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UM CARINHOSO ADEUS

Todos os desvãos do meu amado sertão catingueiro, aos quais rendo toda gratidão necessária, estão em completo e reverente silêncio. Garimpei as cercas de quiabento, trançadas qual espinha de peixe; fui ao pé do soberbo e imponente mandacaru; percorri as arenosas veredas e me quedei na sombra da copa da altaneira braúna, com seu verdor desafiante; rocei numa ressequida canela d’ema, cujos galhos mais parecem braços nus elevados aos céus, como que rogando a chuva redentora que lhe trará mimosas flores, bem como provoca a exuberante floração dos sete cascas, ali ao lado da safada cabeça de frade, com seus olhinhos vermelhos sempre convidativos a pensar; nós que somos, sempre, súditos da majestosa aroeira, obrigou-me abraçá-la respeitosamente.

Só quem já chupou imbu no pé ou escovou os dentes com folhas de juazeiro, conhece e ama este terno sol da minha catinga, agora frio como meu coração.

Agucei, bem, o ouvido e não escutei coquis, cardeais, canários, periquitos, joões-garrancho, sabiás, juritis, carcarás e gaviões, nem mesmo o agourento curiango soltava seu rouco piar. Até o incessante arrulho da fogo-pagou era funéreo, plangente e triste.

Vi passarem, em solidário bando, bodes, cabras, cabritos, carneiros, ovelhas e borregos, porcos, todos de cabeça baixa. Como era à noitinha nem mesmo as zoadentas galinhas buscavam seus galhos, deixando em baixo o garboso galo. As miunças como que respeitavam o calar da passarada.

Silentes e em total reverência, lá estavam vacas, bois, bezerros, jegues, burros e cavalos, cachorros e gatos.

Não me foi preciso chegar até o rio Brumado, em cujas margens brotou o pranteado e venerado varão que, bem mais tarde, exilou-se lá no Papagaio, ali às margens do enlutado asfalto por onde muito trafegou.

Pois é, meus queridos irmãos-catingueiros, um homem de inimitável honradez, pai de família exemplar, marido, filho, irmão, tio e amigo querido, resolveu palmear os caminhos da eternidade, deixando-nos órfãos inconsoláveis.

Quis a felicidade que ele se interpusesse no meu caminho, dando-me guarida em sua residência-namoro para cair nos braços de uma sua terna irmã, mãe extremosa de meus quatro filhos.

Despeço-me com o coração aos pedaços de Gildásio, Crispim ou Iô, com quem pude compartilhar honra e honestidade.

 

TÃOZITO.

B. Hte. (MG), 13/10/2016.   

Tiãozito Cardoso

Tiãozito Cardoso

Sebastião da Silva Cardoso (Tiãozito) é brumadense, radicado em Belo Horizonte (MG), servidor público aposentado, escritor é autor dos livros O Bom Izù, A Pisa e O Jegue Treiteiro
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