Direita e esquerda

O problema do Brasil não pode ser resumido apenas à redução da tarifa de ônibus e ao passe livre, como vem acontecendo depois das manifestações de junho. Temos questões mais crônicas e críticas que precisam ser resolvidas com maior urgência, como na área da saúde que vive há anos em estado terminal, com centenas e milhares de perdas humanas diariamente por falta de estrutura e atendimento médico nos hospitais e postos.

No Brasil temos uma salada indigesta de direita e esquerda que desembocam no corporativismo. Cada categoria procura defender sua parte no quinhão. O que mais predomina é a cultura elitista e burguesa, em detrimento do coletivo e do bem-estar de todos.

Temos direita com posições de esquerda, e esquerda com comportamentos de direita. A maioria só pensa mesmo em montar a sua plataforma para o futuro. O que adianta o cidadão ganhar uma ração, se não tem um tratamento digno de saúde e uma educação eficiente que possa crescer e se tornar independente?

Boa parte da nossa mídia tem o pensamento direitista, fazendo o jogo chapa branca do patrão, mas pousa de progressista. Informa o que interessa e esconde o que incomoda.

Raramente se descasca a verdade como ela é e se mostra a parte contaminada do fruto. Ao invés de passar as informações corretas e corajosas, cumprindo sua função de respeitar o direito de todos, procura confundir e manipular, sempre ao lado do mais forte e de quem paga.

Chama-se de vândalos e arruaceiros os protestos de quebra-quebra de vidraças e prédios privados e públicos. Para ser fiel e coerente, deveria taxar também de vândalos e baderneiros os maus políticos, os empreiteiros ladrões e os corruptos em geral que, na surdina e delicadamente de forma sofisticada, dilapidam o patrimônio público. Exemplo mais recente é do hospital em Goiás, cuja construção foi abandonada. Gastou-se 15 milhões de reais e precisa-se de mais 20 milhões para terminar a obra.

Uma banda diz que as manifestações são coisas da “classe média” de direita- hoje classificada por baixo como aquela que ganha dois salários mínimos (pouco mais de mil reais) – como se o protesto e a reivindicação fossem direito apenas da categoria dos descamisados e lenhados. Essa dita “classe média” está, então, proibida de pensar, a não ser que siga a cartilha da patrulha ideológica. Quem se expressar ao contrário está fora. Os pensionistas da previdência social que ganham dois ou três salários mínimos estão vivendo na penúria e ainda são tratados como “classe média abonada”, sem direito a protestar.

Está sendo considerado de fascista e de extrema direita quem pede saída de governantes e políticos que usam e abusam do poder, passeando com familiares e amigos em helicópteros públicos e nos aviões da FAB. Assim posto, quem defendeu a cassação de Collor de Melo foi fascista.

Não estou aqui pregando a violência, mas para esta corja e demais malfeitores, o diálogo é uma via de mão única. Está comprovado que não escutam a voz das ruas e o clamor do povo. Se está existindo atos de fascismo, anarquistas e violentos como falam, os maiores culpados de tudo isso são os que não cedem aos seus privilégios e mordomias.

A ganância pelo dinheiro e o poder em causa própria propicia terreno fértil ao surgimento do radicalismo e ao avanço de uma extrema-direita perigosa para o país. Isso é o que a mídia não aponta nas suas entrelinhas. Prefere esconder as causas. É mais fácil apontar o dedo para as possíveis consequências das turbulências e recriminar as insatisfações. É uma atitude comodista e covarde.

O que percebemos é que existem alas de direita que condenam as manifestações, tanto quanto determinados segmentos da esquerda. A maioria concorda, mas no escurinho do cinema pensa diferente. O que mais falta no Brasil é justiça social onde as leis e os direitos sejam iguais para todos.

Direita e esquerda no Brasil são apenas elefantes brancos como os estádios construídos para a Copa da Fifa que ora reprova, aprova e quando bem quer chama os brasileiros de incompetentes que merecem um pé na bunda. Depois da festa dão uma banana para todos, levando seus sacos cheios da “bufunfa”.

Somos todos de direita quando toleramos a espionagem dos Estados Unidos que dizem que é para o nosso bem. Eles nem dão bolas para o esperneio dos países que sempre foram submissos aos seus atos arbitrários e terroristas. É o chamado complexo de inferioridade, ou de vira lata, como dizia Nelson Rodrigues. Sempre espionaram e vão continuar devassando nossas vidas.

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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