Bananinha é morto

Hélio Gondim Caíres (Lió), idade presumível de 50 anos, originário da cidade de Tanhaçu, conhecido pelo apelido de Bananinha, apelido provavelmente colocado pela imaginação fértil da molecada que o atazanava. Faleceu de morte súbita, na sarjeta e em estado de indigência, nesta sexta-feira, cinco de dezembro de 2003, está enterrado no cemitério municipal Santa Inês como indigente.

            Tornou-se uma figura emblemática do folclore brumadense, que se incorporou ao cotidiano, há pelo menos 25 anos, onde mourejou ao deus-dará, sem um teto ou família, sem afetividade e sem amor, desprezado. Protagonizou uma vida de penúria e pobreza extrema, vivendo da mendicância, contando com a indulgência dos que se apiedavam do seu lastimável estado de profunda necessidade.

            Era portador de distúrbio mental, cujo processo resulta da incapacidade do indivíduo lidar com os conflitos gerados por sua própria mente associados à inadequação entre aquilo que ele é e o que pensa ou deseja ser, determinado pelo agente que se manifesta. Essa é uma definição da psicopatologia e que tem aceitação na doutrina espírita de que o homem é um ser pneumossomático, isto é, provido de espírito e corpo, ou psicossomático (alma-corpo). Assim é que Bananinha carregou a sua cruz, viveu o seu carma, o seu infortúnio com estoicismo até agonizar enfraquecido pelos maus tratos a que estava submetido pela condição de miserável.

            Conheci Bananinha no ano de 1980, quando aqui me estabeleci comercialmente, e ele passou a ser meu “cliente” assíduo, todos os dias aparecia invariavelmente no mesmo horário para receber o seu óbolo.

Calado, não fazia nenhum pedido, nenhuma súplica. De pé, especado em uma das pernas, uma mão no quadril e a outra a segurar um saco malcheiroso que conduzia às costas, cheio de bugigangas e apetrechos, resto de comida e carne estragada, aguardava silenciosa e calmamente a boa vontade do doador. Tinha a certeza de ser atendido.

 Muitos se apressavam a atendê-lo, não pelo espírito de solidariedade e caridade, mas para se virem livres do indigitado indivíduo que causava repulsa   pela sua situação.

 Os valores e juízos sobre o padecimento humano são contraditórios, assim como a maneira de vê-lo, senti-lo e de reagir à realidade. Esta não é aceita nem compreendida na forma mais cruel das desditas da humanidade.

            “Ainda que o dever da caridade aprove que nos condoamos do infeliz, todavia aquele que fraternalmente é misericordioso preferiria que nenhuma dor houvesse de que se compadecesse” (Santo Agostinho).

 Há de se registrar que almas abnegadas, compadecidas da sua situação, em gesto sublime de altruísmo, faziam ou mandavam fazer-lhe a higiene corporal e davam-lhe vestuário limpo. Além disso, insistiam para que ele ficasse em alojamento decente, com pouso e alimentação, entretanto tinha uma resistência em aceitar essa condição, pois preferia a liberdade das ruas.

            Certa feita, ele apareceu com os pés doentes, muito inchados e, como nunca me havia pedido nada, estranhei a sua solicitação de uma pomada para aliviar o seu sofrimento. Devia estar sofrendo muito para tal iniciativa. Comprei-lhe uma pomada indicada pelo dono da farmácia e, dias depois, ele voltou e procurou-me dizendo: “Ói, a pomada é boa…” estava completamente curado.

            Outra vez, confessou-me que ele era uma pessoa sadia e o que o fez ficar doente foi um arroz quente que comeu. Em outra oportunidade, abordou-me dizendo estar com fome, eram umas 13h e exalava forte odor de álcool.

Provavelmente, dormira bêbado e acordou faminto. Atendi-o mas, o repreendi, por ter bebido e, ele prometeu não mais beber cachaça.

 Há irresponsáveis, criminosos (a avaliação é essa) que se dispõe a vender bebida alcoólica a mendigos e doentes mentais, um despropósito da avareza.

