A bandalheira tomou conta

Onde o Brasil vai parar com tanta bandalheira? De que adianta ser reconhecido como uma potência mundial, um país riquíssimo, se o povo arrasta a bunda no chão da pobreza, aprova o famoso “jeitinho” e é sistematicamente roubado todos os dias sem qualquer pudor ou penalidade? Por que ficar se vangloriando por ter se tornado a 6ª maior economia do planeta, quando nos mantemos em posições obscenas em índices como desenvolvimento humano, educação e corrupção? Pior: somos campeões no quesito impunidade. Comemorar o que? Vamos brincar de ser “cidadãos” até quando?
Como muitos brasileiros sérios, tenho a real sensação de que a safadeza tomou conta. Vige no Brasil uma cultura medíocre de permissividade e cumplicidade com as sacanagens, com os ganhos ilegais, com tudo que é errado. Já se tornou uma constante acompanhar, todos os dias, denúncias de que alguém está fraudando alguma coisa para levar qualquer vantagem. A situação chegou a um ponto tão crítico que não há mais como apontar culpabilidades. Somos todos! Seja a padaria que frauda a tara da balança para ganhar uns centavos a mais no peso do pão; seja o laboratório que produz comprimidos de farinha; a empresa de telefonia que altera a minutagem das ligações; e tantas coisas mais. É isso que chancela, por exemplo, a existência e manutenção de políticos que roubam bilhões todos os anos dos cofres públicos. Somos todos culpados!
A última sacanagem que tomamos conhecimento vem dos postos de combustível e é algo que a maioria dos brasileiros que tem veículo automotor já desconfiava: somos roubados, roubados e roubados… de todos os lados! São os impostos surreais que incidem desde a compra nas fábricas e concessionárias, passando pelo anual IPVA que para nada serve, até o preço assombroso do combustível. Não bastasse tudo isso, no último domingo o programa “Fantástico”, da Rede Globo, trouxe como matéria principal a denúncia, assinada pelos repórteres Eduardo Faustini e André Luiz Azevedo, de que os postos de combustível estão utilizando um sofisticado equipamento nas bombas para roubar o consumidor. A fraude chega a lesar o cidadão em até 12% do que está sendo comprado.
Isso sem falar nos preços exorbitantes praticados e beneficiados pela formação de carteis nas cidades, na incidência vergonhosa de impostos e do desrespeito ao percentual legal de mistura de álcool na gasolina, que é de 21%. Em alguns casos, os postos estão colocando 70% de etanol e apenas 30% de gasolina. Isso representa um prejuízo de 19% no valor pago pelo consumidor. Em suma, se somarmos apenas essas fraudes que já conhecemos, a cada R$ 100 que gastamos nos portos de combustível, cerca de R$ 31 nos são roubados! E não há como reclamar ou questionar isso. As instâncias de fiscalização e controle (ANP – Agência Nacional do Petróleo; o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis; e afins) simplesmente não funcionam, não servem para nada!
Mas a pergunta que não quer calar é: por que a safadeza tomou conta do Brasil? Resposta simples: porque todos nós, para mais ou para menos, somos sacanas. E que vá para o inferno quem vier com aquele papinho chato e politicamente correto de que não é certo falar dessa ou daquela forma. Chega dessa idiotice! Eu sei que ler, ver ou ouvir verdades inconvenientes, em geral, é um processo doloroso. Mas não podemos fugir delas se queremos uma democracia plena, real e justa. Assim como somos os trabalhadores responsáveis pela ascensão do Brasil à 6ª economia do mundo, também somos os culpados pelo país ter se tornado o império e o celeiro da bandalheira. Deixo aqui minha provocação ao debate: e agora, o que devemos fazer?
Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
Categorias