O ÚLTIMO RECURSO

O filme O Último Ditador, do genial Charles Chaplin, é uma das mais inspiradoras obras cinematográficas de todos os tempos, em que o inapagável Carlitos pronuncia “O último Discurso”. Nele, inspirei-me para escrever a paródia que se segue, infelizmente de fatos reais, envolvendo circunstâncias tristes, burlescas, humilhantes e de vergonhoso cinismo em face do que é mais essencial na vida dos povos e dos indivíduos em particular: a EDUCAÇÃO.

Falo, então, do nosso “Último Recurso”. Sinto muito, mas não pretendo ser governadora. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou maltratar quem quer que seja – professores, policiais, funcionários públicos… Eu sou educadora e gostaria de entender, se possível, os políticos que não cumprem as leis, os insensatos que abusam do poder… os idólatras de ocasiões nefastas.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Ou quase todos nós. Por que haveremos de desprezar e menosprezar os educadores? Neste mundo, há escolas para todos, para os que querem aprender e também para os que não aprendem o que lhes é ensinado. As promessas que não são cumpridas podem prover as necessidades dos que estão no poder.

O caminho da educação pode ser o da liberdade e da certeza de que através dela não nos extraviaremos. A cobiça envenenou a alma do homem… levantou no mundo as muralhas do egoísmo e tem-nos feito marchar a passos lentos para uma greve que paralisa as lições, mas que, ao mesmo tempo, edifica no educador aquilo que o faz diferente – ser o mestre que não se cala diante daqueles que só amedrontam e não o respeitam.

Criaram a política, mas nos sentimos enclausurados diante de pseudopolíticos, que não cumprem as leis. Ensimesmados em seus palácios, arrotam uma sabedoria que não existe dentro deles. A arrogância e insensatez os fizeram empedernidos e cruéis. Seus conhecimentos os afastaram do pouco ou do quase nada que aprenderam nos bancos escolares. Mais do que de governadores insensatos, precisamos de humanidade, mais do que poder precisamos de educadores e escolas de qualidade, sem isso a vida será de violência e tudo será perdido.

A escola, o livro e o caderno aproximam o aluno do educador. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloquente ao conhecimento do homem, mas nem todos entendem essa lição. Meu texto poderá ser lido por milhares de pessoas, Brasil afora… milhares de estudantes, pais, professores angustiados diante da greve, esse último recurso que nos faz incompreendidos por aqueles que só criticam e mascaram situações.

Somos educadores vítimas de um sistema que minimiza o nosso papel na formação de filhos e filhas desse Brasil varonil. A todos que me leem nesse momento, eu digo: Não vos desespereis! O governo não quer negociar com os educadores porque perdeu a compostura de tudo aquilo que é direito e do que é dever. Dita regras descabidas, exige o que ele nunca ofereceu, mas prometeu e se nega a pagar os 22,22% relativos à implantação do piso salarial, que é direito do educador.

A desgraça que tem caído sobre a educação é produto da cobiça em agonia por parte de dirigentes tão nefastos e impiedosos, da amargura de homens que temem o avanço do ensino e, automaticamente, do progresso humano.

Os políticos camaleões um dia desaparecerão, os ditadores sucumbirão, mas o valor de um verdadeiro mestre, há muito arrebatado da sociedade, há de retornar a ela. E, assim, não deixaremos os nossos direitos morrerem, como morre a esperança depositada em políticos que enganam e que nos fazem acreditar na máxima maior: “Queres conhecer o homem, dê-lhe poder”.

Governador, não escravize os educadores! Esses missionários da educação só querem o que lhes é de direito. Profissionais que respeitam seu ofício, que um dia o ensinaram a ler, escrever e, de certa forma, a se tornar um político que navegou numa cartilha sindicalista e que, hoje, parece não se recordar disso, de quando até mesmo criticava governos que desrespeitavam profissionais da educação.

Memória curta e atroz. Não somos pseudopolíticos. Educadores é que somos! E com amor pela missão que, incansavelmente, cumprimos em salas de aula superlotadas, tanto de alunos que almejam aprender como da parcela enorme dos que passam pelos bancos escolares por mera obrigação ou imposição dos pais, onde cresce o desinteresse e a violência num cenário que outrora foi respeitado e seguro.

Políticos, não trabalhem pela escravidão e perseguição! No 17º capítulo do evangelho de São Lucas, está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem, mas de todos os homens. Só não está dentro de 33 deputados escovas-bota, fiéis a um governador autoritário, que massacra o educador.

Mas está dentro do povo, está em cada profissional que exerce com dignidade seu trabalho, está no professor que, juntamente com seus alunos, criam e recriam aulas, sorriem sorrisos puros e buscam transformar a vida numa aventura maravilhosa, no longo processo ensino-aprendizagem. Seria utopia? Não, é sede insaciável de democracia.

Usemos, então, esse poder e liberdade, para lutar por uma educação de qualidade para nossas crianças e jovens, onde professores sejam valorizados, com salários dignos e tenham seus direitos respeitados. Que possam se aposentar sem que seus justos benefícios sejam violados, as escolas seguras e organizadas, uma educação de qualidade para satisfação tanto de quem ensina quanto dos que necessitam aprender e, enfim, de toda sociedade.

Lutemos por um país que tenha políticos sensatos, humanos e sérios, que aos educadores seja assegurado o ensejo de trabalho digno e de um futuro promissor à mocidade e segurança na velhice. É pelas promessas de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão.

Os ditadores liberam-se, porém, escravizam o povo. O governo torna-se tirano quando se nega a discutir situações das quais ele não conhece e abusa do poder que exerce, cortando salários, ameaçando, mostrando total descaso para com a educação.

Governador, ouça os professores, que, há mais de vinte dias, tentam negociar a respeito da greve, esse último recurso que lhes restou. Onde estiveres, levanta os olhos! Vês, governador, se analisares bem, tens esse dinheiro para solucionar o problema dos educadores, que estão com as atividades paralisadas por culpa da ganância e prepotência que habitam em tua alma de político incoerente.

Vês, são tantos estudantes prejudicados por causa de míseros 22,22%, diante do tanto que os políticos ganham, mas que para os educadores é o mínimo que “mereceriam”, como piso salarial. Mesmo assim, lhes estão sendo dolorosamente negado. Se não tiveres os recursos, para algo que é vital na sociedade, para que mais terá e para que serve, então, um governador?

Ergue os olhos, governador, desça do pedestal e ouça! A alma do educador ganhou asas e, afinal, começa a voar, para garantir seus direitos, mesmo que isso tenha nome de GREVE. Voar, quando nada, para a esperança de que vale a pena ser EDUCADOR, mesmo quando sentem que tripudiam sobre sua missão de ENSINAR.

Voa para a luz da esperança de que tudo pode mudar, porque nenhum ganho social vem sem LUTA. Ergue os olhos! Saia da pequenez política que o levou a pedir a decretação da ilegalidade do nosso movimento, não leve para a sua história essa mancha. Tente enxergar a grandeza desses profissionais, que ajudam a construir a infinitude da Educação. Então, 22,22% JÁ!

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
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