos atendimentos em saúde na pandemia

Por: Ascom UESB VCA

Salas de aula, laboratórios, auditório lotado, seminário para executar, trabalho para finalizar, atividade física, bate-papo no corredor para distrair. Esse era um cenário típico da vida compartilhada por estudantes e professores da Uesb, em um passado nada distante. Hospitais, enfermarias, centros e espaços de saúde com um intenso fluxo de estudantes de Medicina, Fisioterapia, Enfermagem, Psicologia, Farmácia e Odontologia, colocando em prática tudo que estavam aprendendo nas salas de aula. Até meados de março de 2020, essa era a realidade de Ana Luiza Santos Rocha Pinto, aluna de Medicina, no campus de Vitória da Conquista, de Gilberto Alves Dias, aluno de Fisioterapia, e da professora e enfermeira Daniela Márcia Neri Sampaio, ambos no campus de Jequié.

A discente Ana Luiza relata como ela e os colegas tinham acesso aos locais de saúde. “Antes da pandemia era tudo livre para a gente, não tinha nenhum impedimento em ficar nos ambientes do hospital. A gente estagiava no Hospital de Base, no Esaú, na Unidade de Saúde da Família, no Centro Universitário de Atenção à Saúde (Ceuas), ambulatório da própria Uesb, e, também, em outros serviços de saúde coletiva do município”, lembra.

Como professora da disciplina de Estágio Curricular Supervisionado, a enfermeira Daniela Márcia Neri conta em quais espaços as aulas aconteciam e qual público recebia os atendimentos dos alunos de Enfermagem. “Essa disciplina desenvolve todas as suas atividades dentro da Atenção Básica, no município de Jequié, com estágios presenciais dentro das Unidades de Saúde da Família, atendendo a diversos grupos populacionais, como criança, mulher, adulto, idoso, adolescente”, explica.

Quem poderia imaginar que os danos provocados pela pandemia iam durar tanto tempo e impactar as rotinas e os destinos de inúmeras pessoas? Gilberto Alves que, na época, estava cursando o 10° semestre e estagiando com os atendimentos em Fisioterapia, no Hospital Geral Prado Valadares, em Jequié, descreve sua aflição ao ver pacientes com outras doenças tendo as consultas suspensas. “Naquele momento, a gente tinha esperança que tudo ia se resolver de forma rápida. No entanto, isso não aconteceu e muitos dos pacientes que a gente acompanhava eram pacientes com doenças crônicas, desde cardiopatias a doenças renais, passando por doenças osteomusculares. A gente viu, sem o atendimento, esses pacientes piorarem o quadro de saúde”, relata.

O que mudou? – Ao encarar a dura realidade imposta pela pandemia de Covid-19, estudantes e professores das áreas da Saúde da Uesb criaram alternativas para se qualificarem, desenvolvendo estratégias que viabilizassem a volta dos atendimentos. Se o contexto pedia distanciamento social e as rotinas de estudo e atendimento precisavam acontecer de forma virtual, as telas dos computadores, notebooks e celulares ganharam mais significado e importância com a realização de webinários e teleconsultas.

“Dois dias na semana, nós tínhamos encontros com profissionais de diversas áreas, tanto da área da Atenção Primária como da área dos Hospitais, enfermeiros, médicos, fisioterapeutas, psicólogos. Então, tentamos trazer a realidade do webinário Webcovid, com a interdisciplinaridade do cuidado e de como isso afetou, diretamente, a vida desses profissionais”, explica Daniela.

Um grande passo dado pela turma de Gilberto foi aceitar as novidades e buscar conhecimento para continuar trabalhando com uma profissão que se caracteriza, essencialmente, pelo toque e contato nas pessoas. “Teve todo um processo de capacitação, de conhecer outros lugares que estavam tentando alternativas parecidas, outros profissionais e, realmente, capacitar e ter a coragem. Quando a gente viu que dava certo e funcionava muito bem, com bons resultados, então, conseguimos avançar muito”, conta.

Lidando com os desafios – Longe da família, dos amigos e dos colegas, Ana Luiza e Gilberto não imaginariam um curso tão desafiador. Passado um ano e meio do início da pandemia, o medo de contrair a doença, as incertezas e as adaptações da nova vida acadêmica colocaram os estudantes em situações inimagináveis. “Teve um dia que a gente estava no Hospital de Base, aí veio um pedido da Uesb para esvaziar os campos de estágio no mesmo momento. A gente saiu no meio, deixou as coisas tudo lá. Nesse primeiro momento, a gente ficou muito temeroso, não só por questões do ensino, mas pelo que estava acontecendo mesmo, era tudo muito incerto”, narrou a aluna de Medicina.

“Já tive pacientes que foram internados na UTI, faltando 15 dias para a colação de grau. Pacientes que eram mães de três filhos, com filhos menores que um ano de idade. Tive pacientes que eram pais de família. Enfim, eu tive pacientes que, acima de pacientes, como qualquer pessoa, são a história e o amor de outras pessoas. Eu vi esses pacientes avançarem de pneumonia viral, evoluírem para pneumonia bacteriana, eu vi os rins desses pacientes começarem a falhar, irem para a hemodiálise. E eu vi inúmeros desses pacientes irem a óbito“, menciona Gilberto, que após a conclusão do curso de Fisioterapia, passou a viver essa experiência, também, como residente do Programa Multiprofissional em Urgência e Emergência da Uesb. “Não tem como não se frustrar e não ficar triste, por mais que a gente saiba que não vai salvar todas as vidas”, completa.

Realidades distintas que se assemelham, nesse período de pandemia de Covid-19, com a de tantos outros alunos e professores dos cursos das áreas de Saúde da Uesb e de outras Universidades. O mundo segue espantado com o efeito devastador do coronavírus, que, além de causar uma crise sanitária, provocou o aumento da desigualdade em diferentes níveis: social, econômico, educacional e profissional.

Superação – Para superar o momento, cada um deles encontrou ou está em busca de respostas, aprendeu ou ensinou algo novo e desafiador, tanto para a vida pessoal quanto para a vida acadêmica. Agora, cursando o último ano de Medicina, Ana Luiza conta o que mais aprendeu com toda essa experiência. “O que ficou pra mim foi a importância que existe de a gente se colocar no lugar dos outros e pensar de forma coletiva, porque, mais do que nunca, eu percebi que a saúde, de uma forma geral, não é pessoal. Não adianta eu cuidar de mim e não me preocupar com o outro. E isso não é só com relação ao Covid, mas é em relação a tudo”, alerta.

A lição e o aprendizado que Gilberto vai levar são ensinamentos que todo cidadão, de qualquer área, deve valorizar. “Com certeza, a primeira coisa que fica é a valorização da vida. Mais do que nunca, a pandemia escancarou que a gente precisa viver as pequenas coisas da melhor forma possível. A gente não sabe até quando, principalmente agora, as pessoas que mais amamos vão estar com a gente”, lembra.

Cuidar de si e dos outros é o jeito que várias Anas, Gilbertos e Danielas encontraram para superar as adversidades e continuarem vivenciando os atendimentos em saúde. “A palavra que pode traduzir esse momento é realmente reinvenção. Nós precisamos aprender e nos reinventar a todo instante, porque vivemos num universo dinâmico e, por essa constante mudança que a gente vivencia, sem dúvida nenhuma, precisamos estar aptos e abertos a essas mudanças. Então, é nos reinventar”, finaliza a professora Daniela.

 

 

 

Foto de Capa: Acervo pessoal

Jornal do Sudoeste

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