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Fim de mundo!

Estávamos em 1945 e óbvio que éramos ainda “menino” mas já com oito para nove anos. E a residência era na “magnífica cidade do Paramirim”, perdida no sertão onde há a “caatinga” mas também o Rio Paramirim, afluente do Rio São Francisco, com seus “açudes” ou represas erguida em troncos de “aroeira” permitindo um processo de irrigação que tem origem – é o que consta – lá na China. Apesar de distantes dos então meios de comunicação, o “velho Aurélio” (o pai, o amigo) colhia notícias num rádio marca “RCA Victor” tocado por um acumulador que hoje se chama de “bateria e se usa em veículos”. Primeiro se ligava a bateria e depois o rádio, no horário certo, não me falhando memória “Rádio Nacional”, às 20 horas e a voz de Heron Domingues. E as notícias sobre a 2º eram ouvidas em silêncio de um público que se acomodava em cadeiras de “couro cru”, no então Clube Social.

Não vamos tocar nos festejos quando a guerra acabou. Um certo dia, depois que os DOIS EXPEDICIONÁRIOS paramirienses já estavam lá pela tomada do “Monte Castelo”, na Itália do então “Mussulini e etc.” ouvi pela primeira vez a minha mãe opinar sobre o momento:
– Ter um filho já bem criado como fez dona Maria e depois saber do risco que ele corre lá tão longe de MORRER é para se abaixar a cabeça, pegar o terço e uma toalha para rezar AO SENHOR e chorar as dores que se sente …
Não me recordo muito mais (afinal tinha oito anos e hoje 82) mas estes tristes dias do CRIME ou GENOCÍDIO (como deseja um amigo) registrado em Brumadinho (eu nasci em Brumado, lá na Bahia), Minas Gerais só penso e vejo a imagem de DONA HILDA, minha mãe a dedilhar o terço e rogar para o término de uma guerra e o retorno dos filhos da terra (o que aconteceu). Desde o caso de Mariana que nada me convenceu de que não há um culpado e agora dentro de mim explodiu a certeza:

                  – O sepultamento em massa sob lama de uma represa em BRUMADINHO, Minas Gerais deve ser registrado como nunca registrado em algum lugar. Se pararmos mais para uma análise não foi ACIDENTE de maneira alguma. Sepultaram pessoas hígidas ainda com vida. Deixaram apenas lembranças. E REVOLTA!
Tenho me controlado. O momento que a notícia foi dada passei a ter “aquele abafamento” que cultiva a tristeza, revolta, indignação e por ai em diante. E então resolvi e adotei com ÊXITO a pelo menos duas vezes (manhã e noite) me isolar e no silencia do quarto orar e assim fico a repetir palavras das mães, das famílias que até jamais vimos ou dificilmente veremos mas que ELE com sua BONDADE estenderá a mãe e dará paz tão precisa para continuação da VIDA que ficou. ORAR.ORAR.Só.

Em-27.01.19

Aurélio Rocha

Aurélio Rocha

AURÉLIO ROCHA É NATURAL DE “OLHOS D’ÁGUA DE DEOU”, BRUMADO, CRIADO EM PARAMIRIM; PROFESSOR TITULAR DA DISCIPLINA DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA DA FACULDADE DE MEDICINA DE ITAJUBÁ, MINAS GERAIS; JORNALISTA E AUTOR DO LIVRO “CRÔNICAS NÃO MÉDICAS”.
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