Proseando com um cidadão de Cristalândia

– Bom dia, meu amigo!
– Bom dia, Professor!
– Como vão as coisas lá no Distrito?
– Vão mais ou menos. Era pra estarem melhor. Mais bem cuidadas. Afinal de contas, foi um dos primeiros de Brumado. Foi passagem de garimpeiros, tropeiros, ambulantes e outros viajantes. Tinha um bom comércio.
– Isso eu sei, Mas não existem registros da sua origem em nenhum lugar de Brumado. Já vasculhei isso na Prefeitura, na Câmara, no IBGE e as referências são mínimas. Até entre os mais antigos moradores esses dados são controvertidos.
– Verdade. Ninguém sabe de nada mesmo.
– Os outros Distritos também sofrem do mesmo mal. Nenhum registro histórico. Os filhos de Brumado não se interessam pela História da terra. Nem as Escolas. É uma pena!
– Acho que é mesmo.
– Pelo menos lá tem uma barragem, não é?
– Tem, mas é mesmo que não ter.
– Por quê?
– Porque não serve pra gente em nada. Nem pra beber.
– Pra beber? E lá no povoado não tem água dessa barragem não?
– Não, Professor. A água da Comunidade é a de uma barragem pequena no fundo da Praça.
– E tem algum tratamento?
– Tem não! É água bruta mesmo. Misturada com fezes, urina, esgotos e outras sujeiras. Vem um mundão de gente tomar banho nessa barragem, enlameia a água e é essa que vai para uma Caixa, sendo distribuída para algumas casas.
– E as pessoas bebem essa água?
– Quem tem outro jeito, não. Mas quem não tem só bebe e usa dessa.
– Vocês já reclamaram isso? Já levaram ao conhecimento da Câmara de Vereadores? Do Prefeito? Da Embasa?
– Já foi feita várias denúncias, mas até hoje não tivemos solução.
– E o que é que os Vereadores dizem?
– Não dizem nada, não. Às vezes prometem que vão tomar uma providência, porém até hoje nada.
– E vocês já fizeram algum movimento para isso?
– Movimento mesmo não. Como já disse, só uns pedidos com assinatura de algumas pessoas.
– Puxa, isso é ruim demais. E as Comunidades vizinhas com Várzea de Areia, Morrinhos, Pau de Colher, Umburanas, e outras na redondeza usam que água?
– Ué, água de lagoa, poço de água salobra, cisternas e só. Isso quando chove e enche as aguadas.
– Interessante isso: a água da barragem já chegou em Lagoa Funda, Itaquaraí, Campo Seco e até em Malhada de Pedras, numa distância maior que a de Cristalândia e vizinhança.
– Pois é, Professor, é como se lá não tivesse gente. Por isso que digo que a barragem não é de Cristalândia como falam. É dos outros lugares.
– Por que vocês não se juntam um dia e vão protestar diante da Câmara? Acho bom pensar nisso. Juntar todo mundo da Região e marchar para Brumado.
– Mas o povo é bom demais, Professor. Sofre calado, e com isso ninguém acode. Vive na esperança do Deus dará. Isso não é de hoje, não.
– Sei. Mas se o povo quiser as coisas mudam. Sem precisar pedir favor a ninguém. Muito menos prometer voto.
– É…

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
Categorias