LIMPEZA DO POÇO

Para ilustrar o artigo vamos transcrever do livro Anísio em Movimento, um episódio contado por Luiz Henrique Dias Tavares cuja versão tem a ver com o que vamos relatar.

Certa feita o Dr. Anísio Teixeira, secretário de Educação, foi visitar uma escola que ele construíra. Estava, portanto, nova. Observou que estavam, em uma sala, vários quadros sem ser colocados na parede.

(…)

Perguntou por que não tinham colocado aqueles quadros nas paredes e as professoras que ali se encontravam disseram que era porque faltava quem os colocasse. “- Mas como?”, disse o mestre Anísio. “Colocar um quadro na parede pede apenas que existam o quadro, a parede, o prego e o martelo!” E daí, de repente, em uma inspiração disse: “Vamos fazer o seguinte, vamos verificar nessa sala quem sabe colocar um quadro na parede.” (…).

Cada uma das professoras que tentou, uma martelou o dedo, a outra entortou o prego, a outra esburacou a parede, ninguém soube colocar o quadro. Ele próprio subiu em uma cadeira, colocou o quadro certo, pôs o prego no lugar, bateu o martelo no lugar e o quadro lá ficou. Diz ainda o Dr. Luiz Henrique Dias Tavares: “Só um, homem com a sua grandeza comporta-se dessa forma…”.

Aníso Spínola Teixeira, sertanejo de Caetité/BA (1900-1971) além de muito culto, inteligente e portador de muitas outras prerrogativas que o dignificam como o melhor educador do país, era um homem de decisão.

Determinada época, um grupo de trabalhadores rurais esteve com um fazendeiro de Cristalândia, distrito de Brumado, pedindo-lhe que usasse de sua influência para solicitar do prefeito o pagamento de diárias para a limpeza do poço, o qual pertencia ao fazendeiro e cuja água era fornecida gratuitamente, por benevolência, aos moradores sem nenhuma cobrança pelo uso do líquido. E disseram: “sem o pagamento não faremos o serviço”.  Como resposta receberam a ressalva de que se assim o fizessem teriam de pagar pela serventia.

Diante da proposta, o proprietário, que entendeu ser improcedente, se indignou, levando ao conhecimento deles que ao poder público cabe a administração das coisas do povo, portanto, em propriedade particular que o dono cuide dos seus bens.

Sugeriu que fosse feito um mutirão, já que todos se utilizavam da água sem ônus e fizessem a limpeza proposta e que ele próprio se encarregaria de fornecer a alimentação. Assim o fez, comprando uma alcatra de gado bovino, feijão preto, arroz e farinha e com grandes caldeirões mandou preparar uma comilança regada à cachaça para todos que participaram do trabalho. Dessa forma, retiraram a sujeira do tanque.

Há de se criticar aqueles que, por ignorância ou por conveniência, acham que o poder público é obrigado a atender aos desejos particulares misturando o público com o privado, um erro de avaliação que deve ser conscientizado e esclarecido as funções de cada setor.

Por definição o público é relativo ou pertencente a um povo, a uma comunidade, ao bem comum, por conseguinte, não se deve confundir com o bem privado que é uma coisa que pertence ao particular não governamental.

Em assim sendo o proprietário fazendeiro de Cristalândia fez o seu papel de cidadão, esclarecendo as partes o conteúdo das responsabilidades e o papel a ser desempenhado por cada um.

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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