A bala

No Distrito ou vilarejo, de pouco mais que 1.500 habitantes, a população era desassistida, não possuía nenhuma assistência social, viviam praticamente isolados da civilização. A maioria dos habitantes era de trabalhadores rurais que vendiam o dia de trabalho para sobreviver. Não contavam com a devida proteção legal. Outros viviam de caçar e pescar para se alimentarem e, certamente, também os comercializavam. Os mais espertos tornaram-se comerciantes, abriram negócios para venda de vários produtos e bar para exploração de jogo e venda de bebidas, geralmente, a cachaça era a de maior consumo.

O lugar era praticamente deserto, mas no dia da feira semanal, havia muito movimento, não só do pessoal local, como os vindo das fazendas próximas. Neste dia encontrava-se muitas novidades, objetos trazidos pelos mascates e vendedores de diversas mercadorias alimentícias.

Uma moradora, do lugar, era casada com uma pessoa, analfabeta, que vivia de trabalhos na roça, para carpir, fazer goivara, e plantação para os bem aquinhoados. Caçava e pescava, tanto para a manutenção da família como para venda.

Era um homem honesto e trabalhador.  Moravam num casebre coberto de palha e chão batido.  Em sua casa nunca faltou a alimentação para a grande prole, vivia harmoniosamente, feliz e amava a todos familiares. Todos analfabetos, por falta de escola.

Certo dia, dia de feira, mandou um dos filhos comprar carne de sol para assar e agradar o marido e os filhos com essa iguaria, que eles adoravam.

Ocorre que alguém, supõe-se que foi o garoto que ajudava o vendedor, furou a carne e colocou uma bala (projétil) dentro. Enquanto a senhora assava a carne com um dos filhos escanchado na cacunda, houve um estampido e o menino teve o olho esquerdo atingido. Por falta de médico, não houve socorro, o que motivou a cegueira do menino.

O vendeiro foi responsabilizado pelo ocorrido, que por sua vez, acusou traquinagem do ajudante menor de idade. Não havia delegacia para se prestar uma queixa do fato e a justiça era de difícil acesso, principalmente, para o pobre que não tinha meios para mover um processo, através de um advogado.

Ficou o dito pelo não dito. O tratamento foi feito com medicamento caseiro, conhecido como mezinhas.

Foi assim que aconteceu.

Antônio Novais Torres

Antônio Novais Torres é comerciante aposentado, membro fundador da Academia de Letras e Artes de Brumado, membro do Conselho da Cidadania de Brumado, ex-membro do PMDB e PTB e membro do Conselho Editorial do Jornal do Sudoeste.
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