Ô dó dos críticos de plantão!

Nesta segunda-feira, vinte e cinco de maio, feriado antecipado, por conta dessa pandemia, tenho ocupado o meu tempo, da manhã à noite, à frente do meu computador, escrevendo os meus textos poéticos, graças à inspiração que me inunda a mente, sem deixar que a medonha expectativa tome conta de mim, e me faça viver que nem peru, morrendo antes de véspera.

Redobrei os contatos com muitos poetas, fiz pelejas criativas, escrevi glosas, fiz sonetos, cantei galopes à beira do mar, fiz martelos agalopados, e trilhei por outros momentos da literatura de cordel, e das cantorias nordestinas, além de outras criações comuns dÉ umessa realidade cultural.

Esse que-fazer me envolve tão prazerosamente, que não sinto o fluir das horas a fio, na minha sala de “ócio criativo”, a ponto de ouvir as lamúrias domésticas de que não faço outra coisa, a não ser batucar versos com os meus dedos.

Em “tendo coisa melhor do que isso, aí Camilo morre”, para lembrar-me de uma velha piada das nossas circunstâncias,sempre que ocorria algo de incomparável sabor, para, então, merecer a referência ao mote da noite de lua de mel de um dos dois irmãos mabaços.

Motivos esses à parte, lembrei-me de Moraes Moreira, como se pudesse esquecê-lo, e fui ao meu arquivo virtual, onde guardo as suas criações poéticas, e escolhi a que se segue, para tecer alguns comentários sobre a literatura de cordel, em especial da sua condição de cordelista, para glória da nossa Academia, e de tantos outros que mourejam nessa arte, merecedores desse batismo.

Uma riqueza de arquivo, e como tive sorte de guardar tudo o que ele me mandava e produzia com espantosa criatividade!.

Assim, não era mesmo de se acreditar que ele se sujeitasse, apenas às três regras tradicionais do modelo poético do cordel, como só bastasse isso para criá-lo, sem que pudesse dar azo à sua genialidade, expressando-se numa rima imperfeita, aqui ou acolá, em um pé-quebrado na métrica, sem se levar em conta o contexto da estrofe, à estética de cada verso, e , principalmente, a sua intenção de compor a sua oração sem nenhum defeito.

Se como exímio compositor, ele já brincava com as palavras, já fazia alegres trocadilhos, tudo com o fito da construção de uma letra (poema) musical, como não poderia fazê-lo em seus poemas de cordel dentro dessa dimensão?
Quando ele se propôs a passar de “cantor pra cantador”, ingressando na ABLC, dizia-me que tinha criado um novo espaço, no qual figuraria como um verdadeiro poeta (e esse ser poeta, já engloba o cordelista), escrevendo livros de poesias e declamando em seus shows. Dito e feito.

Nessas oportunidades, aparecia com o perfil único do artista que era, para não se confundir com mais ninguém, e, dessa forma, concordar com o que dele meu pai me dizia também, nas raras vezes que ele retornou ao nosso convívio, em Ituaçu, sob o seu orgulho: — Zé, todo mundo vê que Morais é um artista. Olha o tipo dele. Chama logo à atenção! E era verdade. Em qualquer lugar por onde passasse. Sempre igual. Sem disfarce. Reconhecido e admirado.

Hoje, trago mais uns dos seus belos poemas, intitulado “Escala em cordel”, recheado de metáforas, de rimas ricas, de uma estrofe diferente, por que rima deste o primeiro verso da septilha, também esta uma invenção, numa cantata musical, na qual define, poeticamente, cada uma das notas. Não importa, que ele tenha rimado, uma vez, cordel com céu, rima condenada pelos puristas, como se fosse um crime literário, ou um pezinho quebrado em um dos versos, que poucos veem, para encontrar defeitos num desses poemas. Vejam, pois, e descubram!

ESCALA EM CORDEL (Moraes Moreira)

Não tenha mais DÓ de mim
Seu coração já tem dono
A linha chegou ao fim
Eis estação do abandono
Eu só preciso aprender
Sozinho como é viver
E não perder mais o sono.

Na marcha RÉ desse amor
O nosso trem não tem volta
Quem não semeia rancor
Também não colhe revolta
Bote no seu pensamento
Que vai chegar um momento
Em que a tristeza lhe solta.

Inclua MI fora dessa
Quem vê o tempo fluir
Naturalmente tem pressa
E passa a não repetir
O erro de um passado
De um passo que já foi dado
Só quer o que está por vir.

Agora no tom de FÁ
Na escala deste cordel
Melhor que ele não há
É no caminho do céu
As vozes de um Coral
Já se acomodam geral
E ganham logo o troféu.

O SOL me deixa a vontade
Nos trópicos da alegria
E eu quero ver novidade
E quero muita euforia
Pois tudo que a vida tem
De bom, nós temos também
Aqui nessa freguesia.

Deixa pra LÁ minha vida
O importante é o prazer
Sei que você é movida
A outro jeito de ser
Deus sempre vai dar razão
A quem tem bom coração
E nem precisará dizer.

Etérea quase a exalar SI
Eu vejo a tua imagem
Matéria que ao condensar-se
É a luz da nossa viagem
Adoro que tu concordes
Passar por estes acordes
Mesmo que seja miragem.

José Walter Pires

José Walter Pires

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