À sombra de um tempo

Hoje, amanheci querendo viver um mundo que não existe mais. Um tempo que ficou guardado na memória, com canções que embalaram épocas, filmes que marcaram gerações e cenas que não vejo aqui. Faz saudade e sinto que neste mundo de imediatismo e globalização, as coisas mais intrínsecas ao ser humano vão ficando em segundo plano, e a habilidade especial de cada um sendo apenas um mero detalhe, não um diferencial.

As canções são a voz do passado, nos trazendo sensações e emoções de um tempo de urgências e necessidades. Não há mais o contágio da poesia diferente de um novo nome em nossa música popular. Às vezes penso que a fonte se secou, ou que a alma humana se esfacelou. Quando irei ouvir novamente um canto negro de Milton Nascimento reboando por todos os cantos da América? Ou mesmo dentro dos corações estudantes? Entendo que a nossa música popular ficou mais triste, enquanto muitos contam em casa o seu vil metal.

No cinema, as grandes produções seguem as grandes bilheterias, tendo um Oscar como prêmio principal. E os filmes inovadores, de beleza incontestável? Poucos, quase nada. Robert De Niro nunca mais foi o touro indomável dos primeiros anos, restritos às décadas de 70 e 80. Até hoje, seus primeiros filmes estão aí, revelando os gênios de De Niro e Scorsese. Enquanto isso, tantos filmes estão lá, e tão poucos cá! Infelizmente.

A arte é assim, reflete o seu tempo, o mundo que há cerca. É o espelho, o fundo da alma. Quanto mais perto dela, mais perto de Deus e da beleza original, como no renascimento, no impressionismo, no barroco e no florescer da aurora de nossos dias…   Ela é o pulsar do pensamento, dos questionamentos, das desilusões de um tempo, de uma era. O que a molda é a criatividade humana, essa que é aguada pelas nossas crenças, sonhos, valores, e a irremediável necessidade de nos aproximar de Deus, aquele que tudo toca e tudo transborda.

A vida é um recriar constante de nossos sonhos, de nossos anseios, um atestado diário de nossa existência. É preciso repensar o mundo e dar a ele um doce frescor de primavera, aquele que brilhou no renascer da idade média e iluminou o pensamento quando a escuridão acendeu a idéia.

É preciso paz para poder criar, é preciso leveza para deixar o pensamento abrir suas asas e nos resgatar das mesmices desse mundo tão pobre de poesia e tão igual. Sejamos nós um pouco mais ousados e um pouco menos comuns. Vivamos em nós o nosso outro lado, aquele voltado para as coisas do espírito, do coração, da alma, e que tanto nos faz bem e nos transforma…

Viver é uma fonte inesgotável de absurdos e excentricidades, não sejamos tão redundantes em nossa estéril compressão das coisas desse mundo – tão finito e tão cinza – em nossa limitação de um mundo pueril e apático. Sejamos mais manhãs do pensamento, mais noites de grandes estrelas em lua cheia. Façamos à hora, façamos acontecer, enquanto um mundo novo se explode em paixões pelos cabos que ligam o pensamento humano ao muito além daqui, tão virtual quanto plural, impregnado de sabias e vãs quimeras.  

A vida e o mundo nos esperam… Vamos dar a eles a nossa melhor e mais bela parte, aquela emoldurada pelas cores do mundo que um dia ainda iremos viver, enquanto o pintamos com poesia, sonhos, canções e uma porção de outras coisas mais…

Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor www.petroniosouzagoncalves.blogspot.com
Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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