Eldorado sem caminho

Em dezembro do ano passado, escrevi um artigo intitulado “Caminhos para o progresso”, que foi publicado nas páginas deste Jornal do Sudoeste. Tratava, basicamente, da condição de que país nenhum do mundo conseguiria desenvolvimento e prosperidade se não investisse em infra-estrutura. Alertei para o fato de que a escolha da malha rodoviária como matriz do transporte no país durante os anos JK mostrava-se atualmente equivocada e, por infelicidade geral, a malha ferroviária ficara esquecida, como se não tivesse sua importância.

Por certo, há uma má vontade institucional e política em não se estimular a recuperação de nossa malha ferroviária. Por ignorância ou má-fé, há quem argumente a favor do transporte rodoviário, que desperdiça milhões de reais em cargas e ceifa milhares de vidas por ano, que o custo de se construir uma ferrovia é alto. Omitem que, uma vez construídas as estradas, existem custos tamanhos: despesas com o patrulhamento, engenharia de tráfego, serviços de urgência e emergência em atenção aos feridos, etc.

Resumindo: se quiser ter um peso num mercado cada vez mais globalizado e competitivo, o Brasil precisa urgentemente recuperar e ampliar a sua malha ferroviária. E, caso venha a tomar esta opção, a Bahia certamente despontaria num horizonte promissor. Lembrei que após a derrota nas urnas, o ex-governador Paulo Souto buscou junto ao governo da Espanha uma linha de financiamento para viabilizar a implantação da Ferrovia Leste-Oeste, ligação ferroviária entre o oeste e o litoral do estado.

Por razões óbvias, a implantação da ferrovia deveria contemplar a construção de uma nova linha ferroviária de Luís Eduardo Magalhães a Brumado, em duas etapas: primeiro ligando Luís Eduardo Magalhães a Bom Jesus da Lapa (a produção do oeste baiano chegaria às margens do São Francisco); em seguida, seria feita a conexão entre Bom Jesus da Lapa e Brumado. A última etapa seria ligar a região de Brumado ao litoral, e um estudo posterior indicaria a melhor alternativa de traçado.

Se este projeto for levado adiante, haveria então, para nós brumadenses, um importante motivo para reivindicar e torcer pelo sucesso deste empreendimento: a Ferrovia Leste-Oeste transformará Brumado no principal (e único) entroncamento ferroviário da Bahia, quiçá do Norte-Nordeste. Já temos um trecho que vem do sul (Minas Gerais) e segue para o norte, terminando no litoral de Salvador, e seríamos “cortados” também em outro sentido, vindo do Oeste (região de Barreiras), chegando ao litoral, provavelmente na região de Ilhéus, pela importância portuária da cidade. Não haveria – como não há atualmente – na Bahia, cidade alguma que seja dotada de ferrovias no sentido Norte-Sul e Leste-Oeste ao mesmo tempo.

Tudo que eu disse até este momento já fora dito por ocasião de um artigo anterior. Como escrevi o outro artigo em dezembro de 2006, e já adentramos o mês de novembro, significa que um ano se passou e pouco se avançou na execução deste importante projeto que será a redenção não só da economia baiana, mas um importante propulsor de desenvolvimento em nosso país.

A publicação “Anuário Exame 2007-2008”, de junho deste ano, publicada pela Editora Abril, trouxe uma matéria intitulada “Por que o Nordeste não deslancha”, apontando como um dos graves problemas da Bahia o fato de ter uma das malhas rodoviárias mais precárias do país. É ressaltado que, sendo dotados de um clima propício e terras baratas, o que nos impede de ser uma potência do agronegócio é justamente o fato de termos estradas ruins. Apesar do PIB de cidades como Luís Eduardo Magalhães evoluir 20% ao ano desde 2000, a produção do oeste baiano, para ser escoada para os portos de Aratu ou de Ilhéus, precisam percorrer mais de 900 quilômetros, o que evidencia que a precariedade do transporte na Bahia é o grande gargalo do agronegócio na região.

No início de agosto deste ano, estive em Barreiras por um período de cinco dias. É assustador o quanto cresce a economia da região, com investimentos nas mais diversas áreas: educação, saúde, cultura, comércio, etc., todas capitaneadas pelo dinheiro do agronegócio. Ainda assim, produtores rurais queixam-se das dificuldades na produção, já que o investimento em tecnologia não é compensado por conta do alto custo com a infra-estrutura e logística, que pode comprometer seriamente o agronegócio na Bahia. De um modo geral, a população local é queixosa quanto aos governos federal e estadual, que parecem ter esquecido a região. Não é à toa que cresce cada vez mais um movimento pela criação do Estado do São Francisco, separando a margem oeste do rio do restante da Bahia, para ter sua capital em Barreiras.

Um repórter da revista Exame, recolhido num escritório na capital paulista, utilizando-se de dados técnicos e uma ou outra entrevista com um produtor rural do oeste baiano e um agrônomo (da Universidade de Campinas-SP), é capaz de apontar, com clareza, quais são os principais entraves ao desenvolvimento de nosso estado. Mesmo não tendo formação em economia, engenharia ou agronomia, pude notar que a região oeste da Bahia, uma nova e promissora fronteira agrícola, carece de maior integração com o restante do estado. Só um cego ou um cretino não percebe isso.

Escrevo desta vez para mostrar que não só Brumado (que pode se transformar no principal entroncamento ferroviário do estado) terá a ganhar com a Ferrovia Leste-Oeste, mas toda a nossa região sudoeste, integrada à região produtora de Barreiras, culminando com uma majestosa integração logística, propulsora da dinamização da economia baiana. Agora fica a pergunta: o que fazem os nossos governantes e representantes, do Palácio de Ondina, passando pela Assembléia Legislativa e dezenas de Prefeituras da região, que não perceberam ainda a urgência e necessidade de se viabilizar tal obra?

Luiz Frederico Rêgo (Fredinho) é Bacharel em Direito pela Uesb e Serventuário da Justiça.

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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