UM ABRAÇO

Na realidade, hoje, uma terça-feira e de pé estamos desde as seis da matina, não é dia para escrevermos uma coluna porque a nossa rotina é contínua. Mas agora, já passando às 20 horas, com um frio que hoje realmente foi intenso, estamos a acompanhar o drama do desespero aéreo de um gigante dos ares com mais de 210 pessoas que sumiu nas profundezas do oceano. E nos fixamos na simplicidade de um gesto revelado por um parente de um dos passageiros. Ele se despediu do irmão e, pela primeira vez “o irmão, habituado a viajar, a se despedir, no domingo antes de entrar na aeronave, o abraçou se despedindo”… Ficamos a pensar como é a vida e a pensar numa afirmação dos antigos: “só peru morre na véspera; o ser humano morre sempre no mesmo dia, previamente marcado…”

E ficamos a pensar numa série de coisas. E então nos recordamos que em 1960, em plena atividade3 no “Jornal da Bahia” e acadêmico de medicina – sendo inclusive o Presidente do Diretório Acadêmico – fomos a um congresso da UNE, em Belo Horizonte. O evento aconteceu lá no Hospital Julia Kubitschek, com acesso pelo Barreiro de Cima ainda sem asfalto, uma terra vermelha sem fim… Mas nós chegamos a BH de avião. Um “Constelation” – parece da “Panair”. Terminado o congresso teríamos que retornar, mas a via Rio e Janeiro. Na hora marcada entramos novamente num de quatro motores ou turbinas. Só que após levantar vôo houve uma pane em uma turbina e o retorno ao aeroporto de BH. Nós nunca gostamos de avião e, ante o fato resolvemos então passar a passagem no dia seguinte para um cidadão que tinha pressa em chegar ao Rio de Janeiro. Colocamos o dinheiro no bolso e pegamos o ônibus “cometa” – que até hoje circula inclusive aqui em Itajubá.

E não sabemos as razões, mas o fato é que voltamos aos antanho (durante o tal congresso o Dr. Oliveiros Guanais foi eleito Presidente da UNE) então pensamos que talvez naquele dia de julho de 1960 não seria o dia que nem nós nem os outros passageiros deveríamos morrer. Mas conversando com um amigo muito enfronhado em visões, previsões, etc. eis que nos veio à mente que, será se todos os passageiros do avião que caiu há 740 quilômetros de Fernando de Noronha, em alto mar, estavam no dia de suas mortes? Ou um, apenas, tinha marcado e levou os demais? Lá na mesa do refeitório do hospital, um cético foi logo dizendo que isso de o dia de fulano ou cicrano não é lógico, não é científico e se sabe apenas, com 100% de acerto que um dia será sempre um dia em que se irá morrer. Mas ele, apesar de cético, fala até “baixinho por sinal” que pelo sim pelo não, não gosta de viajar de avião, em que pese às estatísticas que comprovam ser transporte dos mais seguros.

O fato é que ficamos impressionados com a frequência de acidentes aéreos, o que é explicado porque o número de vôos e pessoas que preferem avião cresce dia a dia no mundo atual. De qualquer maneira, sem mesmo nem sabermos um nome sequer dos mortos, andamos a esmiuçar preces para todos. E a lembrança da imagem daquele rapaz a dizer que o irmão nunca o havia abraçado quando se despedia nos ficará marcado.

Também ficará em nossa memória uma foto, feita por um fotografo da “Folha de São Paulo”, num momento de inspiração, quando ele registrou o jovem solitário sentado à porta da Igreja da Candelária, a chorar – e o texto diz copiosamente – pelos mortos do desastre aéreo que até o momento não se tem notícias de onde se encontra com todos os passageiros, total de 228 pessoas. E o homem não tinha nenhum parente, nem mesmo um amigo naquela aeronave! Nós não choramos, mas fizemos preces silenciosas com bastante emoção.

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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