            De vez em quando, abria-se comigo, que lhe dava atenção para ouvir conversas e casos desconexos. Nunca ouvi dele queixas da vida e da situação deplorável que levava. Parecia feliz e conformado, talvez pela falta do raciocínio, da razão.

            Um dia, Bananinha apareceu acompanhado de uma mulher da sua mesma condição, dizendo ser ela sua companheira. Incitado por pessoas de atitudes detestáveis, beijava-a na boca, causando hilaridade. Os incitadores não tinham respeito pelo ser humano, nem seriedade de propósitos. Utilizavam-no, como a um histrião, para escarnecer a ingenuidade da loucura e satisfazer as suas imbecilidades, com o infortúnio alheio.

            Bananinha foi vítima dos moleques de rua (de “boa” e má reputação) que o molestavam, inclusive alguns adultos inconvenientes, que movidos pelo instinto de maledicência, provocavam Bananinha. Bananinha era uma pessoa inofensiva, um indivíduo pacato, não violento, que só reagia quando era insultado.

            Certas pessoas, infundiam medo e terror nos filhos birrentos com as seguintes expressões: “Se não parar de chorar, chamo o Bananinha!”, “Olha, o Bananinha vem te pegar!”. “Vá tomar banho para não ficar igual à Bananinha!” e outras desse jaez. Portanto, o coitado foi terror da meninada que tinha verdadeiro pavor do mendigo a quem as pessoas, maliciosamente, imputavam medos e terror, para abrandar a teimosia dos meninos que tinham seus caprichos contrariados.

            Incomoda-me tanta desigualdade, uma dicotomia inadmissível, distância abissal entre a pobreza e a riqueza, a indigência e a abastança, entre a miséria e a opulência, enfim, entre os que têm e podem tudo e os que, infelizes e miseráveis, nada têm, desamparado sem nenhuma assistência social e ou de saúde pelo poder público.

 É preciso ter fé e acreditar que Deus é justo, onisciente e onipotente e dá glórias e inglórias a cada um, segundo o seu merecimento.

 É preciso crer piamente nos mistérios e desígnios ocultos do Criador, pois a natureza divina escapa à compreensão humana. Na verdade, todos nascem iguais e, na morte, também se igualam. Nada trazem, nada levam. Os bens materiais ficam para as disputas dos herdeiros. É preciso inspirar-se nos ensinamentos do Evangelho, praticando obras de caridade, respeitando e dignificando o seu semelhante, conforme ensinam as Escrituras Sagradas.

            Bananinha fez parte do convívio popular no contexto histórico-social de Brumado. Conviveu na comunidade enfrentando as adversidades impostas pela vida, sofrendo o estigma da esquizofrenia e, tratado pela sociedade com desdém.  Ele deixa o exemplo da humildade, da simplicidade que nos leva a uma grande reflexão sobre os valores da vida.

             O sargento Fagundes (Tiro de Guerra), a empresária Perinalva Dias da Silva (Pax Nacional) e todos que proporcionaram um enterro digno e decente a Bananinha, cujo velório se realizou na Associação São Sebastião (albergue), onde compareceram muitos cristãos que levaram a sua solidariedade. Certamente os que assim procederam imbuídos desse sentimento de solidariedade, terão a recompensa divina pelo ato de cristandade.

            Que a alma de Bananinha seja recebida na morada eterna do Senhor, para viver em espírito a magnificação e a glória que não viveu em matéria! Repousa em Paz, servo de Deus, para acordar na Ressurreição dos Mortos, na Consumação dos Séculos e resplendor do Paraíso Divino.

  Para se alcançar a Paz celestial e, a salvação da alma, é necessário observar os ensinamentos do Senhor Deus e de seu filho Jesus Cristo para obter Deles a misericórdia.

Antônio Novais Torres

Antônio Novais Torres é comerciante aposentado, membro fundador da Academia de Letras e Artes de Brumado, membro do Conselho da Cidadania de Brumado, ex-membro do PMDB e PTB e membro do Conselho Editorial do Jornal do Sudoeste.
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