POR LUIZ FREDERICO RÊGO (FREDINHO)
O assunto da vez foi o apresentador Luciano Huck atacar o Bolsa Família justamente num momento em que Lula volta a crescer politicamente, enquanto nomes associados ao bolsonarismo enfrentam desgaste e perda de força eleitoral. Talvez seja coincidência. Talvez não. Mas é impossível ignorar que setores da elite econômica brasileira já começam a olhar para o pós-Lula e para a necessidade de construir um nome capaz de representar, com carisma e apelo televisivo, os interesses do mercado financeiro e da Faria Lima sem o desgaste radical do bolsonarismo.
O vazamento de mensagens e áudios do senador Flávio Bolsonaro cobrando do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, o financiamento de R$ 134 milhões para a cinebiografia de Jair Bolsonaro, intitulada “Dark Horse”, abriu uma crise política que abalou sua imagem pública e suas pretensões eleitorais para o pleito presidencial, com o desgaste político e queda de intenções de voto registrados pelos dois principais institutos de pesquisa do país: o DataFolha e a AtlasIntel.
O revés de Flávio, candidato do clã Bolsonaro, acaba sendo politicamente favorável para Lula. Embora a eleição ainda esteja distante, os dois seguem como os únicos nomes com real capacidade de polarizar a disputa presidencial. Os demais, até aqui, orbitam como coadjuvantes.
Josias de Souza observou em sua coluna no UOL que Bolsonaro se aproveitou da hesitação de Tarcísio, Caiado, Zema e Ratinho Júnior para manter a centralidade política conquistada nos últimos anos. Na leitura do jornalista, os governadores acabaram se tornando reféns de um líder inelegível que tenta preservar a hegemonia familiar sobre uma direita que, segundo ele, “não quis se endireitar”.
Num cenário de reeleição de Lula, a sucessão governista inevitavelmente começará a ser desenhada em torno de nomes como Haddad, Camilo Santana, Alckmin ou Tebet para 2030. E a oposição ao PT, que nome teria? Jair Bolsonaro ainda estará inelegível, e dificilmente conseguiria apoio do campo anti-petista para indicar novamente um herdeiro seu. Mas também não sobrarão chances para Tarcísio, Caiado, Zema e Ratinho Júnior – que deixaram o cavalo selado passar agora em 2026, como bem observou Josias de Souza – se projetarem à Presidência, porque os deuses da política punem impiedosamente os covardes. O que não significa que o mercado e o establishment não apresentarão o seu ungido…
Huck pode nunca disputar uma eleição. Pode não conseguir viabilidade em 2026. Mas é evidente que seu nome continua circulando no imaginário político da elite liberal brasileira como uma possível alternativa futura, quando o lulismo inevitavelmente terá de enfrentar a sucessão de seu principal líder histórico e o bolsonarismo talvez já não consiga impor um herdeiro familiar competitivo.
Por isso, a fala de Huck de que o Bolsa Família não gera estímulo para as famílias saírem da pobreza e que os beneficiários buscam “atalhos” para permanecer no programa não é irrelevante. Ela expressa uma visão de mundo. E essa visão de mundo trata política social como problema, enquanto naturaliza privilégios bilionários no topo da pirâmide.
O Bolsa Família, ao contrário do que insinuam seus críticos, não é “esmola” nem incentivo à acomodação. Dados do Ipea mostram que cada R$ 1 investido no programa gera R$ 1,78 no PIB. Já o Banco Mundial apontou redução de 28% da pobreza extrema no Brasil graças ao programa. Além disso, há exigências ligadas à frequência escolar e acompanhamento de saúde das crianças. Não é apenas transferência de renda: é política pública de proteção social e combate ao ciclo intergeracional da miséria.
Mas é fácil relativizar a importância de R$ 600 quando se vive distante da realidade concreta da esmagadora maioria da população brasileira. Estamos falando de um apresentador com patrimônio bilionário, salário milionário na televisão e inserção permanente entre empresários, banqueiros e investidores. Enquanto famílias pobres usam o benefício para garantir comida no prato, o debate promovido por parte da elite parece tratar o pobre como suspeito moral por sobreviver.
Se o Bolsa Família não ajuda as pessoas a saírem da pobreza, o que ajuda? O Familhão que o apresentador divulga? As bets que ele promove em seu programa? Há quase duas décadas ele passa os finais de semana entrando na residência de gente pobre para distribuir prêmios ou promover reformas, como se se importasse com os pobres, quando na prática explora a pobreza como entretenimento na televisão, com um discurso sem qualquer lastro estatístico ou científico, baseado mais em preconceito social do que em realidade.
E existe uma contradição ainda mais incômoda nisso tudo: o mesmo ecossistema midiático que relativiza o impacto devastador das bets sobre famílias pobres agora aponta o dedo para o Bolsa Família como se o problema econômico nacional estivesse no auxílio de sobrevivência pago aos mais vulneráveis. Hoje o Brasil enfrenta uma explosão do vício em apostas online, comprometendo renda familiar, ampliando endividamento e destruindo financeiramente milhares de pessoas. Mas curiosamente a indignação moral de certos setores nunca é proporcional quando o assunto envolve negócios altamente lucrativos para o mercado publicitário e financeiro.
