Educação com Covid, na UTI

Tenho alertado a respeito do abandono da educação brasileira há muito tempo. Nos últimos tempos, intensifiquei o foco, escrevi vários artigos sobre o tema, porque a situação tem se agravado, não só pelo resultado constatado na aprendizagem dos estudantes, mas pelo estado cada vez mais precário das escolas públicas e do descaso para com os professores. E a pandemia veio agravar ainda mais o quadro, com as escolas fechadas – tanto a pública como a estadual – atrasando em dois anos o ensino brasileiro. Atrasando mais, muito mais, pois os estudantes não têm aula, muitos deles até hoje.  Além disso, nas últimas décadas foram feitas modificações no sistema de ensino – alfabetização, ensino da matemática, etc., que ao invés de melhorar a educação, prejudicaram ainda mais os estudantes do ensino fundamental, que estão chegando ao terceiro, quarto ano sem saber ler e escrever. E isso reflete nas etapas seguintes, é claro, no ensino médio e também no superior, pois se a base não é boa, todo o resto estará perdido. Sem contar que está havendo mudança no ensino médio. Será que para melhor?

A União e os Estados – o Ministério da Educação e as Secretarias de Educação – não estão dando a devida atenção à educação, não estão investindo na educação. Parecem não se dar conta de que um ensino de qualidade é condição sine qua non para que tenhamos, mais adiante, pessoas educadas e qualificadas para trabalhar e ter uma vida digna, para que tenhamos profissionais qualificados e dirigentes preparados, com um mínimo de cultura para desempenharem um bom governo à frente do país, dos Estados, dos municípios, das grandes empresas. Será que a pandemia do coronavírus, que parou tudo em todo o mundo, vai fazer com que isso melhore? Difícil, não é? Temos dois anos de educação ou de ensino – como queiram, pois é a mesma coisa, conforme o dicionário – para recuperar.

O próprio Mec já admitiu, publicamente, o que temos repetido várias vezes: mais de um terço das crianças do inicio do primeiro grau, com oito anos, nove anos, não aprenderam a ler e escrever, o que compromete, como já dissemos, toda a vida escolar.

Então os responsáveis pela educação brasileira concordam e sabem que o ensino fundamental e médio estão com a qualidade bem abaixo do necessário. Mas voltam a insistir na modificação no Ensino Médio que, ao invés de melhorar a qualidade, pode comprometer ainda mais. Há alguns anos, queriam que as treze disciplinas do Ensino Médio fossem aglutinadas em apenas quatro áreas, porque a excessiva quantidade delas estaria prejudicando o rendimento dos estudantes. Como já disse, isso é temerário, porque o que parece, na verdade, é que estão querendo diminuir o conteúdo curricular para que os estudantes possam tirar melhores notas no Enem e, por conseguinte, parecer que a educação brasileira melhorou.

A mudança atual no Ensino Médio é a adoção de um currículo profissionalizante, onde os estudantes poderão escolher as disciplinas conforme a profissão que escolhem. Tomara que não seja um tiro pelo culatra, como já foram outras “reformas” feitas pelo nosso famigerado governo.
A verdade é que, com o ensino deficiente, a qualificação para o trabalho e para o ensino superior estará prejudicada, como um ministro da educação de antes da era Bolsonaro conseguiu enxergar. E como isso é uma bola de neve, a formação de professores, como de outros profissionais, também não terá a qualidade desejada, pois o ensino superior é a última etapa da cadeia educacional.

Luiz Carlos Amorim

Coordenador do Grupo Literário A Ilha em SC, com 31 anos de atividades e editor das Edições A Ilha, que publicam a revista Suplemento Literário A Ilha e mais de 50 livros editados. Eleito Personalidade Literária de 2011 pela Academia Catarinense de Letras e Artes. Ocupante da cadeira 19 da Academia Sul Brasileira de Letras. Editor do portal ProsaA, Poesia & Cia. (Http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br ) e autor de 27 livros de crônicas, contos e poemas, três deles publicados no exterior.  Blog:  http://lcamorim.blogspot.com
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