Ao mesmo tempo, tramita no Senado um pacote de renegociação, incentivos e benefícios ao agronegócio que pode gerar impacto superior a R$ 800 bilhões aos cofres públicos – dinheiro do Pré-Sal para financiar produtores rurais pelo prazo de 10 anos. E quase ninguém da elite midiática chama isso de populismo. Quase ninguém diz que grandes empresários ficaram “acomodados” por dependerem do Estado.
Também não existe o mesmo rigor discursivo quando surgem escândalos bilionários envolvendo grandes grupos econômicos e o sistema financeiro — casos como os 40 bilhões das Lojas Americanas, os 50 bilhões do Banco Master e os 52 bilhões do Grupo Refit (antiga Refinaria de Manguinhos) mostram prejuízos gigantescos e impactos muito superiores ao custo de políticas sociais voltadas aos pobres. Ainda assim, o alvo preferencial do moralismo econômico continua sendo quem recebe auxílio para sobreviver.
No fim, a sensação que fica é que parte da elite brasileira aceita tranquilamente bilhões em benefícios fiscais, renegociações empresariais e socorros financeiros para os de cima, mas entra em pânico quando o Estado garante o mínimo para os de baixo.
Difícil não evocar a frase de Pepe Mujica: “Os que comem bem, dormem bem e têm boas casas acham que se gasta demais em política social.” Talvez seja exatamente esse o ponto.
Conhecido por apagar fotos nas redes sociais com quem cai no ostracismo — Aécio Neves, Sérgio Cabral, Eike Batista, Sérgio Moro, entre outros ex-amigos —, no último domingo Huck ensaiou uma “nota de esclarecimento” que já começa num tom conhecido das desculpas dadas por todos os preconceituosos: o de que “tiraram do contexto” sua fala, de que é favorável aos programas sociais e que acha que “em tempos de Inteligência Artificial” o programa deve ser aprimorado. Na verdade, ninguém tirou a declaração dele de contexto em momento algum. Ele acusa famílias de desejarem a condição de se eternizarem no programa e se incomodou não por revelar o que pensa do Bolsa Família, mas porque as pessoas descobriram o que ele realmente pensa quando está entre gente rica como ele — e a máscara do bom moço solidário caiu.
Minha desconfiança com Luciano Huck, inclusive, não começa agora. Ela remonta à velha declaração atribuída a ele nos anos 1990, relatada pelo jornalista Mylton Severiano, de que “baiano não entra” em um bar que ele era sócio nos Jardins. Verdadeira ou não em sua literalidade, a frase sempre simbolizou algo muito presente na elite do Sul e Sudeste brasileiro: o desprezo histórico contra nordestinos, justamente a população cuja força de trabalho ajudou a construir economicamente as regiões mais ricas do país.
E continuo desconfiado das intenções dele. Coincidência ou não, o apresentador da Globo só reclamou do Bolsa Família depois que o governo Lula proibiu em outubro do ano passado beneficiários dos programas sociais de gastar o benefício em bets, baseado num levantamento do TCU que apontou que famílias beneficiárias transferiram quase 4 bilhões para plataformas de apostas via PIX num único mês.
Há ainda outra coincidência curiosa nesse mesmo fim de semana em que se divulgou a fala de Luciano Huck diante de investidores criticando o Bolsa Família. Por acaso vi uma reprise de um programa da GNT apresentado por Angélica, explorando referências imagéticas associadas à diversidade, carisma e representação simbólica. A apresentadora divide a bancada com a escritora Tia Má, as atrizes Clara Moneke e Paola Oliveira e o ator Rômulo Estrela, este com uma placa na cabeça de uma personalidade, para que, com as dicas dos demais participantes do programa, ele adivinhe de quem se trata. E eis que Angélica começa a falar das qualidades de ninguém menos que Michelle Obama, ex-primeira-dama dos Estados Unidos. Fiquei a imaginar se já está em curso um projeto para apresentar ao Brasil, passadas as eleições de 2026, que precisamos de um casal Obama no Palácio do Planalto.
Talvez não signifique absolutamente nada. Talvez seja apenas programação de grade. Mas em tempos de construção permanente de imagem pública, também é legítimo perguntar como figuras da televisão vão sendo, aos poucos, reposicionadas no imaginário político nacional.
Afinal, lideranças contemporâneas não nascem apenas da política institucional. Elas também são produzidas pela mídia, pela publicidade, pela linguagem afetiva da televisão e pela capacidade de parecerem familiares, moderadas e socialmente palatáveis para amplos setores da população.
E Luciano Huck talvez compreenda esse mecanismo melhor do que ninguém.


